--A mãe de Helena, disse Salvador, cuja belleza foi a causa, a um
tempo, da sua ma e boa fortuna, era filha de um pobre lavrador do Rio
Grande do Sul, onde tambem nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pae
oppoz-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria
ver-me em posição brilhante. Angela podia ser obstaculo á minha
carreira, dizia elle. Oppoz-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na
campanha oriental, d'onde passamos a Montevideo, e mais tarde ao Rio de
Janeiro. Tinha vinte annos quando deixei a casa paterna; possuia alguns
estudos poucos, meio duzia de patacões, muito amor e muita esperança.
Era de sobra para a minha edade, mas insuficiente para o meu futuro. A
lua de mel foi desde logo uma noite de privações e trabalhos. Minha
vida começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me veem, fui
mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operario,
estalajadeiro, escrevente de cartorio; algumas semanas vivi de tirar
cópias de peças e papeis para theatro. Trabalhava com energia, mas a
fortuna não correspondia á constancia, e o melhor dos annos gastei-o
em luta aspera e desegual. Uma compensação havia, a mais doce de
todas: era o amor e o contentamento de Angela, a egualdade de animo com
que ella encarava todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa
fuga havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina nasceu em
um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da mãe
foram obtidos por favor de uma mulher da visinhança. Mas nasceu, em boa
hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um
ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava
com alma, luctava resoluto contra todas as fôrças adversas, certo de
encontrar á noite a solicitude da mãe e as ingenuas caricias da filha.
Os senhores não são paes; não podem avaliar a fôrça que possue o
sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas accumuladas na
fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me tomava parte da
noite, e eu, apezar de robusto, me sentia cançado, erguia-me, ia ao
berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar fôrças
novas, Se o proprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de
alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime: servia a
adormecer metade da minha felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se commovido.
--Perdoem-me,--continuou elle depois de alguns instantes, se éstas
memorias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje.
Desse tempo só resta um echo doloroso e consolador. Crescia Helena e
cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu albergue.
Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras
licções; assisti pasmado á aurora daquella intelligencia que os
senhores veem hoje tão desenvolvida e lucida. Aprendia com facilidade,
por que estudava com amor. Angela e eu construiamos os mais lindos
castellos do mundo. Nós a viamos ja mulher, formosa como viria a ser,
porque ja o era, intelligente e prendada, espôsa de algum homem que a
adorasse e elevasse. Viviamos dessa antecipação, que era apenas um
sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
--Porque razão,--perguntou Melchior,--dado esse amor e nascida uma
filha, não sanctificou o senhor a situação singular em que se
achavam?
--A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva.
Casar era a nossa justificação; era um argumento contra o resentimento
de meu pae. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande a propria
embriaguez da felicidade desviou qualquer ideia de sanctificar e
legalisar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os
trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao
dever que tomára em meus hombros, ia adiando o acto de mez para mez, de
anno para anno. Afinal o projecto esvaiu-se de todo. Estavamos ligados
pela miseria e pelo coração, não pretendiamos o respeito da
sociedade; triste desculpa, e ainda mais triste recordação, por que o
casamento teria talvez obstado aos acontecimentos posteriores. Helena
contava seis annos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermittencias
favoraveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida,
quando uma circumstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pae
adoecêra; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fôsse ver sem
demora. Obedeci promptamente. Do que elle me remetteu para as despezas
dr viagem e outras, deixei alguma cousa a Angela e Helena, e parti.
Vinte e quatro horas depois de ver meu pae, tive a dor de o perder. A
liquidação dos negocios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo
aos credores; restavam-me alguns patações. Recebi esse golpe novo com
a philosophia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o culpado do
acontecimento? Os negocios entretanto, apezar de curtos, demoraram-me
mais do que eu pretendia e convinha. A ancia de voltar cresceu desde que
não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Angela. Enfim,
pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança
menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pae.
Estacio desviou os olhos.
--Logo que cheguei,--continuou Salvador,--corri a casa; achei-a fechada.
