«Quando ésta carta te chegar ás mãos estarei morto, morto de
saudades de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os
meus livros, os meus habitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como
agora, que estou longe do que ha mais caro neste mundo. Poucos dias la
vão, e ja me parecem mezes. Que seria se a separação não fosse tão
limitada?
«Na carta que escrevo a ti tia dou conta de nossa viagem e da saúde de
todos. D. Clara está, na verdade, á beira da morte; mas pode durar
ainda alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os
ultimos adeuses. A recepção que nos fez a familia foi cordialissima.
Ha aqui uma cunhada da enfêrma, um primo, tres sobrinhos, outros
parentes e varios afilhados. O primo é commendador e tenente-coronel;
elle e os outros são a gente mais affavel do mundo. Os homens da
familia são influências eleitoraes; quando souberam da minha
candidatura, offereceram-me logo os seus serviços, com a clausula unica
de que haja prévia recommendação do Rio do Janeiro. Agradeci o favor,
com muita abundancia d'alma porque a tal candidatura, que não me
seduzia nem seduz, não ha remedio se não cuidar della, de modo que o
meu nome não padeça, a injúria da derrota. Que te parece ésta
pontasinha de vaidade?
«Mudemos de assumpto, que este me afflige, e não quero philosofar sem
ti, que es a minha companheira nestas vadiações de espirito. Ahi não
te lembrarás, talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De
manhã, dou o meu passeio equestre, como la; mas que differença! Quem
vae a meu lado é o tenente-coronel, excellente homem, coração de
pomba, com o defeito unico e enorme de se não chamar D. Helena do
Valle, a minha boa Helena, que la está na Côrte a divertir-se sem seu
irmão. Elle fala de tudo e muito: do cafe, do governo, das eleições,
dos escravos, dos impostos. Eu ouço-o, que é o menos que posso fazer,
e deixo-o ir sem interrupção. Ás vezes, como que desconfiado,
recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da conversa e elle encarrega-se de
desenrolar o novello. Tão pouca cousa o faz feliz! Já cacei uma vez;
confesso-te que é o que me pode distrahir um pouco. Pensava ter perdido
o costume; mas não perdi. A modestia impede-me dizer mais.
«A fazenda é vasta e a casa excellente. Não te direi que gósto da
vida agricola; não gósto, não me dou com ella. Mas viver num recanto
como este, a dous passos do mato, a tantas legoas da rua do Ouvidor,
isso creio que se dá com a minha indole. Consultaremos titia. Eu não
sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e
crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que tambem
para despota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta, sem
consultar tuas preferencias. Sou um Cromwell com tendencias de frade;
ou, por dizer tudo n'uma só palavra: sou um Lutero... muito inferior.
«Pobre Helena! Ja la vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos ó
que tens feito. Andas muito triste? passeas? lês? jogas? tocas? Conta-me
a tua vida o mais miudamente que puderes; conta-me a vida de todos. Não
me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla
do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a
hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a
minha gravidade, e responderei que ha uma puerilidade séria, e que os
extremos tocam-se. Quando assim não seja, a culpa é do ceu, que me
não deu uma irmã creança; agora é preciso que comecemos pela
primeira phase da vida.
«Deixei muito recommendado ao Mendonça que fôsse a nossa casa com
frequencia. Não sei se elle se terá lembrado e cumprido a promessa que
me fez. Se não tiver cumprido, has de mandar-lhe dizer que eu o detesto
e abomino, que elle é o maior traidor que o ceu cobre; que tudo fica
acabado entre mim e elle; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te
parecer e pelo modo que te é usual.
«Lembro-me de ti a proposito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o
terreiro offerecia ura aspecto bonito e caracteristico. Se ella
estivesse aqui, disse commigo, faria um magnifico desenho. Peguei de um
lapis que trouxe, meia folha de papel, e quiz reproduzir o panorama.
Escrevi um problema algebrico! Foi um conselho que me deu o lapis:
ninguem se metta a fazer aquillo que ignora. Eu ignorava o que era estar
ausente da familia; por que motivo me determinei a tental-o?
«Interrompi ésta carta para receber o Dr. Froes, que é o médico de D.
Clara; veiu ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é
perdido; que a morte é certa; mas que a vida póde prolongar-se ainda
por muitos dias. Ve que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses
ultimos dias da enfêrma pesam sôbre mim como se fôra o punho fechado
do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é
vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciencia do que se perde nem
do que se vae ganhar?
«Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mez. Sera o
que Deus quizer. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só
achei um _Manual de medicina prática_. Manda-me alguma cousa que me
faça lembrar Andarahy. Tira da estante oito ou dez volumes, á tua
escolha. Manda tambem algum trabalho de agulha teu; quero mostral-o á
cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes
desenhar alguma cousa, á pressa, o tanque, a varanda, ou qualquer outro
logar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me tudo
o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar
minhas saudades, que são immensas, immensas como este amor que tenho a
minha familia toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena;
adeus, minha vida, adeus, ó mais bella e doce de todas as irmãs!
«_P.S._ Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da
vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.»