Todo lo vience el tiempo i la porfia:

En marmol duro si el agua desciende,

Ella tan blanda cava todavia;

Es duro el hierro, gasta se por ende;

Lo que no puede un dia, haze otro dia.

A las sus fuerzas, quien se le defiende?

Durisima Pascuala quanto en ti

De amor, trabajo, fe, tiempo perdi!

Vemos la golondrina vuelto el pecho

Al viento como un raio ir se volando,

Ora en cielo, ora en tierra, a trecho a trecho,

Que la vista la va mal devisando.

Contra la vena de agua por derecho

Van truchas las azudas trespasando.

Con quantas aves de entre dia vuelan,

Otras la noche escura se desvelan.

Ha i animales que a los nuestros fuegos

Se acogen, constreñidos del mal frio,

Otros no vence estonces, como juegos;

Aves del cielo biven por el rio,

Otros se esconden por la tierra ciegos;

Biven del fuego, biven del rocio:

No sé de condicion que eres Pascuala

Pero no de mujer, no de zagala,

Mas antes de zagala i de mujer!

Que debajo de aquella vista hermosa,

Tan llegada al divino parecer,

Escondió la natura artificiosa

El maior mal que pueden ojos ver,

Engaño que haz la pena deleitosa,

Ponzoña de gran fuerza! mata el vel-las,

Mata el oil-as, mata el oir d'elas!

Oh que haias mucho de mal grado, Amor

Que ansi nos turbas el entendimiento?

Al maior daño diste mas sabor,

Errado el peso, la medida, el cuento,

Donde se sigue que de tal error

Se vengan recreciendo ciento a ciento,

Qual fuente avelenada perenal

Donde mana despues tanto de mal!

Suerte mucho cruel que tal consiente?

Logo abaixo da _Basto_, embora em verdade muito inferior, pode ser

collocada a _Andrés_. A _Celia_, dedicada ao infante D. Luiz, não é tão

mimosa, porém quasi lhe eguala em sentimento. O poeta canta uma mulher

desapparecida, o amor querido do alludido principe.

Ai Celia! quantas lagrimas devidas

Te son! i quantas, si remedio diesen

A cosa alguna de mas a las vidas

Por quien costumbre quiso se vertiesen

En vano tantos tiempos, si no havidas

De los mas sabios por flaqueza fuesen.

No digo mas de si ni mas de no

Son que causa terná quien nos las dió.

Aquel dolor que va turbando dentro

De cuerpo i d'alma todos los sentidos,

Pasando al corazon que es el su centro,

Las lagrimas de alla manda i gemidos

Que abran camiños a aquel duro encuentro;

Sino, que es fuerza, siendo detenidos,

Con el fuego encerrado i las centellas

Ardan las casas i el señor con ellas.

.........................................

Estés por siempre, buena Celia, en gloria

I siempre en fama qual dejaste aqui;

Deve se tal corona a tal vitoria

Del enemigo, del mundo, i de ti,

Duros contrarios que en nuestra memoria

No sé vencidos quien los haia ansi;

Derechamente corriste a la palma,

Dejaste el cuerpo atras, avante el alma.

Em 1538, apresentou o poeta a sua segunda comedia classica _Os

Vilhalpandos_, escripta em prosa como a primeira. Esta e os

_Estrangeiros_, o Cardeal D. Henrique que depois foi Rei, _tam pio, tam

zelador da Fé, e dos bons costumes, reformador das Religiões, Legado á

Lattere, Inquisidor-Môr, não só lhas mandou pedir pera as fazer (como

fez) representar diante de si por pessoas que depois foram grandissimos

ministros... senão pouco despois de Francisco de Sá morto, porque se

ellas nam perdessem as fez imprimir ambas em Coimbra na forma em que

andam e as tinha e lia muitas vezes_.

