AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA

E eu achei-me assentado solitario

Junto d'um grande mar triste e sombrio,

Cujas ondas d'aspecto funerario,

Se agitavam, qual trémulo sudario

Sobre um cadaver macilento e frio.

E eu era triste! sepulchraes gemidos

Me vinham d'essas ondas tormentosas;

Seu fragor penetrava em meus ouvidos,

Como o arfar de mil peitos opprimidos

Em duros transes d'afflicções penosas.

E por cima na abobada do mundo

Um véo de nuvens se estendia baço;

Rebramava o trovão rouco e profundo,

E o mar lhe respondia gemebundo,

E a tristeza reinava em todo o espaço.

E um suor frio me escorreu na fronte,

Como o orvalho na cruz d'um cemiterio;

E de meus prantos desatou-se a fonte,

E eu pedi ao Senhor que do horisonte

Me tirasse esta nuvem de mysterio.

E o Senhor deu ouvidos a meu rogo,

Pois vi descer a mim do firmamento

Um facho ardente de celeste fogo,

Que as trevas de meus olhos varreu logo,

Qual varre as nuvens um tufão violento.

E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias

Era um mar de nações que se agitava;

E eu conheci que em leito d'agonias,

Chorando em vão seus miserandos dias,

Aquella multidão gemia escrava.

Alli o fraco de pavor transido

Arrastava grilhões aos pés do forte;

O perverso ostentava o rosto erguido,

E o justo era qual pombo foragido

Que nas garras do açor encontra a morte.

O mendigo nos atrios do opulento

Pedia amparo, e maldições colhia;

O filho do trabalho, sem alento,

Comprava o escasso pão ao avarento

A troco dos andrajos que despia.

E entre as garras da fome devorante

O mancebo luctava enfraquecido,

O velho desmaiava agonisante,

E a mãe sem forças apertava o infante

Ao peito como a urze resequido.

E um espectro medonho e ensanguentado

Por entre aquelles povos divagava,

Brandindo um ferro com medonho brado;

E o chão que elle pisava era abysmado

Como em torrentes d'incendida lava.

É que esses povos, como iradas feras,

Ao seu brado feroz se levantavam;

E a matança era tanta, que disseras

Vêr um circo de hyenas e pantheras

Que entre as garras crueis se espedaçavam.

E no meio de tudo em alto monte

Se erguia um throno de rubins accesos,

No qual um anjo, coroada a fronte,

Dominava soberbo esse horisonte

De povos algemados e indefesos.

E no semblante d'esse archanjo ardente

O dedo do Senhor estava escripto;

E eu pude lêr-lhe na sombria frente,

Gravadas em caracter refulgente,

As sinistras palavras:--_sê maldito!_

E outro archanjo de negras armaduras

De joelhos aos pés se lhe inclinava;

E, infausto mensageiro d'amarguras,

Na sinistra empunhava algemas duras,

Na dextra ferrea urna sustentava.

E offertando-lhe a urna com respeito,

Lhe dizia com voz assustadora:

«Anjo do mal que o homem tens sujeito,

«N'este vaso de dôr recebe o preito

«Das lagrimas crueis que o mundo chora.

«Eis o penhor fiel que a tyrannia

«Por mim, seu anjo, te conduz ás plantas.

«Os humanos resistem noite e dia,

«Mas o laço do amor não concilia

«As suas turbas, que feroz supplantas.

«Mal haja o Christo que o amor ensina!

«Seu vil reinado succumbiu na terra.

«Triumpha, anjo do mal, reina e domina,

«E mil flagellos ás nações fulmina,

«De crimes, divisões, de luto e guerra!»

E o archanjo brandindo o sceptro ardente

Sorria com feroz perversidade:

E ao longe murmurava um som fremente,

Como o rugido d'um volcão latente,

Ou a voz de longinqua tempestade.

E eu cedi ao vaivem de minhas mágoas,

Como ao sôpro do vento a fragil hera,

Té que uma voz, como a das grandes agoas,

De minhas penas abrandando as frágoas,

Me bradou aos ouvidos:--_crê e espera!_

* * * * *

E subito uma aurora

Serena, refulgente,

Das trevas do oriente

Desfez os negros véos;

Lavrou, como um incendio,

Nas sombras horrorosas,

E alfim cobriu de rosas

A cupula dos céos.

E um astro despontando

Na franja do horisonte,

Alçou a meiga fronte

Coberta d'aurea luz:

Sobre elle campeando

Cercada d'alta gloria,

Promessa de victoria,

Brilhava a eterna cruz.

E logo ardente nuvem,

Relampagos soltando,

Baixou do céo voando

No carro dos trovões;

Bem como de trombeta

Soltava estranho accento,

E prestes como o vento

Rolou sobre as nações.

E n'ella a gloria immensa

Do Deus que o mundo adora

Brilhava como outr'ora

No tôpo do Sinai;

E o grito da trombeta

Dizia em som de guerra:

--Surgi, povos da terra,

N'um só vos ajuntae!--

E o throno do mau anjo

Tremeu nos fundamentos,

E eu vi passar nos ventos

O espirito de Deus;

Seu brado erguia os povos,

Bem como a tempestade

Do mar na immensidade

Levanta os escarcéos.

