Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.
O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag.
232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a
perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.»
Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na
America do Sul.
Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o _gavião real_ tanta força a ponto de
fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja.
É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode
applical-a ao abestruz americano de _Nandú_, que se encontra somente no
Ceará e Piauhy.
Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado,
restabelece a verdade fallando do _Ura-açu_ disse «são passaros, como os
milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes,
de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e
vivem de rapina.» (Vide _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_. Rio de
Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)
Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte
ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso
velho viajante.
O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri,
é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz
lembrar o grito da cotovia.
Confundiram-se as recordações com a distancia.