A visita de Estacio não causou nenhum espanto a Mendonça; elle a
esperava com a confiança das indoles ingenuas e avessas ao odio. Não
era crivel que um amigo de longos annos dormisse sobre a injustiça de
um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estacio procurou o
pretendente de Helena.
Entrou elle naturalmente em casa de Mendonça; sem expansão nem secura.
A entrevista foi breve, mas cordial; houveram-se os dous com affectuosa
dignidade. Estacio explicou seus escrupulos; declarou-se contente com a
alliança. O contentamento podia existir; todavia a manifestação foi
parca e sêcca. Houve mais calor e expansão quando elle lhe pediu que
désse vida feliz á irmã.
--Sera para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada,
disse elle. Não tivemos o mesmo berço; vivemos nossa infancia debaixo
de tecto differente; não aprendemos a falar pelos labios da mesma
mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pae recommendou-a
a nossa familia e ella correspondeu ao sentimento que dictou essa
ultima e solemne vontade.
Mendonça nas respondeu nada; elle reflectira durante a noite nas
palavras que ouvira a Estacio no dia anterior;--palavras que bem podiam
ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem
de seu casamento. Helena viria a amal-o, talvez; mas desde logo lhe
levava para casa a chave da independencia. Mendonça recuou. Quando o
padre Melchior o soube, não pode conter um gesto de admiração; mas se
louvou o escrupulo, não approvou a resolução, que vinha derrubar
tudo.
--Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; elles acharão meio
de envenenar sua propria generosidade.
--Paciencia! tornou o moço; é menor esse perigo. Se casar, dirão que
faço uma operação vantajosa; talvez sua familia o supponha; talvez
ella propria o pense.
Helena teve noticia dos receios de seu pretendente e da resolução a
que parecia inclinar o coração. Foi a elle; perguntou-lhe se era
verdade. Mendonça affirmou que sim. Ella contemplou-o longamente sem
dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com effusão; elle
persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de
faceirice,--dessa que rara vez deixa de enfeitar os mais puros e nobres
sentimentos. A moça o percebeu, mas nem por isso deixou de crer na
sinceridade do rapaz. Creu; tentou dissuadil-o; e posto nada alcançasse
nos primeiros minutos, estava certa de que triumpharia afinal do
derradeiro obstaculo. Seus olhos seriam mais habeis e felizes que os
labios do padre. Foi o que ella disse ao capellão.
--Tomo á minha conta effectuar este casamento, continuou Helena.
--Resolvida a tudo?
--A tudo.
--Mas se elle insistir...
--Se elle insistir, vencel-o-hei, ou por um modo ou por outro. Uma moça
que quer ser noiva vale por um exercito; eu sou um exercito.
--Muito bem! Contudo, sua dignidade.
--Oh! em último caso abro mão da herança.
--Era capaz disso? perguntou Melchior.
--Se era capaz? Desejo-o até,--disse a moça com vehemencia.
E accrescentou em tom mais brando:
--Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a minima
desconfiança.
Tal era a situação, dous dias depois da volta de Estacio. O casamento
podia contar-se feito. Mendonça não resistiu ao nobre desinteresse de
Helena. D. Ursula approvou tudo com effusão e amor, nada sabendo das
incertezas e contradições dos ultimos dias.
Na noite desse dia, Estacio escreveu para Cantagallo dando notícias
suas. Do casamento de Helena falou pouco; quasi nada. Tudo o
descontentava: tanto o que elle fizera e dissera, sem proveito, como o
desenlace da situação. Não soubera oppor-se com efficacia nem
applaudir opportunamente.
Posto fôsse tarde o somno teimava em fugir-lhe dos olhos e elle velou
até muito além de meia noite. Occupado, sem dúvida em adormecer
organisações menos sensiveis e existencias menos complicadas, o somno
fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas de manhã, Estacio
accordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quasi toda a familia
dormia. Estacio desceu; o unico escravo que achou levantado preparou-lhe
uma chicara de cafe. Não tendo ainda chegado os jornaes, bebeu-a sem a
leitura do costume.
Quem sabe o que é fortuito ou providencial, e por que fios tenues se
prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Estacio ouviu o som
longinquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a supposição deu-lhe
ideia de ir caçar. Elle não era um Nemrod na habilidade, mas era-o na
vocação. Foi buscar a espingarda, proveu-se de polvora e chumbo, e
sahiu.
Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuido naquella
manhã, ou por que a mão estivesse menos firme, ou por que a vista
andasse menos segura. Estacio caminhára longo tempo sem pensar no fim
que o levava; ia absorto,--alheio ao logar e ás cousas. Fez algumas
tentativas de caça; mas deixou de mão o recreio. Quando cançou de
errar, consultou o relogio e viu que não era cedo. Tinha o braço
cançado de suster a espingarda; só então reparou que uso trouxera cm
pagem consigo. Dispoz-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a
intenção de a dar a Helena, como seu primeiro presente de nupcias.
Depois desceu, em caminho para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, e os olhos no chão,
a passo lento, apezar de serem oito horas dadas. De uma vez que ergueu
os olhos viu um caso extranho que lhe fez deter o passo. Um pouco
abaixo, sahia de traz de uma casa velha, o pagem de Helena, conduzindo a
mola e a egua. Estacio não soube que pensar daquillo; mas, cedendo a um
impulso que não pôde dominar, deu um salto por cima de uma cêrca do
espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto não se demorou muito. Assomou á porta da frente a figura de
Helena. Depois de olhar cautellosamente para um e outro lado, sahiu e
montou na egua; o pagem cavalgou a mula e os dous desceram a trote.
Estacio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo apertava o
primeiro objecto que achou debaixo das mãos; era a cêrca de espinhos.
A dor fel-o voltar a si; tinha a mão ensanguentada. Ao longe cavalgavam
Helena e o pagem. Logo que os viu desaparecer, Estacio saltou de novo á
estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direcção á casa
d'onde vira sahir a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul, que Helena
comprimentá-la de longe, alguns mezes antes, e não esquecera de
reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos annos delle. Estas
circumstâncias, antes indifferentes, appareciam-lhe agora como outros
tantos artigos de um libello.
O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a
caliça das paredes e das columnas ia cahindo, e o esqueleto de tijolo
estava a nu em mais de um logar. Alguma herva mofina brotava a custo
juncto ás paredes, cobrindo com suas folhas descoloridas o chão
desegual e humido. Por baixo de uma das janellas havia um banco de pau,
gretado pelo tempo, com as bordas roliças do longo uso. Tudo alli
respirava penuria e senilidade.
--Não, dizia Estacio consigo, não é este o asylo de um Romeo de
contrabando. Mora aqui alguma familia pobre, que a caridade engenhosa de
Helena vem afagar de longe em longe.
A solução do enigma pareceu-lhe tão natural, que o moço resolveu
parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para traz. Mas a
suspeita é a tenia do espirito; não perece em quanto lhe resta a
cabeça. Estacio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquillo era,
e voltou sôbre seus passos. Para entrar alli era necessario um motivo
ou ura pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos.
Olhou para a mão ferida e ensanguentada, e foi bater á porta.