Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso
viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com os _Morobixabas_
representam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros.
Simão de Vasconcellos nas suas—_Noticias do Brasil_—nada deixa a desejar
a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas
que os _Piayes_, os _Pagé_ ou _Pagy_ somente alcançavam a prodigiosa
influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão
rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo,
que tanto ambicionavam.
São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco
até as do Rio da Prata.
Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no
ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja
base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de
perder os sentidos.
Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros.
Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar _Collegio dos
Piagas_, á similhança do _Collegio dos Druidas_, certas particularidades
muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul.
No Norte os _Pages Aybas_ eram os feiticeiros afamados astrologos, ou
melhor _tempestuosos_, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia
estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas
ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais
ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no.
Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um
meio, que nunca falhou, isto, é a _herva dos feiticeiros_ ainda mais
poderosa do que a da Europa, o _Paricá_, cujos effeitos terriveis foram
descriptos pelo Dr. Rodrigues Ferreira. (Vide _Memorias das Academias
das Sciencias de Lisboa_.)
Mastigava-se o _Paricá_, e com isto fazia-se um unguento, uzado para
uncturas.