A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos
antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e
24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do
Rio de Janeiro.
La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra
O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada do
_Caminho grande_.
Os rios _Anil_ e _Bacanga_, vindos de diversos pontos da ilha confundem
suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que
se apresenta ao S do _Anil_, á E e ao N. do _Bacanga_ (lugar onde se
confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde
se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.
A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla
de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada
em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de
rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador.
(Vide _Corographia Brasilica_, _Will. Hadfield_, _Milliet de St.
Adolphe_, e principalmente os _Apontamentos estatisticos da provincia do
Maranhão_, annexos ao _Almanack_ de 1860 publicado por B. de Mattos.)
Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da
peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O.
Seo ponto mais elevado é o _Campo d’Ourique_, onde apresenta 32m 692c de
elevação acima do nivel medio do mar.
É dividida em tres parochias: _N. S. da Victoria_, _S. João_, e _N. S. da
Conceição_, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e
2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento.
Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as
praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais
largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene.
Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois
rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e
limpa.
«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo,
assentado n’uma eminencia que domina o porto.
Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas
percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as
costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequeno _Forte
da Ponta d’areia_, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a
pequena _ermida do Bomfim_, muito arruinada, e na frente do Anil a _Ponta
de Sam Francisco_, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la
Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de
Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento
inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por
parte da Hespanha.
O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos
dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo
poude d’elle dar somente uma ideia, por sua narração sincera e franca,
da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois
do combate. (Vide _Archivos das viagens publicadas_ por M. Ternaux
Compans.)
Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de
Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux,
ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo
conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto
varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes,
achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario
Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura
gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do
Maranhão.
Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a
unica que nos interessa directamente.
Mencionamos apenas o _Caes da Sagração_, assim chamado em memoria da
coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora
se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira
ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nas _enseiadas das
Pedras_.[BH]
Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo,
a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras
que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar
englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.
William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz,
observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez
com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio,
Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.
Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria
inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes
na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo
disputa com a inspiração.
Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente
repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem
á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante
intrepido, porem nasceu em Caxias.
As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da
bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade
eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades
crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica.
Ha tres annos contava apenas 1031 volumes.
Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que,
com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque
o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel
n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem
esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o
_Publicador Maranhense_, a _Imprensa_, o _Jornal do Commercio_ etc. etc.,
e tambem ha uma _Associação typographica_, um _Gabinete de leitura_, e a
sociedade litteraria _Atheneo Maranhense_.
Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio
de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para
escrevêr á seos Superiores.