Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos
para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa
indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.»
Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e
conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo.
Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:
—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto
estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me.
Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?
Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me
corte a garganta, e me mate sosinho no bosque.
Para onde irá meo espirito?
Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse
primeiro do que eu.
Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de
mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe?
Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois
da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de
_Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e
persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta
desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente
do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e
debilidade.
Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para
a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por
meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente
nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco.
Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.
Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem
elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois
acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas
transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós
outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e
canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os
_Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias:
finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.—
Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja
somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com
aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um
monsenhor, e trata cruelmente seos servos.
«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se
apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os
primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o
conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.
«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas
delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem
d’esta.»
Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando
fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos
feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_.
Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo
visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe
obedeciam.
Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça,
ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse
d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de
seos desejos.
Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não
intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do
conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta
floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que
chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado.
Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que
reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á
Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo
uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os
_Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e
vinte, entre mortos e prisioneiros.
Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada.
Continuemos.
Depois de minha resposta, disse-me:
—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não
tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre.
Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_.