O visconde de Almeida Garrett, traçando um pequeno esboço da _Historia

da lingua e da poesia portuguesa_, mostrou-se da opinião que as comedias

de Sá de Miranda eram para admirar e constituiam um notavel monumento

para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos e pelo que

excedem quanto até então se tinha escripto. Justo n'esta apreciação,

Garrett deixou-se, comtudo, levar pelo pessimismo de considerar funesto

o impulso dado por Sá de Miranda ao theatro portuguez, funesto e como

tendo-o destruido ao nascer. N'esta mesma direcção, Andrade Ferreira

acha que a influencia italiana não deu de si mais que a memoria de

varias tentativas eruditas.

Comprehende-se que o publico preferisse o theatro tal como o apresentava

a musa negligente e faceta de Gil Vicente e João Prestes, em que havia

sido creado e que o interessava porque o divertia. Natural que antes

quizesse as jocosidades por vezes grosseiras dos autos populares a

conservar a sua grave compostura ante as subtilezas da arte e correcção

das comedias ao gosto classico, a que não estava habituado e que o não

deixavam á vontade, acabando por o fazer bocejar. Parece-nos, exagero,

porém, inferir d'ahi a funesticidade da obra de Sá de Miranda.

Seriam as comedias de Sá de Miranda faltas de caracter nacional e

improprias para dar uma boa direcção ao theatro portuguez? Só um estudo

profundo e demorado o pode decidir. Foi, todavia, essa corrente de

reforma do theatro pela imitação da comedia classica que produziu essa

obra immortal de Ferreira, a _Castro_, a primeira composição dramatica

moderna, que reproduz o que existe de mais sublime e pathetico em um

quadro de historia nacional, como escreve Andrade Ferreira.

O final de este periodo de actividade litteraria de Sá de Miranda foi

assignalado por uma nova carta em redondilhas, dirigida a seu irmão Mem

de Sá. Esta carta deve datar-se de pouco depois de 1543 porque allude á

morte de D. Duarte e de Boscan.

Mem de Sá, ao contrario de seu irmão, procurava elevar-se pelas

honrarias da côrte e alcançava ascender aos mais altos cargos do estado.

Como governador geral do Brazil, o seu nome cobriu-se de uma gloria

immortal. Sá de Miranda, em sua carta, aconselha-o a evitar os escolhos

da ambição e da vaidade para não ver a sua carreira naufragar

inopinadamente. Para mostrar quanto mais valia a modestia do pouco em

socego ante as incertezas inherentes ás maiores grandezas utilisa

bellamente a celebre fabula do rato do campo e do rato da cidade.

Sá de Miranda confirma suas palavras com o exemplo de seu passado.

Explica-lhe porque abandonou a côrte e descreve-lhe a vida tumultuaria

que n'ella se passa e contra a qual se não podia já ir.

Polo qual a este abrigo,

Onde me acolhi cansado

E ja com assaz perigo,

A essas letras que sigo,

Devo que nunca me enfado,

Devo a minha muito amada

E prezada liberdade

Que tive aos dados jugada.

Aqui sômente é mandada

Da rezão boa e verdade.

Nas cortes não pode ser!

Vedes os tempos que correm!

E assí vemos té morrer

Irem muitos a correr

Por fugirem d'onde morrem.

Ora pôr peito á corrente,

Que sejais forçoso e são,

E de sangue inda fervente,

Gram nadador, claramente

É quebrar braços em vão.

Que valem as riquezas comparadas com a liberdade? Ambições que passam

com a edade!

Buscar e sonhar privanças,

Dar de entrada a liberdade

Logo por vãs esperanças,

Esses jogos, essas danças

Passem coa mocidade.

Da fraqueza propria vem o medo á pobreza.

Fracos de fe! e de fraqueza

Vêm estes nossos suores,

Estes medos á proveza.

E que desgraçada existencia a d'aquelles que só vivem da ambição e para

a ambição.

Andando assi neste enlheo

Em quantos erros caimos

Sem conto, sem fim, sem meo;

Dormimos o sono alheo

O nosso não o durmimos;

Queremos o que outrem quer,

O que não quer engeitamos!

