D. Antonio d'Almeida

ALFERES DO EXERCITO

COM O CURSO COMPLETO DE ENGENHARIA

EM COMMISSÃO HYDROGRAPHICA

NO CONCELHO DE MONTEMÓR O VELHO.

Dezembro de 1857.

COIMBRA

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

1858.

Um grande numero de rios da Europa, que antigamente corriam placidos

entre as suas margens, appresentam hoje um curso extremamente irregular;

as suas inundações formidaveis causam nos valles, que deveriam

fertilisar, desastres, cuja repetição deu o alarme ás povoações

marginaes.

O Sena, o Loire, o Saone, o Isère, o Rhodano o Durance têm assolado a

França 'nestes ultimos annos com inundações cada vez maiores. Na Italia

o Tibre e diversos outros rios, pelas suas frequentes enchentes,

flagellam os valles. Em Portugal o Tejo e o Mondego offerecem phenomenos

similhantes; se entre nós não foram estes tão desastrosos como em outros

paizes, a perda das sementeiras, das colheitas, dos gados e dos

instrumentos de lavoura, têm sido por vezes o resultado funesto para a

importante classe dos lavradores.

Cabe pois ao Governo, sentinella avançada dos interesses do Paiz, mandar

estudar e executar os trabalhos indispensaveis para remediar o mal, aos

homens da arte indagar qual deva ser o remedio applicavel com mais

vantagem e menos dispendio.

Conheço as minhas fracas forças para arrostar com tão ardua tarefa,

porém desejo ser util em alguma cousa: se errar, sirva ao menos esta

memoria de lembrar a penas mais habeis a importancia da questão, para,

com a emenda, fazer surgir a verdade.

A causa das inundações é, como todos sabem, a concurrencia rapida e

quasi simultanea em o leito dos rios das massas aquosas parciaes,

trazidas pelos seus affluentes quando as chuvas são copiosas ou são

reforçadas pelo derretimento das neves nas montanhas; mas sendo a bacia

dos rios a mesma que outr'ora, não tendo variado as circumstancias

climatericas, por que motivo os mesmos phenomenos naturaes produzem hoje

na Europa effeitos que antigamente se não davam e não têm lugar ainda

hoje na America, onde a civilisação está menos adiantada? A razão é

obvia: é porque na America as montanhas ainda estão cubertas de mattas

virgens que demoram as aguas, em quanto que na Europa a população mais

densa roteou os montes para se alimentar.

Quasi todos os autores estão concordes em attribuir a esta causa os

estragos produzidos pelas aguas nos valles.

Juliano narra que no seu tempo o Sena corria sempre limpido com um nivel

quasi constante; hoje as suas aguas são turvas, e o seu nivel eleva-se

ás vezes de 6 até 8 metros[1]. Esta mudança, diz M. Marry, é

evidentemente devida á cultura dos terrenos inclinados, antigamente

cobertos de mattas. Mais adiante, lê-se no mesmo tractado: «O que tem

occorrido durante alguns annos successivos na bacia do Rhodano, prova

que a roteação do Jura e principalmente dos Alpes teve para as bacias

que recebem as suas aguas as consequencias as mais funestas.»

Voltando ao nosso Mondego, parece que antes de 1400 os senhorios

obrigavam os rendeiros do campo _a fazerem ahi pousadas e moradas, e a

morar nas terras corporalmente por si e suas pessoas_.

No cartorio de S. Pedro em Coimbra existe uma sentença proferida na éra

de 1392 pelo Vigario da dicta cidade contra um inquilino: no pleito foi

allegado pela senhoria que era costume antigo _pagarem os lavradores que

morassem nas terras que as Egrejas de Coimbra tinham no campo o dizimo

dos fructos e crianças_[2] á Egreja, cujas forem as dictas _terras_[3].

Ouvimos pela primeira vez fallar nas inundações do Mondego em uma Carta

Regia de D. Affonso V, do anno de 1464, que prohibe as queimadas e

roteação das alturas vertentes no Mondego. (Lei que se não executou por

iniqua.) Mais tarde o Marquez de Pombal renovou esta lei com o mesmo

resultado. D'essa épocha em diante os clamores dos lavradores do campo

subiram ao throno de todos os nossos Monarchas sem que se achasse o

remedio.