Um visinho, testemunha da minha afflicção, deu-me notícia de que
Angela se mudára para S. Christovão. Não sabia nem o numero nem a
rua; mas deu-me algumas indicações, que me guiaram. Ainda hoje tenho
ante os olhos o sorriso com que aquelle homem me respondia. Era um
sorrir de compaixão que humiliava. Sem nunca haver recebido de mim a
menor offensa, vejo que elle tinha um prazer secreto com o meu
infortunio. Porque? Deixo aos philosophos liquidarem esse enigma da
natureza humana. Voei a S. Christovão; gastei tempo em procurar a casa,
mas dei com ella. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das
indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo, no meio
de um pequeno jardim. Podia ser aquella a residencia da companheira de
minha miseria? Receioso de ir bater alli, vi assomar ao portão um
homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a
quem dei o seu proprio nome, dizendo que lhe desejava falar. «A senhora
sahiu,» respondeu elle distrahidamente. Dispuz-me a esperar, mas o
jardineiro observou-me que ia sahir e fechar o portão, e que a senhora
só voltaria á noite. «Esperarei até a noite», redargui. O jardineiro
mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cautelloso pela rua e
disse-me baixinho: «Aconselho ao senhor que não volte; o patrão não
hade gostar.» Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o
efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a
descripção. Ha catastrophes mais solemnes, ha situações mais
patheticas; mas naquella occasião parecia-me que todas as dores do
mundo se tinham convergido para meu coração. O jardineiro era
verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o effeito de suas
palavras, disse-me alguma cousa de que absolutamente me não lembro.
Convidou-me com brandura a sahir; obedeci machinalmente. Podendo
informar-me acerca de Angela, não o fiz. A febre reteve-me tres dias
de cama, n'uma pobre cama alugada em pessima estalagem da Cidade Nova.
No terceiro dia recebi uma carta de Angela. Pedia-me que lhe perdoasse o
passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que,
se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a
carta, tive impeto de ir ter com ella e esganal-a; mas o impeto passou,
e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um
engenheiro inglez que vinha do Rio Grande para esta Côrte, emprestara-me
um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglez que
aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que alli achei fez-me
estremecer, na occasião, como uma profecia; recordei-a depois quando
Angela me escreveu. «Ella enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de
enganar-te a ti tambem.» Era justo; pelo menos, era explicavel. Dous
dias depois da carta de Angela, escrevi-lhe pedindo meia hora de
conversação; nada mais. Angela concedeu-me a entrevista. Meu plano era
arrebatar-lhe Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sosinha, no
jardim, ás nove horas da noite.
--Por que razão recorda todas essas minucias? interrompeu Melchior com
brandura; nós desejamos somente saber o essencial.
--Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquella
entrevista mostrou-me a toda a luz o caracter de Angela. Que outra
mulher se arriscaria, em taes circumstâncias, a affrontar a colera do
homem desprezado? Angela era um complexo de qualidades singulares. Capaz
de supportar as maiores angústias, forte e risonha no meio das maximas
privações, esqueceu n'um instante as virtudes que tinha para correr
atraz de uma fantasia do amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ella
iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miseria. Angela nasceu
metade freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um claustro,
não o era menos das pompas da scena. E dahi... não fui eu mesmo que a
desviei da estrada real para mettel-a por um atalho obscuro? Disse-lh'o
naquella noite em que procurei ser tranquillo e superior aos
acontecimentos. «Meu fim,--declarei eu,--é só um: levar Helena; Helena
é minha filha, não quero deixal-a entregue a seus maus exemplos.» As
lagrymas com que me banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada
a meus pes, para que lhe deixasse Helena, não ha negar que foi tudo
sincero. Cedi apparentemente. Minha resolução estava assentada; sem
Helena a vida parecia-me impossivel. Que outro vínculo me prendia ao
mundo? A morte e a miseria tinham feito em redor de mim completa
solidão. A unica felicidade sobrevivente era ella.