Estamos sômente a ver,

Rimos o alheo prazer,

E ás vezes quando choramos.

A carta a Mem de Sá foi a ultima composição notavel do poeta da Tapada.

Sá de Miranda nada voltou a produzir que se possa destacar e os seus

trabalhos poeticos posteriores limitaram-se a moribundos clarões de um

sol no poente. Emmudeceria ante a decadencia que escancarava a sua

terrivel guella hiante com os primeiros horrores da Inquisição ou

preoccupava-o em extremo o futuro dos filhos já homens ou, ainda, seria

absorvido pela sua occupação mais constante de rever as obras antigas

para as polir e aperfeiçoar, sobretudo a famosa e esplendida _Basto_,

objecto dos seus mais dedicados cuidados e a que deu o maior realce?

Talvez todos esses motivos concorressem para afrouxar a actividade do

poeta.

Por 1551, o principe D. João, joven herdeiro do throno e que bem novo se

declarava um decidido protector das lettras, mandou pedir a Sá de

Miranda uma collecção de suas poesias. O poeta satisfez com empenho o

pedido, sentindo-se n'elle não só honrado, como apreciado. Era aquella

solicitação confirmativa de seu triumpho.

As composições poeticas de Sá de Miranda só em 1595, annos depois de sua

morte, é que foram pela primeira vez impressas. Nem por isso sua

influencia se exerceu menos accentuada, pois corriam manuscriptas de mão

para mão amiga. Aquelle cenaculo da Tapada cedo se tornou o foco de onde

irradiou a luz que trouxe a restauração da poesia portugueza, o centro

do movimento poetico do paiz. O nome de Sá de Miranda foi sempre

augmentando até se impôr aos outros quinhentistas com um predominio a

que lhe dava jus a sua vasta e solida erudição, a auctoridade de seu

caracter e a sua obra admiravel.

Em torno do venerando moralista e brilhante poeta começaram a

agrupar-se, quer pela communhão de idêas, quer pelas relações pessoaes,

os espiritos esclarecidos do tempo, como Ferreira, Diogo Bernardes, D.

Manuel de Portugal, Francisco de Sá e Menezes, Pero de Andrade Caminha e

outros. Soccorriam-se á sua experiencia, consultavam-o, ouviam-o e

submettiam-lhe as suas producções.

Diogo Bernardes, ao tempo em que ainda se conservava em sua terra natal,

Ponte de Lima, visitava a miudo a Tapada onde Sá de Miranda o recebia

com a mais carinhosa intimidade. Em sua primeira carta, escripta em

tercetos á maneira italiana, confessa que é a elle que toma por mestre.

O dôce estylo teu tomo por guia,

Escrevo, leio e risco; vejo quantas

Vezes se engana quem de si se fia.

....................................

Não te deram os céos graças tamanhas,

Para só as lograres, mas por seres

Bom mestre de artes boas, boas manhas.

Sá de Miranda recebeu com enthusiasmo essa estreia do novel poeta. Com a

sua benevolencia paternal, dirigiu lhe este mimoso soneto:

Neste começo d'ano em tam bom dia,

Tam claro, porque não faleça nada,

Me foi da vossa parte apresentada

Vossa composição boa a porfia.

De que espanto me encheu quanto ali via!

E mais em parte ca tam desviada

Sempre até gora da direita estrada

De Clio, de Caliope e Talia.

Oh que enveja vos hei a esse correr

Pola praia do Lima abaixo e arriva

Que tem tanta virtude de esquecer,

O que estes tristes coraçõis aliva,

Do pesar igualmente e do prazer

Passado, que não quer que inda homem viva.

Caminha teve tambem, muito cedo, amizade com Sá de Miranda. O sr.

Theophilo Braga attribue mesmo a essa circumstancia uma parte da

celebridade de que aquelle gosou.

