Conferencia com Iacupen.[109]

Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos

para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa

indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.»

Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e

conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo.

Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:

—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto

estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me.

Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?

Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me

corte a garganta, e me mate sosinho no bosque.

Para onde irá meo espirito?

Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse

primeiro do que eu.

Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de

mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe?

Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois

da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de

_Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e

persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta

desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente

do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e

debilidade.

Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para

a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por

meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente

nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco.

Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.

Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem

elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois

acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas

transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós

outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e

canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os

_Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias:

finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.—

Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja

somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com

aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um

monsenhor, e trata cruelmente seos servos.

«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se

apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os

primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o

conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.

«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas

delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem

d’esta.»

Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando

fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos

feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_.

Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo

visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe

obedeciam.

Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça,

ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse

d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de

seos desejos.

Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não

intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do

conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta

floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que

chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado.

Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que

reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á

Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo

uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os

_Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e

vinte, entre mortos e prisioneiros.

Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada.

Continuemos.

Depois de minha resposta, disse-me:

—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não

tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre.

Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_.

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 104 / 277 题