Vê-se que já em 1464 se conhecia a causa das cheias, a mesma que hoje

apontamos, não só para o Mondego, mas tambem para grande numero de rios

da Europa.

O mar é provavel banhasse em épochas anteriores á Monarquia todo aquelle

valle a que chamam campos de Coimbra. Santa Eulalia ou Santa Olaia,

pequeno castello situado em um monte isolado ao Oeste de Monte-mór o

Velho, na entrada do paul de Fôja, tendo sido tomado aos Mouros pelo

Conde D. Henrique, foi doado por elle ao Mosteiro de Sancta Cruz _com

todas as rendas, portagens e mais direitos dos navios que entravam pela

foz do Mondego_[4]. Quatro seculos mais tarde, El-rei D. Manuel mandou

edificar uma ponte de pedra no paul de Fôja em lugar da de madeira que

existia _para obviar aos grandes fracassos que occasionavam aos povos as

marés que a inundavam_.

Em 1790 as marés ainda chegavam á barca de Monte-mór, junto ao monte da

Ladroeira[5]; hoje o seu limite é muito mais visinho ao Oceano; sómente

as marés grandes do equinocio do outomno fazem-se sentir até alli pelo

empate da agua do rio, que então traz pouca.

Não me demorarei em demonstrar que o campo levanta com os nateiros

depositados pelas cheias: O convento de Santa Clara, enterrado até ás

impostas da abobada da Egreja, edificios que desappareceram

completamente juncto a Coimbra, o provam de sobejo; ora, suppondo que os

nateiros elevem o campo de um quarto de pollegada por anno, termo medio;

de certo não serei taxado de exagerado pelos lavradores, admittindo que

o rio começasse a transbordar desde o anno 1400, pois no anno 1464 já

ouvimos queixas: serão 457 annos, o que nos dá 19 palmos d'elevação

desde o anno 1400 até agora; ora, segundo o nivelamento feito por

Estevão Cabral em 1790, a agua na ponte de Coimbra estava 63 palmos a

cima do preamar, logo em 1400 achava-se sómente 44 palmos acima d'este

plano; se o terreno conservou sempre a mesma inclinação relativa,

resulta que a maré em 1400 chegava a uma legoa de Coimbra ou pouco mais,

pois elle dá de declive 22 palmos á 1.^a legoa. Infelizmente não é

sómente o campo que levanta; o alveo do rio eleva-se mais depressa pelos

depositos d'arêa trazidos da Beira no tempo das cheias, a ponto que

chega á altura dos campos, e o Mondego abre um novo leito; assim tem ido

correndo á revelia por todo o valle nos seculos de que fallámos,

apoiando-se, ora nos montes do norte, ora nos do sul, cubrindo as terras

com camadas de arêa: haja vista o leito antigo ao nivel do campo, e o

novo encanamento feito em 1792, já meio entulhado, deixando apenas um

metro d'altura entre seu alveo e o nivel do campo.

Resumindo: «*O valle levanta com os nateiros; as marés retrogradam á

proporção; o alveo do rio eleva-se mais depressa que o campo; chegando á

altura d'este, as aguas procuram um novo leito.*» Eis a indole

invariavel do Mondego desde seculos, demonstrada tanto pelos documentos

historicos como pela observação dos factos que têm lugar á nossa vista.

Adiante procuraremos deduzir d'ella as legitimas consequencias. Mas

antes d'isso lancemos uma vista d'olhos sobre os inconvenientes trazidos

por um regimen tão irregular. São de duas especies: 1.^o considerados em

relação aos campos; 2.^o em referencia á navegação.

Pelo que diz respeito aos campos, o defeito capital do rio é sem dúvida

a sua grande elevação, que, como já vimos, tende sempre a augmentar. No

estado actual, um metro d'agua no rio, os campos já estão alagados:

quando essas inundações vêm no inverno depois do recolhimento ou antes

das sementeiras, as aguas não causam mal aos campos, antes pelo

contrario os fertilizam, é o seu estrume, nem se emprega outro; sem

ellas o campo era improductivo, pois o seu solo é formado de uma areia

fina misturada de humus sem argila quasi nenhuma; mas, quando as cheias

se apresentam em maio, fins d'agosto ou setembro, o mal é irreparavel:

vão-se as esperanças e o suor dos lavradores; a colheita está perdida.

