De algumas molestias particulares a estes paizes de indios, e de seos
remedios.
O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver Deos dado aos
homens contra todos os males o fructo de uma arvore, a maneira da
Theriaga.
Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, embora pequenas
e longe d’elle, prevendo que esta infeliz raça de selvagens viveria, por
longos annos, vagabunda e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo
muitas especies de arvores e hervas para o curativo de suas feridas e
molestias.
Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, e
excellentes hervas, como não ha em parte alguma.
O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.[46] Vi tirar-se da casca
de certa arvore uma especie de almecega, similhante á que cresce nos
jardins da Europa, e dizem os selvagens que serve para toda a molestia,
e assim a empregam. Contam mais, que todos os animaes ferozes quando se
sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para curarem-se, e por
isso raras vezes se encontra uma só com toda a sua casca, por ser roida
constantemente por todos os bixos.
Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma especie de gomma
branca, de côr prateada, e que dizem ser muito boa para certas chagas.
Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar chagas e fazer suppurar
os abcessos profundos fazendo seo effeito em 24 horas.
Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo o qual tinha, por
causa dos bixos, os pés e as pernas tão estragados e inchados a ponto
de receiarmos que as perdesse: coisa horrivel e impossivel de narrar-se
bem: fez-se applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e no
dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa alguma, porque
puchando os bixos do interior das carnes onde se achavam á superficie das
feridas, ahi pela cabeça se grudaram os emplastos, e assim morreram todos
em numero consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a viva e
vermelha.
Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão de hervas,
das quaes se podem destillar espiritos e essencias, porque desejo
fallar de certas molestias, reinantes n’este paiz, dos remedios, que
contra ellas se applicam, não porque seja a terra doentia e insalubre,
antes muito boa e saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante
este tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente sopram
constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, e por isso
raras vezes adoecem os selvagens, e a fallar a verdade, elles só tem uma
molestia, de que morrem.
São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a experiencia fez
conhecer a mim e a outros, porem creio ser isto devido ás necessidades e
miserias, porque passamos no principio do estabelecimento ou da fundação
e não a outra causa.
Tinham então os francezes poucas commodidades, porem ja começavam a
gozal-as quando deixei a Ilha.
Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, porem fiquem
todos certos e convencidos de que não soffrerão a centesima parte do que
soffremos.
Das suas molestias a primeira chama-se _Pian_, que vem da palavra
_Pé_, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, «pé,» por originar
esta molestia do escarro, ou da sanie, espalhado no chão, por onde se
caminha: começa ordinariamente debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de
um liard,[BD] de côr negra: os indios chamam esta mancha _Aipian_, isto
é, a «Mãe Pian,»[47] porque d’ella descendem todas as outras chagas e
postemas, que esta horrivel molestia espalha por todo o corpo á maneira
de uma herva ou arbusto, que sahindo d’esta _Mãe Pian_, como de uma raiz,
fosse sempre crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas e
olhos, que enchesse interna e externamente o doente de crueis dores, e de
incrivel putrefacção, das quaes muitos morrem. Dura pouco mais ou menos
dois annos.
Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente antes de
regressar ao seo paiz, porque não ha remedio no mundo, excepto no Brasil,
que a cure, a não ser o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos
os males.
Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos agora sua
origem e fonte ordinaria e natural afim de prevenir os francezes, que la
forem.
Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, por excessiva
communicação com as raparigas indigenas: para evital-a convem a vida
casta, ou então que tragam suas mulheres, ou que se casem com as indias
christãs, visto ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno,
o que se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes não
soffrem o _grande mal_, se não o tem adquirido algures, e sim o
_pequeno_, que todos soffrem na vida, similhante a syphilis e a variola
na Europa.
Esta _bouba_ grande excede em dor e sordidez, sem comparação, ao mal de
Napoles, e com razão, porque merece ser punido n’esta vida o peccado, que
commettem os francezes com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas
infelizes almas quando pretendiamos salval-as, si com seos maus exemplos
não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade.
Meditem bem os que são capazes de commetterem taes crimes, na conta que
darão a Deos por haverem causado o damno e a perda d’estas pobres almas
indigenas.
Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a salvação de outrem,
que lugar esperarão os que, para satisfação de brutaes desejos, seduzem
essas pobres creaturas a ponto de fazel-as despresar as prédicas do
Evangelho e a sua propria salvação?
Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta molestia; os
suores aproveitam muito, mitigam e encurtam o tempo, bem como as dietas e
o regimen de vida.
A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a carne mais propria
é a do _tubarão_ (não usada pelos sãos, por lhes fazer vomitar até
sangue, e produzir-lhes grandes molestias) cozida com hervas duras e
amargas, que se encontram em todo o paiz.
Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que para os bons é veneno
para elles é carne saudavel, embora de mau gosto.
É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo do copo com mel
ou assucar para se beber de um só trago o veneno, que depois vae roer
e encher de dor as entranhas: quero dizer, que ao peccador apresenta o
prazer, e não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, que
o prazer vôa, porem a dor é eterna.
O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, soffremos
intensas febres quartans, terçans, e incertas, as quaes depois de
haverem mortificado muito o corpo, deixam dores nos rins, produzem
colicas insuportaveis com vomitos continuos, sempre debilitando o corpo,
resfriando e contrahindo o estomago, acompanhada por continua fluxão do
cerebro, que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as sem
acção, á similhança de uma estatua ou pedra immovel.
Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de selvagens
tornando-os ethicos e paralyticos.
Os remedios para estas molestias são—o beber menos agua que fôr possivel,
porque o sabor das aguas alterado com o calor da febre, faz beber muita
agua, perdendo o estomago seo calor proprio, adquirindo grande crueza e
fraqueza, de que resulta não só a sua constricção, mas tambem a pituita e
outros humores corrompidos: presentemente como ha cerveja espero que não
sejam frequentes estas molestias e que não chegarão ao excesso, que vi, e
cujas consequencias ainda sinto.
O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, e por isso
aconselho aos que lá forem, que poupem muito o seo vinho e aguardente
para essa e outras necessidades, e não os gastem prodigamente em
deboches, mórmente sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais
saborosa e saudavel, por causa do continuo calor, do que o vinho e a
aguardente.
As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos ahi em abundancia
são o alimento d’esses doentes.
As outras molestias são o defluxo e violentas dores de dentes por causa
da humidade da noite nesta Zona tórrida, como bem notou o jesuita Acosta,
na sua _Historia dos Indios_, a qual pode recorrer o leitor, visto que
nada quero dizer ou escrever sem sciencia propria.
É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas espadas,
mosquetes, facas, machados e machadinhos, que corroe e destroe não
havendo cuidado de os limpar.
São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz dos dentes
apodrecem-nos e os fazem cahir.
São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios no pescoço
e braços, e cobrir bem a cabeça durante a noite.
Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos escapam
especialmente os Franceses, porque dura apenas oito dias, sendo por sua
vehemencia antes furor do que molestia, e si se não atacar logo corre-se
o risco de vêr-se somente metade do mau tempo.
È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se n’uma garrafa
cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame um pouco nos olhos bem
abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, tendo-os sempre cobertos, e
não os expondo ao vento e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto
que sendo formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, si
esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e do sol, mais
exacerbareis o vosso mal.