O ARCHANJO DA LIBERDADE

Bem vindo sejas, bonançoso dia,

Que ao mundo trazes a perdida luz!

Bem vindo sejas! teu fulgor lhe envia

No facho eterno que as nações conduz!

Assim de galas e esplendor vestida

Á voz do Eterno a creação rompeu;

E a liberdade se ligou á vida,

No mar, na terra, na amplidão do céo.

--Vivei, sois livres, caminhae ávante!--

O Eterno disse, e me entregou a lei;

Seu dedo a terra me apontou distante,

E eu das alturas com prazer baixei.

E a lei dos mundos vim gravar na selva,

No leão das brenhas, e no açor do ar,

No cedro altivo, na modesta relva,

Nas bravas ondas do revolto mar.

No ser humano, d'entre os mais acceito,

Gravei mais fundo o universal condão,

E d'entre as azas lhe verti no peito

Viva centelha d'immortal clarão.

Então, qual fumo d'abrazado incenso,

Voou da terra festival louvor;

E a natureza, no seu gyro immenso,

Pulsou de vida, liberdade e amor.

Mais ai! que o homem de seus dons celestes

No altar dos vicios holocausto fez;

Rasgou impuro da innocencia as vestes,

Calcou tyranno seus irmãos aos pés.

Tomando o ferro de cruel verdugo

Fartou com sangue mil crueis paixões;

Impôz ao fraco seu tyranno jugo,

E o fraco ás plantas lhe arrastou grilhões.

Então a terra suspendeu seus hymnos,

A luz do dia se turvou no céo,

E esta harpa triste, nos umbraes divinos,

Aos pés do Eterno desde então gemeu.

De negras sombras se toldára o mundo,

Mas eis que os tempos eram findos já;

Eis que uma estrella de fulgor jucundo,

Sorrindo á terra, alumiou Judá.

Em vão; só hoje triumphar devia

Esse astro immenso de serena luz:

Eis surge, eis surge do resgate o dia,

Brilhando aos homens sobre a eterna cruz.

Povos, sois livres, enxugae o pranto!

Do leito amargo do penar surgi!

Terra, modúla teu festivo canto,

Que o novo dia já reluz em ti!

D'um Deus o sangue resgatou a affronta:

Quebrae a taça da agonia e dôr!

Novo porvir ás gerações desponta

De liberdade, de ventura e amor.

Eterna gloria ao que desceu á terra!

Eterna gloria do universo ao Rei!

Que o fraco exalta, que o soberbo aterra,

Que impõe aos orbes e ás nações a lei!

Poesias(#39992) · 第 59 / 68 题