Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty.
--Betty, disse eu fechando a porta do quarto, Betty, depressa, quero
dizer-te uma coisa. Não me digas que não...
--Santo Deus! Socegue, descance, minha querida menina! Jesus, como vem
pallida!
--Betty, é uma cousa irreparavel... devia ser. Foi pensada a sangue frio.
Vês como estou tranquilla, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução
digna. Betty, não me digas que não!...
--Mas, minha rica senhora...
--Não se podia voltar atraz. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão
feliz!
--Bem feliz, ao menos?
--Doidamente. E se não fosse assim, morria...
--Mas então...
--Fugimos ámanhã.
Ella estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que appareciam
lagrimas, e suffocada, com as mãos juntas:
--E eu?
Atirei-me aos seus braços:
--Pois havias de ficar, Betty? Tu vens comnosco, Betty.
E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo
as palmas, e gritando:
--Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja!
Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre,
triumphava: a minha vida apparecia-me, larga, cheia, explendida, coberta
de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciencias de
noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.
--Partes? perguntavam-me.
--Para França.
--Com a guerra?
--Não ha guerra. E havendo, não é interessante ver matar prussianos?
Á porta do _Sassetti_, encontrei Carlos Fradique.
--Sabe que parto ámanhã? disse-lhe eu.
--Sabe que parto hoje? respondeu-me. Ia lá, apertar-lhe a mão.
--Mas é inesperado isso! Vae para França? Para quê?
--Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver attitudes
de mortos muito curiosas.
--Mas vae debalde. Não ha guerra. É positivo. Por isso eu vou para Italia.
--Vae para Italia?... Mas, então... Ah! Vae para Italia? Minha pobre
amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou
feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um _trio_ com o meu
violoncello, sou seu, _adesso e sempre_.
Apertou-me a mão. Não sei porque, aquellas palavras deram-me uma sensação
triste.
Quiz ir ao Aterro. A tarde caía. A agua tinha uma immobilidade luminosa.
Do outro lado os montes estavam esbatidos n'um vapor azulado e suave.
Sobre o mar havia nuvens inflammadas, d'uma côr fulva, como no fundo d'uma
gloria. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz.
Sentia-me vagamente melancolica. O rio, aquellas casas triviaes, todos
aquelles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até ahi quasi
inexpressivos, appareciam-me pela ultima vez que os via, com uma feição
sympathica. Tive uma saudade piegas daquelles logares: quiz sorrir,
escarnecer; mas a verdade era que aquella paisagem, o pesado hotel
Central, o terraço de Braganza-hotel, a grosseira e escura rua do Arsenal,
todas essas cousas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo
instinctivo de tranquillidade, de familia, de situações pacificas, fazendo
destacar no fundo da minha vida, n'um relevo negro, a aventura que eu ia
intentar; e apparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que
se despedem, faziam-me pensar nas cousas irreparaveis, no exilio e na
morte!
A minha carruagem subia a passo a rua do Alecrim. As luzes accendiam-se. O
ceu estava ainda pallido.
Uma senhora passou, só, a pé, levando uma creança pela mão: era uma mulher
nova e distincta; parecia feliz. O pequenino, loiro, gordo, ria, palrava
n'aquella linguagem mysteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz
humana do _a b c_ do ceu.
Como seria bom ser assim uma mulher pacifica, com um equilíbrio suave no
coração, uma _toilette_ fresca, o amor das cousas justas, e um filho pela
mão! Se eu fosse assim seria alegre, amavel, passearia, daria _bonbons_ ao
meu pequerrucho, tral-o-hia vestido de côres leves, com uma flôr no cinto;
conversaria com elle, e á volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria
a tranquillidade da minha vida. Elle adormeceria sobre o sofá. A janella
estaria aberta. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro;
eu, ajoelhada, procuraria despil-o, sem o acordar, cantando, baixo, em
segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a penna do pae
rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraizos da vida! como
eu me affasto de vós!
Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam
fechadas, affiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande
pelle, apertada na sua correia. Tudo estava prompto, deviamos partir na
manhã seguinte. As minhas idéas simples debandaram.
Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de paizes extensos
e distantes, que se atravessam ao galope da _posta_ ou na velocidade d'um
_wagon_. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto atravez das
arvores do jardim. Sentei-me á janella.
A minha situação appareceu-me então com o prestigio de um bello romance.
Mil imaginações e phantasias cantavam no meu cerebro. Sentia-me á entrada
de uma vida de perigos, de extasis, de glorias. Via-me na tolda de um
paquete entre os perigos de um naufragio: ou n'uma serra espessa, por um
grande luar, n'uma companhia de contrabandistas que cantam á Virgem; ou no
silencio de uma caravana escoltada de _beduinos_, acampando no monte das
Oliveiras, defronte de Jerusalem. Percorreria a Italia; entraria nas
cidades ao galope dos cavallos, ao accender o gaz, quando a multidão enche
os _corsos_ entre fileiras de altivos palacios da Renascença. Via-me em
Napoles, na bahia, por um luar calmo: dormindo sob as vinhas em Ischia; ou
na frescura das grutas do Pausilippo, onde ainda choram as nayades... A
porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra
do _enveloppe_, não olhei sequer, mas sentia-a! Veiu luz. Era verdade, era
de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pul-a em cima da
pedra d'uma _console_, fui olhar-me ao espelho, vi-me pallida. No emtanto
a carta attrahia-me, parecia-me que luzia sobre o marmore branco. Tomei-a,
pesei-a, senti-lhe o aroma, e de vagar, cançada, suspirando, com os braços
vergados ao peso d'ella, fui-a lentamente abrindo.