Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da
chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum
importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que
a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente
tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca
menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7°
35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria
o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy,
separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de
Goyaz pelo rio Tocantins.[BG]
Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que
fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro.
O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno,
mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas
asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde
se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É
regada por 14 correntes d’agoa.
De todos estes rios é o _Parnahyba_ o mais considerável: infelizmente
suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como
em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se
seo curso em 240 legoas. O _Itapecurú_, seo immediato, e de que falla
constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno,
o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o _Pindaré_, o
_Tury-assú_, o _Gurupy_, e o _Manoel Alves Grande_. Julga-se que é de
462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio
official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é
apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem
observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em
1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á
realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos
seos escravos.
Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da
povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria
muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias
depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior
no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra
qualquer parte.
Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas
infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.
Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem
que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação.
Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.
Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa
liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de
civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII.
Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela
variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos
chefes independentes.
Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e
embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o
numero dos indigenas reunidos em aldeias.
Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes
relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é
menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções
théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a
narração dos antigos viajantes francezes.
Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados
por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas
cosmogonicas do seculo XVI.
Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os
Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações
mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de
Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide _Revista
Trimensal_, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções,
pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos
velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi
escriptos para serem combatidos.
De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns
homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que
desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos,
e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua
antiga nacionalidade.
Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para
melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido
quam brutal.
Foi o que aconteceo a _Tempe_ e a _Kocril_, chefes conhecidos pelo major
Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as
tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo
zelo.
Vide «_Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o
continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado
Francisco de Paula Ribeiro_, _Revista Trimensal_, T. 3º pag. 184.»
De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos
conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes,
suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôa
_Vinhaes_ e _Villa do Paço do Lumiar_, achando-se no mesmo caso _S.
Miguel_ e _Tresidélla_, a margem do rio Itapecurú, e _Vianna_, no Pindaré.
Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as
tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São
tambem subdivisões dos Timbyras os _Sakamecrans_, os _Kapiekrans_ ou
_Canellas-finas_, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste
do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas
diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade
dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem
sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle
avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em
1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.