Mesmo quando as inundações vêm em tempo competente, a grande velocidade

que traz a agua despenhada das serras, d'onde desce em torrentes,

escorregando sobre um terreno de grande declive e nú, composto de areias

roladas sem aggregação quasi alguma, leva comsigo enormes massas de

arêa, que vai depositando pouco e pouco, á proporção que a sua

velocidade diminue, isso é no leito do rio navegavel, de modo que por

baixo do rio temos um _rio d'arêas_, parte das quaes, d'involto com as

aguas, penetram pelas quebradas, para invadir o campo, que cobrem de

suas camadas e tornam o terreno improductivo por muito tempo; vejam-se

os campos de Bolão, onde as arêas esterilizaram duas legoas de

comprimento, sobre um quarto de legoa de largura. Se ao menos o Mondego

conservasse durante uma grande parte do anno uma estiagem regular, e um

volume d'agua maior no intervallo de cada cheia, as areias seriam

conduzidas ao mar pela corrente; mas 15 dias depois da chuva, o rio tem

mui pouca agua.

Em quanto á navegação, raras vezes no anno essa se faz com commodidade e

com a brevidade necessaria: assim no verão, a pouca agua que traz o rio,

ainda essa espalhada em diversos caneiros no mesmo leito, não dá

profundidade sufficiente para os mais pequenos barcos poderem navegar

com facilidade; a navegação faz-se então á vara, os barqueiros vêem-se

na obrigação de saltarem muitas vezes ao rio, e mesmo escavar a areia

para abrirem passagem; os barcos levam menos de meia carga, e gastam

dois e trez dias para ir da Figueira a Coimbra, quando deveriam gastar

um, mesmo na ausencia de todo o vento: d'ahi resulta uma grande despeza

de transporte para os generos que seguem esta via de communicação

principal de toda a Beira.

Para se conhecer a importancia d'essa navegação, direi que a Figueira é

hoje o 3.^o porto do Reino; 12 barcos cada dia (termo medio) transitam

pelo rio com generos, o que dá annualmente 4320 barcos, que, a 5

carradas cada um, transportam 21600 carradas além dos passageiros, que

são muitos visto que no inverno, por falta d'estrada, a communicação

entre Coimbra e Figueira por terra torna-se de uma difficuldade immensa.

Conhecida a causa do mal, que é, como já dissemos, a velocidade com que

as aguas da chuva descem dos montes ao rio, cavando enormes barrocas nos

flancos da serra, arrastando comsigo as areias para deposital-as no

leito do Mondego e por cima dos campos, ha duas especies de meios a

empregar para remover o mal: 1.^o _os meios preventivos_; 2.^o _os meios

repressivos_. Ninguem duvída, creio, que os primeiros sejam os mais

suaves e os mais valiosos tanto em politica, em administração, na guerra

como nas sciencias. A Hygiene é preferivel á medicina, e esta prefere

quando póde a prevenção á repressão.

Os elementos são temiveis, não por si, mas pela somma immensa dos seus

esforços parciaes: é pois antes do seu grande incremento que devemos

combatel-os, o que para os rios significa que devemos atacal-os na sua

origem, vêr se é possivel diminuir o volume das aguas que chegam

simultaneamente aos valles, demorando-as sobre o declive dos montes, e

para o Mondego especialmente evitar a alluvião d'arêas que vêm entulhar

o alveo.

Os meios até hoje empregados no Mondego foram todos

repressivos,--construir marachões, fazer encanamentos parciaes, ora pelo

norte, ora pelo sul; o resultado foi sempre o mesmo; o rio melhora por

algum tempo, entulha-se de arêas, é mister um novo encanamento em cada

seculo[6]; ora, proseguir em um systema de que a experiencia tem

mostrado a insufficiencia, é pertinacia pelo menos, é expôr-se a

enterrar novos milhões no rio, que tudo sepulta debaixo do seu leito[7].

