Replica o selvagem—_De Muruuichaue?_ «Não és d’esse numero? Não és um dos
principaes?»
Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, que seja a sua
condicção, que de si não diga bem, e por isso responde o francez _Ché
Muruuichaue_ «sim, sou um dos principaes.»
Diz o selvagem _Teh Augeypo_ «muito bem, estou muito contente: basta,
fallemos de outra coisa.» _Ereru patua? Ereru de caramemo seta?_
«Trouxestes muitas caixas e cestas, cheias de mercadorias?»
São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as quaes tem sempre
dispostos o animo e o coração, de sorte, que tudo quanto dizem é somente
como que um preambulo para chegar a este ponto.
Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o selvagem—_Mea
porerut decarameno pupé?_ «O que trouxestes em vossas caixas e coffres de
joias? que mercadorias?» dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são
muito curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.
Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem mostrar o que elles
desejam, afim de trasel-os sempre na expectativa, si dos seos serviços
quer aproveitar-se.
Deve responder-lhe—_Y Katu paué_ «trouxe tantas coisas, cujos nomes nem
mesmo sei, são bellas e magnificas.»
Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente do ferreiro, a
qual redobra o calor, e activa a chama, e assim desperta a curiosidade
do selvagem, até por meios adulatorios, expressados por gestos, dizendo
_Eimonbeu opap-Katu_ «eu te peço, não me occultes nada, dize-me.»
_Yassoi-auok de Karamemo assepiak demae_: «Abre-me tuas caixas, teos
cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»
Deve responder o francez _Aimosanen ressepiak_ ou _Kayren deué_ «agora
não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» _Begoyé sepiak_ «não
duvides, um dia verás á tua vontade.»
O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que perde seo tempo,
diz a si mesmo, levantando os hombros, e como que se lastimando—_Augé
katut tegné_, «pois bem, esperarei.»
Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez _Dererupé
xeapare amon?_ «Não trouxestes muitas fouces e machadinhos de cabo de
ferro?»
_Dererupé urá sossea-mon?_ «Trouxestes machados de cabo de pau?» _Ererupé
ytaxéamo?_ «Não trouxestes facas d’aço?» _Ererupé ytaapen?_ «Trouxestes
espadas d’aço?» _Ererupé tatau?_ «Trouxeste arcabuzes?» _Ererupé tatapuy
seta?_ «Trouxeste muita polvora?»
Responde o francez a tudo isto _Aru seta yagatupé giapareté_ «Sim, trouxe
muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem _Augé-y-pó_ «Muito bem.»
_Ercipotar turumi? Ercipotar keré?_ «queres dormir? queres deitar-te?»
Responde o francez _Pa che potar_ «sim, quero dormir, deixa-me.»
Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, dizendo—_Nein
tyande karuk tyande petom_ «boa tarde, boa noite, descançae á vontade.»
Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte d’esta historia.
Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no
Maranhão em 1613 e 1614.