Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.
Eu murmurei simplesmente:
--Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.
A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu
o som da sua voz):
--Rytmel, voltemos para Malta.
--Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!
Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:
--Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham
a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde
retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me,
fugi vós para bem longe...
Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão
dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:
--Rytmel, voltemos para Malta.
Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu
então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer
algumas palavras ao capitão do _yacht_.
D'ahi a um instante corriamos sobre Malta.
Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão.
Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto,
sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.
--Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um
extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais
querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre!
Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora?
Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre
ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a
que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra!
Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.
A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.
E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:
--Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o
desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o
escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem--amo-te, vae-se fugir com elle,
está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso,
quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do
marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem--e
adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora,
arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz,
nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a
terra!...
--William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as
mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua,
só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens...
N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino!
Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.
A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido.
Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol
descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os _miradouros_.
Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para
nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou,
e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam
repicando.
X
Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu
passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa,
n'um triste estado de exaltação e de paixão.
Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente,
perguntou-me:
--Voltaram? como foi?
--Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.
--Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel
andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord
Grenley sabia. E agora?
--Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no
primeiro paquete.
--Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei,
mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação,
salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata.
E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar.
Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para
que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me
quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!...
Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor
febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a
sympathizar com ella...
A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella
tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na
visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive
quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu
espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma
situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da
paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana
é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no
theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam
as dragonas de ouro de Captain Rytmel!
Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações
tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com
mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de
opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava;
Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus
poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro
esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa
paz!
O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os
jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das
flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.
Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um _sophá_,
de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e
salpicando a gravidade britannica de _calembourgs_ bonapartistas.
Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de
libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um
prazer excentrico em cantar o _fado_ pela ruas de Malta, a mil legoas do
Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre
um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres.
Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena
chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas
d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz
alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar
estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na
sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se
seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente,
retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu
nome. Era Carmen.
--Que faz aqui? disse eu.
--Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha
apanhar o orvalho?
Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os
hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!
--Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa
_toillette_, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia
me vem contar d'orvalhos e de suor?
--Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra
encontrar alguem?...
--E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma
serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim...
Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava
uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim,
torcendo freneticamente uma luva descalçada.
Eu comprehendi que ella esperava _alguem_. Alguem, isto é, _el querido, el
precioso, el saleroso, el niño_ de toda a legitima andaluza. Affastei-me
discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada
que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura
plangente.
--É elle, pensei eu. É o _niño_. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os
orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a
vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de
tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.
Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida,
mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano,
desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi
Carmen. Estava só! Extrema surpreza!
--E _el querido?_ perguntei-lhe eu rindo.
Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:
--Qual _querido_?
--O que entrou agora?
--Não entrou ninguem.
--Eu vi.
--Conheceu?
--Não, onde está?
--Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos
seus quartos.
--Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os,
parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!
No emtanto, tinha a curiosidade excitada. _Alguem_ tinha entrado
mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu
tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse _alguem_?
Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor!
Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora
escura, o silencio, a chave falsa?
_Alguem_ teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por
arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.
Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um
criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno
punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no
_office_. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha
sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido,
mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.
Tudo isto me causava uma singular curiosidade.
--Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia
ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda
por ahi haja alguma _agua tufana_. Sejamos prudentes.
Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia
para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se
violentamente.
Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os
cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a
condessa.
--Que foi? bradei.
Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os
dentes trémulos.
Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e
perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:
--Que foi, minha querida, que foi?
Via-lhe os vestidos cheios de sangue.
--Feriram-n'a?
Ella fez um gesto negativo.
--Então? então? disse eu.
A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia
n'uma agonia.
De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.
--Fale, diga, insistia eu.
--Mataram-n'o, disse ella.
--Mataram quem?
--Rytmel.
--Como? Onde?
--No jardim... Vá!