É bom rapaz e amigo dos francezes.»

Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e ordenou-lhe que

contasse tudo quanto sabia de francez.

Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer me era permittido

usar do interprete que ria-se a bom rir, de tal simplicidade; comtudo,

eu o tranquilisei pedindo-lhe desculpa pelas travessuras de um pequeno

papagaio, que eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do

riso.

O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante para receber

o baptismo, e o fez d’esta maneira: _bom dia, senhor, como estaes: Bem,

senhor, prompto ao vosso serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne,

minha cabeça, eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa_[BF]

Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.

Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle não ter

perdido seo tempo.

O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter ainda que dizer-me.

Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do meo quarto, e

mostrando-me um apoz outro disse-me, que elle de tudo sabia o nome em

francez.

Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas mãos, dizia—elle

ainda sabe o nome d’isto em francez.

Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o que dizia. Sim,

respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois chamaria pelo nome tal e tal

francez, bem como tambem sabia a denominação das armas: _Um arcabuz, que

faz puf, uma espada, um canhão, que faz pataú_.

Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?

Sim.

Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os dias recitar tua

lição diante do padre.

Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder conter o riso, e

d’elle dar expansão ao seo fervor, que não era isto, que eu exigia para

conferir-lhe o baptismo, e sim o conhecimento de Deos e de outras coisas

dependentes da nossa religião.

Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima que elle tinha

de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo não entender até o que eu

lhe dizia.

Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle respondeo-me não

ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que como seo filho era intelligente

cedo aprenderia bastando-lhe apenas uma lua, para o que deixava seo filho

no Forte de Sam Luiz.

Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor que me fosse

possivel, e sempre seria bem acolhido entre os francezes.

Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que desejas a teo filho?

Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei aprender, como esses

rapazes, que vão ser _Caraibas_.

Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te no inferno, do

que esforçar-te para aprenderes a sciencia de Deos? Tua velhice não é

desculpa aproveitavel.

Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. Calcula ha

quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.

Não precisas aprender a quinta parte das questões, que me tens proposto,

afim de seres christão; nas palavras de tua lingua, pelas quaes

comprehendemos os objectos expressados na nossa linguagem.

Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão compridos sobre

feitos de vossos antepassados.

Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba teo filho.

Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.

Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse bem tudo quanto

lhe ensinassem, que não perdesse uma só palavra, e que imitasse todas as

acções dos francezes, que viria depois buscal-o para a terra d’elle afim

de ensinar-lhe o que tivesse aprendido.

Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão para te ouvir

contar tão boas coisas. Depois viremos procurar os padres para nos

baptisarem.

Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.

Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho de França? ou

_Cauin_, que queima, isto é, aguardente?

Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me as chaves d’ella.

O _Muruuichaue_ me deo em sua casa um pouco, e era muito boa e muito

forte: esfregando seo estomago com a mão, dizia-me, olha, ainda sinto

ella aquecer-me.

É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando se recebe

visitas de amigos.

Tenho desejos de vir muitas vezes a _Yuiret_, quando chegam navios de

França para gozar do seo vinho muito melhor do que o nosso.

Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o primeiro a

rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, foi-me necessario

rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois de ter bebido um bom copo, pelo

interprete notou não ter eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que

depois elle me acompanharia.

Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, tel-os como que

obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto podessemos, conforme sua

naturesa, quando n’isto não ha offensa á Deos.

Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo copo começou a

pronunciar gutturalmente estas palavras—_Goy y katu de katogne kauin

tata_, «oh! quanto é bom, muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»

Como mau agouro ouvi a palavra _Goy_, que é o começo para beber-se muito,

e principiei a cogitar na maneira por que havia de fechar a garrafa,

visto não haver necessidade de tal despesa, então grande pela sua falta.

Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo cumprir a minha

determinação, o meo selvagem agarrou a dizendo não ser costume dos

francezes guardarem as garrafas, tiradas da frasqueira para a meza e que

por muitas vezes se tinha achado entre elles.

Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, embora ella

nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.

Disse-lhe, que _cauiu-tata_ não era similhante ao que tinha bebido

antigamente, que perturbava a cabeça de quem o bebesse muito, que eu

devia cuidar do seo corpo e de sua saude, mas que eu ainda lhe daria um

copinho para dizer-lhe adeos, e assim foi-se satisfeito.

Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao encontro dos

seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, igual a do dia antecedente

fingindo estar muito triste pela agoardente que se tinha derramado e

perdido: mostrou-me igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui

está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e nada teria

acontecido.

o...

* * * * *

_Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar unico da edicção

original, existente na Bibliotheca Imperial de Pariz._ (Vide o Prefacio.)

_Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se no fim

da obra, curiosissimas cartas, por longo tempo esquecidas._

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 109 / 277 题