Cessou da noite a grão solemnidade
Consagrada á tristeza, e a memorandas
Recordações:--os monges se prostraram
A face unida á pedra: a mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compuncção. Atheu, entra no templo;
Não temas esse Deus, que os labios negam,
E o coração confessa: a corda do arco
Da vingança, em que a morte se debruça
Frouxa está; Deus é bom; entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida é fórma,
Fórma sómente de mais puro barro,
Que nada crês, mas nada esperas, olha,
Olha o conforto do christão: se o calis
Da amargura a provar os ceus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Dentro no coração a fé lhe entorna
"Deus piedade terá!"--Eis seu gemido:
Porque a esperança lhe sussurra emtorno:
"Aqui--ou lá--a Providencia é justa."
Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
No dia da afflicçâo emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alçaras
O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
Não altera por ti?--Ao ar, que some
Pela sua amplidão as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que não sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dôr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio é só, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!--
E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da _Consciencia_ é ella: e has-de escutá-la
Mau grado teu: e tremerás em sustos,
Desesperado aos ceus erguendo os olhos
Irados, de travez, amortecidos--
Aos ceus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dores,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.