Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»

«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si os meus fossem

tratados como principes, e o pobre capuchinho apenas tivesse farinha, ou

pouco mais.

«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que desperta muito o

apetite, e si houvessem muitas gulodices como em França, para ahi iriam

as pressas muitas moças francezas.»

3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e nem trigo, principaes

alimentos, indispensaveis nos melhores banquetes para as carnes mais

delicadas.

Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que se pode fazer pão,

como nós o faziamos, e o achavamos muito agradavel ao gosto, embora

gostassemos mais da farinha do paiz, especialmente quando fresca, porque

não é pesada ao estomago.

Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do velho mundo,[84] e

especialmente na Turquia, onde é chamado trigo da Turquia.

Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do Brasil, forte e

gorda, não possa produzir trigo, com que se fabrique o pão como na França.

Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe de nós, porem

em terras peiores.

Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei de Hespanha não

prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes plantação de trigo e de

vinhas para tel-as sempre dependentes de seo soccorro, e de tudo quanto

cresce nos seos Reinos de Hespanha e Portugal.

Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello que a terra

firme do Maranhão, é abundante de trigo e de vinhas. Quem pode impedir,

que ahi se produzam estes generos?

Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora ahi possam

crescer,[85] e contam-nos, que as trazidas pelos nossos religiosos na

ultima viagem pegaram e produziram fructos. Quem pode impedir grandes

plantações de vinhas, e que em dois ou tres annos se façam grandes

colheitas?

A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem muito.

Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes não fabricam

vinho, contentam-se com cerveja, e se querem beber vinho abrem a bolsa, e

ahi vão os melhores vinhos do Universo.

O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os levam. É bem

verdade, que é um pouco mais caro do que em França, porem é melhor,

segundo pensam alguns francezes, que avaliam as coisas pelo preço.

Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz que é muito boa por

ser feita de milho, e não é muito cara por haver muita abundancia deste

genero na terra e serem as agoas boas e puras.

4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se vantagens, visto

que, em quanto ahi estive, nunca me animei a gastar dinheiro. Respondo.

Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam contentes, porem

não é cousa que todos devam saber.

Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é propria a

produsir bons generos quando bem cultivada, como sejam: _Algodão_,

_canafistula_, _madeira de diversas cores_, _piteira_,[86] _tinturas

de urucú_, _de cramesim_, _pimentas longas_, _lapis-lazuli_, _cobre_,

_prata_, _oiro_, _pedras preciosas_, _plumas_, _passaros de diversas

cores_, _macacos_, _macacos-monos_, _e saguins_, e especialmente

assucares, quando si levantarem engenhos e plantarem cannas.

Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer em publico) provem

da má direcção dos negocios, cuidando cada um de si, o que tem feito

com que haja pouco sortimento de mercadorias francezas, necessarias aos

selvagens, e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras coisas

similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo possam obter os

francezes.

Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas haviam mercadorias

para com ellas si comprar farinha, ficam preguiçosos, nada fazem e nem

farão emquanto os francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em

recompensa: tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não merecem

censura, por que em todo o Christianismo não si encontra um só homem, que

trabalhe de graça.

Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira viagem conduzirem

comsigo alguma coisa.

Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e sim no caso de

provêr-se á esta falta, como convem, eu vos asseguro que a Ilha e suas

circumvisinhanças ainda produzirão bons estofos.

Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto repugnancia em

responder a muitos mancebos, que por bens de fortuna somente possuem

a espada e o punhal, mais que ricos de coragem cortam muitas vezes a

garganta uns dos outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde

navio algum vae levar novidades.

Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar questões de

vossos irmãos mais velhos? Porque não experimentaes fortuna, ou ao menos

porque não ides enriquecer vosso espirito com a vista de coisas novas?

Passarieis assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, e

si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos e ao vosso Rei

visitando esta nova França.

Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de valor, como sejam

pedras preciosas etc., e quando mais não fosse, bastaria que, quando

voltardes, não ficasseis mudo nas reuniões, porque aquelle que viaja tem

sempre ganho o seo pão.

As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por Deos para

cultivar a terra.

A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? o de empregar vossos

esforços e trabalhos para dilatar o reinado de Deos, ajudar os Apostolos

de Jesus Christo a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto é,

para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, e morrer por estas

duas empresas—é morrer em leito de honra.

Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? Minha penna,

senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que devia e o resto ignoro.

Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo podem, á favor da

perfeição de tão alta empresa.

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 72 / 277 题