AO SOL

(FRAGMENTO DO POEMA DE «CARTHON»)

Ó tu que rolas n'esse campo ethereo,

Semelhante ao broquel dos meus passados,

D'onde vem os teus raios, sol brilhante?

D'onde recebes tua luz eterna?

Tu despontas solemne e magestoso;

As estrellas se escondem quando passas,

A lua fria e pallida mergulha

Nas vagas do occidente; e tu caminhas

Solitario nos céos. Quem na carreira

Te póde acompanhar? Os altos robles

Baqueiam das montanhas, e ellas mesmas

Sob o pêso dos annos se arruinam;

O oceano ora se eleva, ora se abaixa;

A propria lua na amplidão fenece:

Só tu caminhas sempre, e sempre o mesmo,

E de tanto fulgor te vanglorías!

Quando a borrasca entenebrece o mundo,

Quando rolam trovões, e adeja o raio,

Tu olhas d'entre as nuvens sobranceiro,

E sorris da tormenta! Mas debalde

Olhando Ossian procuras, que os teus raios

Ossian não mais verá, quer teus cabellos

Em nuvens orientaes flammejem soltos,

Quer descendo os espaços estremeças

Ás portas do occidente. Sol, um dia

Talvez como eu serás; talvez, quem sabe?

Dos annos teus acabarás o gyro,

E insensivel á voz da madrugada,

Em tuas nuvens ficarás dormindo.

Mas folga, folga entanto magestoso

No verdor de teus annos: a velhice

É solitaria e triste; é semelhante

Ao clarão melancholico da lua

Quando brilha entre nuvens, quando o norte

Revôa na planicie, e o caminhante

Pára convulso e de pavor transido.

Poesias(#39992) · 第 62 / 68 题