Em quanto as aguas descerem das serras em 24 ou 30 horas, em quanto as

arêas, despenhadas das barrocas e dos montes pela impetuosidade da

torrente, chegarem ao valle onde o declive é quasi nullo e a largura

muito maior, em todo o rio e campo se hão de depositar, inutilisando em

poucos annos o melhor encanamento possivel. Com effeito, qual será o

leito que possa conter uma massa d'aguas que cobre todo o valle do

Mondego no comprimento de 6 legoas, com meia legoa de largura e altura

de um até 2 metros? Se não é possivel conter entre mottas esta enorme

massa d'aguas, que não conhece por margens senão os montes que bordam o

campo, se as mesmas causas produzem sempre os mesmos effeitos na ordem

dos phenomenos naturaes, devemos procurar destruir a causa, recorrer aos

meios preventivos, por elles diminuiremos o volume das enxurradas que

sahem de repente ao valle, tornaremos o rio navegavel de verão,

conservando-lhe as aguas; evitaremos que uma grande parte das areias

desçam ao rio, tornaremos em fim o seu regimen uniforme e estavel; então

sómente deveremos tractar de um encanamento regular, tornado muito mais

facil, mais durador e menos dispendioso. Estes meios são simples na sua

execução, e por uma grande felicidade favorecem a agricultura dos

montes, ao passo que evitam a ruina do campo, harmonizando o interesse

geral com o bem dos particulares.

O primeiro meio é applicavel a todos os terrenos d'encosta, desaguando

no Mondego ou nos affluentes d'este: consiste em cavar barrocas

horizontaes de um metro de largura (4-1/2 palmos) proximamente, com

2-1/2 palmos de profundidade, e 130 até 140 palmos de comprimento,

fechadas nas extremidades, collocadas em degráos por todo o declive dos

montes, com intervallo de cerca 300 palmos entre fileira e fileira.

Escuso dizer que encontrando-se algum obstaculo como rocha, estrada ou

valla, interrompe-se a barroca para continuar do lado opposto.

Este meio tão simples, que todo lavrador póde executar sem auxilio

d'arte, traz comsigo vantagens importantissimas: com effeito, sendo 6

legoas a distancia entre Coimbra e Lares, sendo meia legoa a largura

media do campo entre estes dous pontos, e sendo um metro a altura das

cheias ordinarias, segue-se que o volume d'agoa detido é 'neste caso de

92,557,410^{mc}, se, como diz Estevão Cabral, a superficie da Beira é de

200 legoas quadradas; admittindo que 1/3 seja planicie, restam 134

legoas quadradas de encostas ou serras, em que se devem abrir barrocas;

segundo o systema que apresentamos em 1000^m ou 100 hectares devem

abrir-se 15 barrocas de 1000^m de comprimento cada uma, ou 15000^m, que

a razão de 0,^{mc}5 por metro corrente, conterão 7500^{mc} d'agua;

admittindo que a legoa quadrada tenha 31 hectares, abriremos por legoa

quadrada 465,000^m de barrocas as quaes darão um producto de

232,500^{mc}, e as 134 legoas quadradas terão em deposito

31,155,000^{mc} d'agua; isto é, o terço do volume detido no campo, o que

será sufficiente para evitar as pequenas cheias de septembro ou de maio,

que causam damno ás colheitas; além d'isso as aguas da chuva, obrigadas

á descer os degráos d'esta grande escada, mesmo depois das barrocas

cheias, chegarão mais lentamente ao rio, dando tempo para escoar as

primeiras aguas, quebrarão a sua grande velocidade, e por consequencia

não levarão tão facilmente a terra vegetal e as areias; as terras

levadas depositar-se-hão 'nellas, e facil será ao lavrador pela limpeza

das barrocas estrumar as suas proprias terras, em quanto que hoje, ellas

vão beneficiar os proprietarios da base da montanha. O deposito d'agua

conservar-se-ha nas barrocas até fins d'abril, épocha em que findam as

chuvas, e filtrando na terra conservar-lhe-hão humidade até o principio

de junho, isto é, até ao tempo em que é necessaria aos cereaes; por este

motivo as terras dos montes tornar-se-hão mais productivas, pois todos

sabem que os estrumes precisam ser dissolvidos para penetrar na planta

em fórma de seiva, e todos lamentam a falta d'agua nos mezes do estio. O

augmento de producção compensará em dois ou trez annos a despeza da

abertura, que se reduz a 3$000 réis por hectare a razão de 20 réis o

metro corrente[8], attendendo a que os mezes d'inverno são os mais

proprios para este trabalho. Os pequenos lavradores podem _abril-as_

elles mesmos, visto ser o tempo o genero que menos lhes custa a dar

'naquella estação. Por este meio conseguiremos egualmente augmentar o

volume d'agua da estiagem, tornando a navegação mais facil; pois,

filtrando por entre as terras, tarde ou cedo a agua lá irá parar. Emfim,

evitaremos que uma parte das arêas venha entulhar o alveo do rio, o que

é mais para temer que a propria cheia.

