SENHOR.

A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a

maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles

manifestado durante a vida.

Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados

da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e

sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte,

o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes,

creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que

conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos.

Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do

verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade

divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes

pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes.

Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o

ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes

indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam

gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade,

cuja memoria o tempo não póde destruir.

Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade

e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa,

tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo

constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em

sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião,

que consagrava aos Deoses.

Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural,

podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar

quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira

religião?

Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas

as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos

subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo

atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—_Christiana

Religio_.

O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e

religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue

e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos

thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares,

(mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver

alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas

pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu.

Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do

bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a

proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua

piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo

de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam

os habitantes de _Maranhão_, de _Tapuytapera_, de _Cumã_, de _Cayté_, do

_Pará_, alem dos _Tabaiares_ e os _Cabellos-compridos_ e muitas outras

Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi

adiante.

Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam

dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas

podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a

não ser a vossa real piedade.

Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e

de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois

basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do

seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança

da firmesa da religião n’aquelle paiz.

Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso

exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas,

que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles

logares.

Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com

esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual

pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que

cahiam da meza real do Redemptor.

Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos

estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos

thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que

cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa.

Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons

olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este

pequeno _Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha

residencia entre elles por espaço de dois annos_, conforme as ordens da

Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir

tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra,

cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem

recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr

concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que

é e sempre será de

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 19 / 277 题