A Ferreira nunca Sá de Miranda viu. Pois não era dos que menos o

adoravam pela sua vida integra e caracter austero e admiravam pela sua

grande obra de renovação litteraria. Mais tarde, Ferreira lamentou

acerbamente nunca se haver encontrado com o poeta da Tapada.

Ah meu bom mestre, ah pastor meu amigo,

Como minha alma e os olhos se estendiam

Por ver-te, e o duro tempo foi-me imigo!

Mas inda que os meus olhos te não viam

Cá te tinha minha alma, e teus bons cantos

Lá me levavam, e de ti todo enchiam.

A geração, que se vinha manifestando exuberante de talento, encarava com

a mais commovida veneração e respeito o grande poeta que tanto

trabalhara pelo florescimento das lettras patrias. Conhecia que muito e

muito se devia a esse homem verdadeiramente nobre e justo. Da forma como

o considerava, dá idêa o admiravel retrato que Ferreira d'elle traçou.

Chamar-te-hei sempre bem aventurado.

Que tanto ha que em bom porto co essas santas

Musas te estás em santo ocio apartado.

Não esperas, não temes, não te espantas;

Sempre em bom ocio, sempre em sãos cuidados,

A ti só vives lá, e a ti só cantas.

Os olhos soltos pelos verdes prados,

O pensamento livre, e nos céos posto,

Seguros passos dás e bem contados.

Trazes hua alma sempre n'um só rosto,

Nem o anno te muda, nem o dia,

Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.

Quam alta, quam christã philosophia,

De poucos entendida nos mostraste!

Que caminho do céo, que certa guia!

De ti fugiste, e lá de ti voaste,

Lá longe, onde teu sprito alto subindo

Achou esse alto bem que tanto amaste.

Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo

Com tua vida, e com teu doce canto,

Nova agua e novo fogo descubrindo.

Particularidade digna de mencionar-se e que o sr. Theophilo Braga nota:

todos os poetas que se filiavam em a escola italiana e se dirigiam a Sá

de Miranda, começavam por contar-lhe a sua vida, como para mostrar que

era immaculada e que merecia a amizade delle. Tanta respeitabilidade

infundia esse homem de um caracter integro e puro.

Sá de Miranda sentia um vivo prazer ao observar o triumpho de seus

esforços. Quasi immediatamente surgiu uma serie de cataclysmos que veiu

matar o poeta _logo tambem pera todas as cousas de seu gosto e antigos

exercicios_.

A deploravel catastrophe de Ceuta, em 1553, em que pereceu a flôr da

cavallaria portugueza, custou-lhe a preciosa vida de seu filho

primogenito Gonçalo Mendes, ambição risonha de seu futuro, enlevo de sua

alma, carinho de seu coração amantissimo. O poeta sentiu-se ferido

rudemente por esse desabar de toda a sua esperança, de toda a sua

felicidade futura.

Os vates da nova escola procuraram consolar a dôr de Sá de Miranda com

sentidas elegias. Ferreira dirigiu-lhe uma suavemente melancolica,

vívida, procurando mitigar a dôr do attribulado pae pela idêa da morte

gloriosa do filho que caira combatendo pela patria.

Oh alma bem nacida, que em tal guerra

Ganhaste uma tal vida, honra e gloria

Quem morte lhe chamar contra ti erra.

Sá de Miranda respondeu a Ferreira com outra elegia, vibrante da dôr

mais profunda que pode exacerbar o coração de um pae extremoso. A sua

magoa não lhe impede, porém, de admirar o talento do joven adepto da

nova escola e de o incitar a continuar na vereda encetada.

Vem um dando á cabeza e conta ufano

Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas

Polas que fez: todo al lhe é claro engano.

Andão se ás razõis frias polas ramas

Um vilancete brando, ou seja um chiste,

Letras ás invençõis, motes ás damas,

Ua pregunta escura, esparsa triste!

Tudo bom! quem o nega? mas porque,

Se alguem descobre mais, se lhe resiste?

E como, esta era a ajuda? esta a mercé?

(Deixemos ja as mercés) este o bom rosto?

De menos custa em fim que este tal é?