* * * * *

E as turbas procellosas remoinharam,

Como as areias que o tufão agita;

E alçando todas pavorosa grita,

Com laços fraternaes se colligaram.

E emquanto erguiam seus pendões de guerra,

Eis que as azas batendo nas alturas,

Cingidos de brilhantes armaduras,

Dous archanjos pairaram sobre a terra.

Cobriam-lhes as fórmas delicadas

Escudos e couraças diamantinas,

Aureos elmos as frontes peregrinas,

Nas dextras empunhando igneas espadas.

E eu vi-os, como soes relampejantes,

Adejarem velozes sobre a terra,

Brandindo irados, em signal de guerra,

As terriveis espadas flammejantes.

Té que chegando o instante do resgate,

Fitando os povos que os olhavam mudos,

Bateram co'as espadas nos escudos,

Bradando ás multidões:--eia ao combate!

* * * * *

E os povos ao brado,

Qual mar agitado

Fervendo em cachões,

Erguiam-se fortes

Em densas cohortes,

Em mil turbilhões;

E á guerra corriam,

E feros bramiam

Quaes feros leões.

Corriam, chegaram,

E o throno cercaram

Do anjo do mal;

Mas elle!--maldito!--

Das luctas o grito

Soltára fatal;

Na mão, qual espectro,

Luzia-lhe um sceptro

De lume infernal.

Com furia sombria,

Da vil tyrannia

Ao anjo acenou,

E o prompto ministro

Seu mando sinistro

Fiel acceitou;

E eis rapido logo

As armas de fogo

Medonhas tomou.

E enormes serpentes

Vermelhas, ardentes,

Soltou pelo chão;

Das ferreas escamas

Sahiam-lhes chammas

De torvo clarão;

Cada uma nos povos

Saltava em corcovos

D'horrenda visão.

Os povos, que as viam,

Debalde investiam

Seus gyros mortaes:

Crueis lavaredas

Abriam veredas

Ás serpes fataes;

E a turba d'exangue

Cahia do sangue

Nos rios caudaes.

Mas n'isto ligeiros

Os anjos guerreiros,

No ar inda então,

Baixaram luzentes,

Quaes astros cadentes,

Á terrea mansão;

E aos anjos malvados

Correram irados

Com voz de trovão.

E todos, alçadas

As igneas espadas

Brandiram a par;

Cada uma semelha

Luzente centelha

Cruzando no ar;

Semelha no embate

A onda que bate

Na rocha do mar.

Seus olhos vibravam,

Seus gritos soavam

Em echos d'horror;

As turbas rugiam,

As armas tiniam

Com novo rancor;

O carro da guerra

Rolava na terra

Com torvo fragor.

Até que um rebombo

Soou, como tombo

Ruidoso e fatal

De penha que d'alto

Desaba, e d'um salto

Retumba no val:

Era alto ruido

Do throno abatido

Do genio do mal.

E logo infinitos

Ouvi ledos gritos,

E ouvi maldições;

E soltos aos ventos

Vi centos e centos

D'ovantes pendões;

Vi feitos pedaços

Algemas, e laços,

E ferreos grilhões.

Vi thronos cahidos,

Vi sceptros partidos

Rolarem no pó;

Vi aureos emblemas,

Vi mil diademas

Calcados sem dó;

Vi povos diversos,

Outr'ora dispersos,

Unidos n'um só.

* * * * *

Vi a terra já livre d'anciedade

Rasgar altiva seu funereo manto;

Vi os homens á voz da liberdade

Surgirem fortes do lethal quebranto.

Vi-os, tecendo fraternaes abraços,

Sem odios, sem rancor, e sem vinganças

Estreitarem d'amor serenos laços,

Unidos em sublimes allianças.

E eu louvei o Senhor! já não reinava

O anjo do mal co'a tyrannia fera:

Seu throno demolido semelhava

D'apagado volcão torva cratera.

* * * * *

Coberto de mantos de pura saphíra

Que dia tão ledo brilhava sem véos!

A estrella formosa que aos homens surgíra

Reinava em triumpho no campo dos céos.

Seu facho divino cercado de rosas

Vertia no mundo torrentes de luz,

E o mundo coberto de galas formosas

Saudava n'esse astro do Golgotha a cruz.

Dos valles, dos montes, da terra, e dos mares,

Sahiam murmurios de paz e d'amor,

Co'a voz dos humanos soando nos ares

Em cantos infindos d'infindo louvor.

Batendo serenos as azas douradas,

Os anjos formosos pairavam no céo,

Qual nitido bando de pombas nevadas

Cruzando os espaços n'um dia sem véo.

Nem elmos agora, nem malhas luzentes

Cobriam dos anjos as fórmas gentis:

De branco trajados, seus véos innocentes

Ondeavam tremendo nas auras subtis.

Cahiam-lhes soltos os longos cabellos

No collo, nos hombros d'alvura louçã,

Seus rostos ornando, mais puros, mais bellos

Que a estrella argentina da rosea manhã.

Traziam poisadas nas candidas frentes

Grinaldas singelas de casta cecem,

E as harpas eburneas tangiam cadentes,

C'roadas de rosas e lirios tambem.

Um côro celeste voando em cardumes

Seguia os archanjos com doces canções;

E todos lançando na terra perfumes

Assim descantavam por sobre as nações:

Poesias(#39992) · 第 56 / 68 题