Este systema novo de irrigações, já praticado em França em algumas

partes em vista do melhoramento da cultura, tem correspondido ao que

d'elle se esperava.

J. R. Pelonceau[9], insigne engenheiro francez, que o aconselha, tendo

presenciado a sua applicação, assevera ser proprio a todo o genero de

cereaes e legumes, e que as proprias mattas se tornam por este meio mais

productivas e viçosas.

_O segundo meio_, que propomos á meditação do público, é a plantação

d'arvoredos em todas as encostas que vertem no Mondego ou nos seus

affluentes: a medida não é nova, já o Marquez de Pombal a decretou; se

tivesse sido executada, não teriamos que lamentar os desastres que

procuramos remediar. Com effeito, uma montanha plantada de arvores, e

por consequencia cuberta de terra vegetal e musgos, actua como uma

esponja, que absorve a agua de repente e não a restitue senão pingo a

pingo; uma montanha calva perde rapidamente a sua terra vegetal, de

sorte que as chuvas escorregam sobre os seus flancos, dando origem ás

torrentes nos logares elevados, e ás inundações nos valles. Certamente

esta plantação geral das encostas não poderá ser feita por meio de uma

Lei violenta, nem tão pouco de repente; mas não posso deixar de notar

que as mattas vão desapparecendo da Beira, que a madeira já falta, que

ella tornar-se-ha tanto mais necessaria quanto maior fôr o

desinvolvimento da nossa civilisação. Os caminhos de ferro, as minas de

Leiria e outras, que por ventura existam na Provincia, serão um dia

exploradas, augmentando consideravelmente o consumo d'este genero. A

exportação vai crescendo d'anno para anno, e os estaleiros da Figueira

tomarão importancia logo que a barra seja de mais facil accesso: tudo

convida pois o lavrador previdente a semear pinhaes nos terrenos

arenosos, pouco proprios para outra cultura.

O Governo possue, assim como as Camaras municipaes, muitos terrenos na

Beira: cuide em mandar plantar mattas, abrir 'nellas barrocas

horizontaes; o seu desinvolvimento será mais rapido, a agricultura

conhecerá os seus verdadeiros interesses, e não será tão difficil, como

se poderia suppôr, alcançar esta reforma: ella poderá exigir dez ou

vinte annos para completar-se; mas o proveito para a navegação do rio e

para o campo de Coimbra será proporcional ao seu adiantamento. Em um

paiz como o nosso, em que os particulares não têm iniciativa, é mistér

que o Governo dê o exemplo com experiencias bem dirigidas.

_Como terceiro meio_ para evitar o entulhamento do rio, proporia

collocar em todas as barrocas, vallas ou affluentes e no proprio alveo,

nas suas partes não navegaveis, tapagens, feitas de estacas com ramos de

salgueiros entrelaçados; estas tapagens repetidas de 500 em 500 metros

perpendicularmente á corrente, deixariam filtrar as aguas, detendo as

arêas; e o seu custo é tão pequeno, que não duvído se venham a fazer com

grande vantagem.

Taes são as medidas, que julgo proprias para evitar o flagello das

inundações e tornar as aguas uma fonte de riqueza para os habitantes da

serra. Oxalá que a opinião pública favoreça este meu empenho. Se se

applicarem, como entendo deva ser, os tres meios conjunctamente, os

desastres irão diminuindo em proporção do adiantamento do novo systema

d'agricultura, e desapparecerão quando completo na bacia do Mondego;

tendo então o rio maior volume medio, arrojará para o mar grande parte

das arêas que o entulham. O encanamento será não só possivel, mas facil,

observando as regras de que ninguem discrepa; a saber: 1.^o _As mottas

devem ser eguaes nas duas margens_, pois fortificar uma d'ellas sem a

outra, é attacar a propriedade do visinho[10]. 2.^o _Um encanamento é um

trabalho que se deve fazer simultaneamente em todo o valle, sob pena de

ver destruidos os trabalhos feitos._ 3.^o _Os rios vão crescendo para a

foz; por consequencia a resistencia das mottas deve crescer em proporção

conveniente á jusante._

Memoria sobre o melhoramento da cultura da Beira e da navegação do Mondego · 第 5 / 7 题