E logo aqui tam perto, com que gosto

De todos Boscão, Lasso, erguérão bando,

Fizerão dia, ja quasi sol posto!

Ah que não tornão mais! vão se cantando

De vale em vale de ar mais lumioso

E por outras ribeiras passeando.

A idêa de que a sua obra seria continuada por uma geração cheia de

talento mitiga o pezar de Sá de Miranda. Desejava, porém, não ter de

lamentar esse filho perdido em tão tenra edade: dezeseis annos. Como

invejava a sorte d'aquelle Mestre Dom Rodrigo, chorado por seu filho

Jorge Manrique!

Nos sonhamos aqui, tu vas te ao ceu.

Ditoso aquele mestre dom Rodrigo

Manrique, a quem em seu tempo louvou

O filho e deu ao corpo em morte abrigo.

Era ela conta igual que quem entrou

Antes á vida, saisse primeiro?

Eu sou que devera ir! quem nos trocou?

......................................

Vai te a boa ora; não tens de que devas

Temer; la tudo é paz, tudo assossego!

Quem leva um tal seguro qual tu levas?

Não se apagara ainda a saudade do filho querido e já uma nova desgraça

feria o coração do poeta. A esposa virtuosissima, D. Briolanja,

faltou-lhe em 1555. Sá de Miranda entregou-se a extremos de sentimento

_senam dignos do animo de hum tam grande Philosopho, devidos pollo menos

á estimaçam que com seu profundo juizo fez daquella perda_.

Sá de Miranda sobreviveu ainda tres annos ao desapparecimento d'esse

ente querido e, como affirma a _Vida_, por testemunho de pessoas que

conheceram o poeta, _nunca mais sahio de sua casa, senão pera ovir os

officios Divinos, nem apparou a barba, nem cortou as unhas, nem

respondeu a carta que lhe alguem escrevesse até que acabou de todo_.

Vivendo _ainda tres annos despois_ de sua mulher, _nam se acha que

composesse mais que hum Soneto que fez á sua morte_. Foi digna cupula

posta á sua obra poetica.

Aquele esprito, já tam bem pagado

Como ele merecia, claro e puro,

Deixou de boa vontade o vale escuro,

De tudo o que ca viu como anojado.

Aquele esprito que, do mar irado

D'esta vida mortal posto em seguro,

Da gloria que la tem de herdade e juro

Ca nos deixou o caminho abalisado.

Alma aqui vinda nesta nossa idade.

De ferro que tornaste a antiga de ouro

Em quanto ca regeste a humanidade,

Em chegando ajuntaste tal tesouro

Que para sempre dura! Ah vaidade!

Ricas areas d'este Tejo e Douro!

Como se não fossem poucos os desgostos a abrirem-lhe a cova, os ultimos

dias de Sá de Miranda ainda passaram amargurados com a noticia da morte

do principe D. João, uma promessa para o paiz, quasi a seguir a do

infante D. Luiz e, por ultimo, a de el-rei D. João III, o seu grande e

nobre amigo, em 1567. Sá de Miranda sobreviveu apenas oito mezes a esta

ultima e fulminante desgraça que vinha mergulhar o reino em as

dissenções de uma funesta regencia.

O poeta da Tapada, o grande auctor da ecloga _Basto_, falleceu a 15 de

março de 1558, com mais de sessenta e oito annos de edade. Recebeu

modesta, mas digna sepultura, ao lado de sua mulher em a capella de

Santa Margarida da egreja de S. Martinho de Carrezedo, em o arcebispado

de Braga.

Muito sentida a morte do grande poeta por todos os adeptos da nova

escola litteraria a que Sá de Miranda servia, por assim dizer, de elo.

Não fosse o espirito do respeitado mestre que se apagára. Tinha-se bem

presente aquelles versos de Ferreira em que tão bem se synthetisa a

grande obra de Sá de Miranda:

Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo

Com tua vida, e com teu doce canto,

Nova agua e novo fogo descubrindo.

