Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruina ás matas de alecrim e murta,
Que nesta encosta ondeam, meneadas
Pelo vento do sul, foste já lindo,
Já te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A tua formosura: as grossas chuvas,
Despedidas das nuvens, se arrojaram
Sobre ti, oh rochedo, arrebatando
A terra e o viço, que te ornava o cimo.
Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te:
Tua alvura passou: tão negro és hoje,
Quanto de mar erguido escuras vagas.
Cáveira da montanha, ossada immensa,
É tua campa o ceu: sepulchro o valle
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expansão dos volcões, e o mar bramindo,
Lançar á praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
Do vasto dorso, o fundo deste valle
Te váe servir de tumulo: e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os freixos,
Arrastados por ti lá da collina,
Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra
Te cubrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te:
E tu, ora medonho, e nú, e triste,
Ainda bello serás, vestido e alegre.
Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
Dos tumulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esmagar, se me fôr dada,
Não mais reviverei: não mais meus olhos
Verão o pôr do sol, em dia estivo,
Se em turbilhões de purpura, que ondeam
Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
Váe provar que um Deus ha a estranhos povos,
E alem das ondas tremulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Nem mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que véla o criminoso,
A quem íntima voz rouba o socego,
E em que o justo descança, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.