Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.
Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de
digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes,
grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação
entre homens.
Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e
panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter
desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão
incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações,
ou os maus caracteres entre os homens.
Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao
seo visinho, e chamam-no _Moiaron_, e quando se insultam por palavras,
chamam-no então _Oroacap_.
Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes
contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres,
afim de que nada peçam á tal gente.
Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados,
e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de
consentir que vão para onde bem lhes parecer.
Ha em _Juniparan_, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do
que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e
compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte
que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle.
Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a
visinhança de um selvagem de muito máo caracter.
Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e
questões de sua mulher quando ella tem mau genio.
Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de
sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda
segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo
adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o
fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos,
á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo
ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande
applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a
frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas
as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas
suas _Casas-grandes_, que elle não teve remedio si não ficar com sua
mulher, porque já a conhecia.
Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar
questões com o comprador.
Notareis, que elles só tem—_sim_ e _não_—quando negociam juntos, ou com
os Francezes, nunca regateando.
Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes.
Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam _Poromotare-vim_,
e reciprocamente se advertem dizendo—_Cheporomatare-vim_, «estou
encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o
o mais que podem, o que exprimem por _Mogerecoap_, «abrandar alguem».
_Aimogerecoap_, «abrando o que está encolerisado.»
Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como
que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns
aos outros _Ymari turuçu_ «está muito zangado, está muito enfurecido.»
_Ché-assequeié seta_. «Tenho medo d’elle.»
Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa
equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao
Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses
Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que
conseguiram.
Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda
o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de
espancarem-se, o que chamam _ionupan_ «espancar-se», e ainda mais quando
se ferem, o que explicam por _iuapichap_, «ferir-se,» mormente quando
depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar
as suas casas, o que exprimem pela palavra _Iuapic_ «incendiarios»
reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se
entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e
tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura
de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa,
queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em
poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.
Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham
dos Francezes.
Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as
publicas consentem que se as chame _Pataqueres_ «meretrises.»
Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as
outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a _Pataquere_, «meretriz» com
o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho
ou o enterraria vivo.
Chamam a injuria _Curap_.
Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos
effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o
inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da
ira, e transformar o homem n’um animal feroz—_Hominem penitus in feram
converti_: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança,
compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por
encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como
o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.
São Gregorio Magno, no 5º livro da sua _Moral_, cap. 30, diz ser o
cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—_Cogitationes
iracundi viperæ sunt generationis_.
Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos,
que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou
que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.
Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes
selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez,
porque diz o proverbio, cap. 27—_Impetum concitati spiritus ferre quis
poterit?_
Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou
inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque no _Proverbio
26_ acha-se _sicut carbones ad prunas et ligna ad ignem_—assim como o
carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão
de palavras é para o homem naturalmente colerico, _sic homo iracundus
suscitat rixas_, e no _Ecclesiastico 28_, _secundum ligna sylvæ, sic
ignis exardescit_—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo,
fallando da colera.