_Terminando_

A _Vida_, o precioso documento anonymo que acompanha a segunda edição,

de 1614, das obras poeticas de Sá de Miranda, serviu de guia e de base

ao nosso estudo biographico-critico. Como tivemos occasião de ver, no

que respeita a fixação de factos, ella nem sempre é veridica, deixando

muito a desejar. Erra assim na data que attribue ao nascimento do poeta

e em dizer que elle _estudou leys mais em obsequio ao gosto del Rey Dom

João o Terceiro... que por inclinação que tivesse áquella maneira de

vida_, phrases que reproduzimos atraz para accentuar as boas relações em

que estava a sua familia com a casa real, não por as tomarmos á lettra.

Essas faltas do anonymo biographo, a nosso ver, em nada desmerecem o

valor do documento que nos legou sobre a vida do glorioso solitario da

Tapada. Ha grandes lacunas na _Vida_, erros de vulto, mas ella é bem

realmente _collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão_--ao

poeta--_e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno_. Tivemos

occasião de o verificar notando a concordancia dos seus dados com os

offerecidos pelos diversos nobiliarios e genealogias manuscriptas a que

precisamos recorrer.

Uma d'essas genealogias, a _Nobresa de Portugal e Espanha_, de Manuel

Faria e Sousa, em seu titulo dos _Sãs de Francisco de Sá de Miranda,

senhores da quinta da Tapada_, teria poupado a muitos escriptores o

engano de dar ao poeta como mãe a avó, se fosse consultada. Ella diz

expressamente:--_Gonçalo Mendes de Sá, filho 2.º de Felipa de Sá e de

seu marido João_...

Como deixamos dito, a carta de legitimação do poeta dá o nome da mãe de

Sá de Miranda. Á obsequiosa amabilidade do erudito investigador sr.

Sousa Viterbo, devemos o saber que ella se chamava Ignez de Mello.

Pertenceria esta senhora á geração dos Mellos de Coimbra? Seria nobre?

Occuparia elevada posição social? São perguntas que suggere a particula

_de_ anteposta ao nome de familia e que resta averiguar. Que era _uma

mulher de bem_ affirmam-o os nobiliarios.

Não estão estes de accordo sobre se Sá de Miranda foi o filho

primogenito do conego Gonçalo Mendes. Haja sido ou não, é incontestavel

que o poeta possuia bens proprios. A familia dos Sás era das mais ricas

e importantes do paiz.

Como se sabe, Garcilaso falleceu em 1536. Sá de Miranda compôz para o

primeiro anniversario da morte do grande lyrico hespanhol a ecloga

_Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento não só de suas

poesias como de sua propria vida. Das poesias tomou conhecimento pelo

manuscripto com que o brindou o seu querido amigo Antonio Pereira. O

saber de sua vida devia-o decerto a relações pessoaes, achando o sr.

Theophilo Braga, natural que durante a sua viagem na Italia tivesse Sá

de Miranda encontrado Garcillaso.

Uma ultima nota.

Attribuimos o casamento de Sá de Miranda a resultado de amor mais do que

a desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia e procuramos

proval-o. Ainda como demonstrativo do que dissemos ha um soneto do poeta

que vamos citar na forma porque o reproduziu o sr. Theophilo Braga, em

sua _Historia dos Quinhentistas_.

Como? e serà tão cego e sem sentido

Amor, que umas rasões claras, tão chãs

Não ouça? _e que não veja tantas cans_,

Tanto tempo baldado e não vivido?

DO MESMO AUCTOR

Em preparação:

Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão.

Sobre os joelhos (_artigos e estudos_).

Povos e Civilisações (_Historia da Civilisação_)--Os Seltas.

O seculo XIX.

Notas de transcrição.

No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no

sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais.

Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma

abreviatura dos caracteres "um".

End of Project Gutenberg's Sá de Miranda e a sua Obra, by Décio Carneiro

Sá de Miranda e a sua Obra · 第 5 / 5 段