O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen
tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia
porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação
dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do
dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se
fazia sentir pelos _ais_ soluçados que se lhe desprendiam do peito.
Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um
chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia
que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se
fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de
flôres.
Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul,
para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.
--Então? disse ella quando me viu.
--Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro
de quinze dias.
--Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não
me póde impedir isto: não m'o impeça, não?
--De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.
--E ella?
--Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro
_policeman_ que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher
me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a
amar.
--Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.
--É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou
n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da
paixão. De resto tem a grande qualidade:--a logica.
Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua
saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora
nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel _cavalliere serviente_. Vi-a
convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia.
Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente
magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a
imaginação doente.
Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu
intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na
penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos
seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão
ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me,
e dizia de repente, lembrando o convento:
--É triste! Aos vinte e oito annos!
Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças,
idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela
contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre
n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo
hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá
serenamente.
Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.
--É como irmã da caridade que o quero vêr!
Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela
desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa
sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de
joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando
longo tempo. Rytmel chorava tambem.
Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda
e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito
pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento
na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do _Baile de
mascaras_, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de
festa e de morte, de amor e de claustro.
Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com
o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:
--Perdôe-me, perdôe-me!
Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços,
disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um
encanto infinito beijou-a nos olhos.
A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e
pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino
encanto do perdão!
Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior
que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria
entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos
enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.
--Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.
E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto,
parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz
sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e
com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua
antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi
das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos,
e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os
dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.
Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus
vestidos, rendas e _toilettes_. Deu as suas joias a um padre inglez para
as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo
destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e
preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.
Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta
do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em
Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia.
Deixava-lhe tudo.
Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu
immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido,
forte, immenso, e d'uma poesia sensual.
Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas
tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.
Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já
aquillo o começo do claustro.
Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o,
disse:
--Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo
ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz.
Ámanhã... é possivel?
--Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as
montanhas de Valencia.
Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma
feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma
expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu
olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor
azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e
compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do
espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria
tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a
ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao
mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi
silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu
leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa
gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!