XVI.

Cessou da noite a grão solemnidade

Consagrada á tristeza, e a memorandas

Recordações:--os monges se prostraram

A face unida á pedra: a mim, a todos

Correm dos olhos lagrymas suaves

De compuncção. Atheu, entra no templo;

Não temas esse Deus, que os labios negam,

E o coração confessa: a corda do arco

Da vingança, em que a morte se debruça

Frouxa está; Deus é bom; entra no templo.

Tu para quem a morte ou vida é fórma,

Fórma sómente de mais puro barro,

Que nada crês, mas nada esperas, olha,

Olha o conforto do christão: se o calis

Da amargura a provar os ceus lhe deram,

Elle se consolou: balsamo sancto

Dentro no coração a fé lhe entorna

"Deus piedade terá!"--Eis seu gemido:

Porque a esperança lhe sussurra emtorno:

"Aqui--ou lá--a Providencia é justa."

Atheu, a quem o mal fizera escravo,

Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?

No dia da afflicçâo emmudeceste

Ante o espectro do mal. E a quem alçaras

O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas

Não altera por ti?--Ao ar, que some

Pela sua amplidão as queixas tuas?

Aos rochedos alpestres, que não sentem,

Nem sentir podem teu gemido inutil?

Tua dôr, teu prazer existem, passam,

Sem porvir, sem passado, e sem sentido.

Nas angustias da vida, o teu consolo

O suicidio é só, que te promette

Rica messe de goso, a paz do nada!--

E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,

No limiar da morte indo assentar-te!

Alli grita uma voz no ultimo instante

Do passamento: a voz atterradora

Da _Consciencia_ é ella: e has-de escutá-la

Mau grado teu: e tremerás em sustos,

Desesperado aos ceus erguendo os olhos

Irados, de travez, amortecidos--

Aos ceus, cujo caminho a Eternidade

Co'a vagarosa mão te vai cerrando,

Para guiar-te á solidão das dores,

Onde maldigas teu primeiro alento,

Onde maldigas teu extremo arranco,

Onde maldigas a existencia e a morte.

A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta · 第 31 / 76 题