--Segundo rapto, observou o padre. O senhor condemnava-se a só adquirir
um vislumbre de felicidade por meios violentos.
--Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abysmo chamava outro
abysmo... Felizes os que sabem o caminho recto da vida, e nunca se
arredaram delle! Quiz arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a
via nunca; a propria casa rara vez tinha uma porta ou janella aberta.
Havia alli o recato e o mysterio. Um dia resolvi ir ter com o protector
de Angela. A noticia que me deram do conselheiro Valle era a mais
honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos.
O demonio do orgulho impediu a execução do plano. Quasi a entrar em
casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cêrca de dous mezes.
Emmagreci; as longas vigilias fizeram-me pallido; o trabalho não me
attrahia; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade é um
pungir delicioso não consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é
certo que a ella misturava-se a colera, a colera da impotencia e o
desgôsto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para S. Christovão,
disposto a empregar a violencia, com tanto que trouxesse Helena ou
fôsse dalli para o Aljube. Era á tardinha. Approximei-me do jardim de
Angela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos
mezes! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei
cautelloso encostado á cêrca, Helena falava a alguem. Por uma abertura
da cêrca, pude espreital-a. Estava ao collo de um homem. Esse homem era
o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a
minha Helena. Helena acariciava as barbas delle; este sorria para ella
com um ar de ternura, que o absolvia quasi da offensa a mim feita. O
coração porém apertou-se-me, ao ver dar a outro, affagos a que só eu
tinha direito. Era um roubo feito á natureza; mas, se meu proprio
sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Dahi a
algum tempo,--não sei se foi curto ou longo, por que eu ficára a olhar
para ambos, pasmado de amor e de colera, ouvi que falavam de mim.
«Mas, olhe,--dizia Helena,--papae quando vem?» O conselheiro deu um
beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairara
sôbre a cabeça della. As creanças porém são implacaveis; aquella
repetiu a pergunta. «Papae não volta» respondeu o conselheiro. Helena
ficou muito séria. «Não volta? porque?» «Tua mamãe disse hontem
que papae está ao ceu.» Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe
rebentaram lagrymas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos, tentei
dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha
filha. Os musculos não corresponderam á intenção; senti fraqueza nas
pernas; achei-me de bruços. Quando dei accôrdo de mim, volvi de novo
os olhos para o logar onde os víra. Ainda alli estavam, mas a attitude
era differente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que
ja não chorava. Elle beijava-lhe as mãosinhas e dizia-lhe: «Se papae
foi para o ceu, fiquei eu no logar delle, para dar-te muito beijo, muito
doce e muita boneca. Queres ser minha filha?» A resposta de Helena foi
a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se
dissesse; «Se não tenho ninguem mais no mundo!» O gesto foi tão
eloquente que eu vi borbulhar uma lagryma nos olhos do conselheiro. Essa
lagryma decidia do meu destino; vi que elle a amava, e de todos os
sacrificios que o coração humano póde fazer, aceitei o maior e mais
doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da unica herança que
tinha na terra, fôrça da minha juventude, consolo de minha miseria,
coroa de minha velhice, e voltei á solidão mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por
entre seus dedos escorreram algumas lagrymas, que elle, de envergonhado,
enxugou rapidamente.
--Essas recordações são penosas, disse o padre; não convem
despertal-as de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrisou.
Sabemos o essencial...
--Não, resta ainda alguma cousa, disse Salvador.
Estacio erguera-se. Visivelmente commovido, procurava luctar contra o
sentimento que o dominava, afim de conservar a necessaria independencia
de espirito para julgar da narrativa e do alcance que ella podia ter.
Tinha involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-lhe as
últimas palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento, que podia
parecer uma absolvição summaria. A verdade é que elle não reflectia
nem sentia claramente; sua mente e seu coração eram um campo de ideias
e commoções contrárias.
--Vou acabar,--disse Salvador depois de alguns minutos. Resta explicar o
procedimento de Helena.