AMOR E ETERNIDADE

Repara, doce amiga, olha esta lousa,

E junto aquella que lhe fica unida:

Aqui d'um terno amor, aqui repousa

O despojo mortal, sem luz, sem vida.

Esgotando talvez o fel da sorte,

Poderam ambos descançar tranquillos;

Amaram-se na vida, e inda na morte

Não pôde a fria tumba desunil-os.

Oh! quão saudosa a viração murmura

No cypreste virente

Que lhes protege as urnas funerarias!

E o sol, ao descahir lá no occidente,

Quão bello lhes fulgura

Nas campas solitarias!

Assim, anjo adorado, assim um dia

De nossas vidas murcharão flôres...

Assim ao menos sob a campa fria

Se reunam tambem nossos amores!

Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,

Teu bello rosto no meu seio inclinas,

Pallido como o lirio que ao sol posto

Desmaia nas campinas?

Oh! vem, não perturbemos a ventura

Do coração, que jubiloso anceia...

Vem, gosemos da vida em quanto dura;

Desterremos da morte a negra ideia!

Longe, longe de nós essa lembrança!

Mas não receies o funesto córte...

Doce amiga, descança:

Quem ama como nós, sorri á morte.

Vês estas sepulturas?

Aqui cinzas escuras,

Sem vida, sem vigor, jazem agora;

Mas esse ardor que as animou outr'ora,

Voou nas azas d'immortal aurora

A regiões mais puras.

Não, a chamma que o peito ao peito envia

Não morre extincta no funereo gêlo.

O coração é immenso: a campa fria

É pequena de mais para contêl-o.

Nada receies, pois: a tumba encerra

Um breve espaço e uma breve idade;

E o amor tem por patria o céo e a terra,

Por vida a eternidade!

Poesias(#39992) · 第 29 / 68 题