XI.

Cantor da solidão, eu me hei sentado

Juncto do verde cespede do valle;

E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,

Um pobre conventinho. Homem piedoso

O alevantou ha seculos, passando,

Como orvalho do ceu, por este sitio,

De virtudes depois tão rico e fertil.

Como um pae de seus filhos rodeado,

Pelos matos do outeiro o vão cercando

Os tugurios de humildes eremitas,

Onde o cilicio e a compuncção apagam

Da lembrança de Deus passados erros

Do peccador, que reclinou a fronte

Penitente no pó. O sacerdote

Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;

E perdoou-lhe, e consolou-o em nome

Do que espirando perdoava, o Justo

Que entre os humanos não achou piedade.

Religião! do misero conforto,

Abrigo extremo de alma, que ha mirrado

O longo agonisar de uma saudade,

Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,

Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,

Que renovou o corrompido mundo,

E que mil povos pouco a pouco ouviram.

Nobre, plebeu, dominador, ou servo,

O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,

Da desgraça no dia ajoelharam

No limiar do solitario templo.

Ao pé desse portal, que veste o musgo,

Encontrou-os chorando o sacerdote,

Que da serra descia á meia-noite,

Pelo sino das preces convocado:

Ahi os viu ao despontar do dia,

Sob os raios do sol, ainda chorando.

Passados mezes, o burel grosseiro,

O leito de cortiça, e a fervorosa

E contínua oração foram cerrando

Nos corações dos miseros as chagas,

Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.

Aqui, depois, qual halito suave

Da primavera, lhes correu a vida,

Até sumir-se no adro do convento,

Debaixo de uma lagem tosca e humilde,

Sem nome, nem palavra, que recorde

O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh se podesses

Dos annos que lá vão contar a historia;

Se ora, á voz do cantor, possivel fosse

Transsudar desse chão, gelado e mudo,

O mudo pranto, em noites dolorosas,

Por naufragos do mundo derramado

Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis,

Broncas pedras, fallar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura,

Convertidos em fabula das gentes,

Despertariam o eccho das montanhas,

Se aos negros troncos do sobreiro antigo

Mandasse o Eterno sussurrar a historia

Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,

Para um leito formar, onde velassem

Da magoa, ou do remorso as longas noites!

Aqui veio talvez buscar asylo

Um poderoso, outr'ora anjo da terra,

Despenhado nas trévas do infortunio:

Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,

Ou pela morte convertido em cancro

De infernal desespero: aqui soaram

Do arrependido os ultimos gemidos,

Depois da vida derramada em gosos,

Depois do goso convertido em tedio.

Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram

Suas vestes mortaes, nenhum vestigio

Resta dos nomes seus.--E isso que importa,

Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes

Elle contou, para as pagar com gloria?

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,

Que dos montes além conduz ao valle,

Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,

Como um pharol de vida, em mar de escolhos:

Ao christão infeliz acolhe no ermo,

E consolando-o, diz-lhe: a patria tua

É lá no ceu:--abraça-te comigo:

Juncto della esses homens, que passaram

Acurvados na dôr, as mãos ergueram

Para o Deus, que perdoa, e que é conforto

Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança

Vem derramar seu coração afflicto:

É do deserto a historia a cruz e a campa;

E sobre tudo o mais pousa o silencio.

A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta · 第 56 / 76 题