52 (pag. 120).

O _Maracá_ era um instrumento symbolico, usado tanto nas festas

religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o

descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não

será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras:

Tendo nas mãos um ou dois _maracás_, que é um fructo grande, de forma

oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais

agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com

elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis.

Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma

haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella

em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse

_Tupan_, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.

Pensam que é _Tupan_ que lhes falla (Manuscripto de André Thevet,

conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)

Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do

Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do

baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII.

Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios

revestidos dos seos bellos adornos, e com o _maracá_ em punho, excitaram

muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela

sua propria musica.

Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra

d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese

dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de

ouvir-se» (Vide _Correspondance_, pag. 285, antiga edicção.)

Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e

do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio,

ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará

com o da Côrte.»

Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens

distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França.

Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente

estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles,

e ja deram começo a excursão d’este plano.»

Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas

mulheres não gozavam iguaes favores.

Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião

singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e

comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem

me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa.

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 173 / 277 题