Outras leis para os escravos.
Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos,
casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como
outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno.
Os selvagens _Tupinambás_ tomam ordinariamente para mulher as raparigas
captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim
de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha.
Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres
escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo
da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar.
Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum
joven _Tupinambá_, que morre de amores pelas que são bellas, depois
promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua
propria filha para assim vir o _Tupinambá_ morar com elle, casar com a
rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem
trata por filha e genro, e elles o chamam seo _Cheru_, isto é, seo Pae.
As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem,
si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e
determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito;
mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem
bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que
alguem as ame.
Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada,
e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e
depois lhes darem o resto.
Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e
nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma
palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence
legitimamente aos escravos.
Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de _pindoba_,
ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque
devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas.
Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto
que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos,
e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as
velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos,
queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os
outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.»
Vou dar-lhes um exemplo:
Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado _Ybuira Pointan_,[33]
quer dizer, _Pau brasil_, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns
escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo
agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e
dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».
Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se
comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado
pelas velhas.
Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do
leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco
antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça,
espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves
grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os
rodados.
Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra,
arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima
disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças,
senão raras vezes e occultamente.
Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir
voluntariamente entre os _Tupinambás_, sem desejar fugir, considerando
seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os
tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem,
não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda
os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando
os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do
procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem.
Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos
mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o
que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que
é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e
isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.
Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que
tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só
porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha,
de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os
padres como si fosse filho d’elles.
Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos
dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si
fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado
de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais
se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia
de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e
dos _Cauins_, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me.
Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo
pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle
ia á _casa grande_,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo,
sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece
aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto
especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha
mãe, lá na minha terra, e trazido para _Comã_, onde vi matar e comer
minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por
isso não posso senão lamentar minha vida.
Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração,
visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com
seos paes, e estes para com elles.
Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor
e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe:
quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem
comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo
antes de chegarmos á Ilha.
Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa,
embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia
até aqui.
Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido
o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as
raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita
recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os
esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer
das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes
de riso do que de deshonra.
Vão livremente aos _Cauins_, e dansas publicas, enfeitando de mil
maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem,
pois estas são muito caras.
Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve
tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro.