Ide vós a Mambré:--lá, bem no meio
De um valle, outrora de verdura ameno,
Erguia-se um carvalho magestoso:
Debaixo de seus ramos, largos dias
Abrahão repousou: na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E corêas gentis traçar-lhe em roda.
Nasceu com o orbe a planta veneravel,
Viu passar gerações, julgou seu dia
Final fosse o do mundo, e quando airosa
Por entre as densas nuvens se elevava,
Mandou o Nume aos aquilões rugíssem.
Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
Murcharam-se caíndo, e o rei dos bosques
Servio do pasto aos tragadores vermes:
Deus estendeu a mão:--no mesmo instante
A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
Da Palestina os platanos frondosos
Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
O armento, em vez de relva, achou nos prados
Somente ingratas, espinhosas urzes.
No Golgotha plantada, a Cruz clamára
Justiça: a seu clamor horrido espectro
No Moriah sentou-se; era seu nome
Assolação--e despregando um grito,
Caíu com longo som de um povo a campa.
Assim a herança de Judah, outrora
Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
Do tempo que já foi, e que ha passado
Como hora de prazer entre desditas.
Minha Patria onde existe?
É lá somente!
Oh lembrança da Patria acabrunhada
Um suspiro tambem tu me has pedido:
Um suspiro arrancado aos seios d'alma
Pela offuscada gloria, e pelos crimes
Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
Da mais illustre das nações da terra!
A minha triste Patria era tão bella,
E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
E o sabio e o homem bom acolá dormem,
Acolá, nos sepulchros esquecidos,
Que a seus netos infames nada contam
Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo portuguez agrilhoado
Carcomir-se-lhes deixa juncto ás lousas
Os decepados troncos desse arbusto,
Por mãos delles plantado á liberdade,
E por tyrannos derrubado em breve,
Quando patrias virtudes se acabaram,
Como um sonho da infancia.
O vil escravo
Immerso em vicios, em bruteza e infamia
Não erguerá os macerados olhos
Para esses troncos, que destroem vermes
Sobre as cinzas de heróes, e, acceso em pejo,
Não surgirá jámais?--Não ha na terra
Coração portuguez, que mande um brado
De maldicção atroz, que vá cravar-se
Na vigilia e no somno dos tyrannos,
E envenenar-lhes o prazer nos braços
Das prostitutas vís, e em seus banquetes
De embriaguez, lançar fel e amarguras?
Não!--Bem como um cadaver já corrupto,
A nação se dissolve: e em seu lethargo
O povo, involto na miseria, dorme.