I
Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa
aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***,
guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de
setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido
com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era
nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu.
Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal
trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações
improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim,
eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece
a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções
hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real,
implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde
dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar
pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e
de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas
considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a
minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e
os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade,
imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu
já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se
não fizer isto, denuncio-me á policia.»
Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar
do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com
aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em
Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma
casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores
murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu
não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia
das dores mais profundas d'um coração que estimo.
Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa,
aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde
ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a
casa do conde de W. A condessa era minha prima.
Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a
_graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando
estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de
ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se
estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade,
reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra
tirada ao coração do sol.
Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo.
Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e
havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho
sonho de se affogar n'aquelles olhos.
Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a
cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella
ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.
De resto, simples e espirituosa.
Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza
infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho.
Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor
indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella
doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos
gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por
fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos;
nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava
contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas
tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e
definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus
estados de espírito nervosos, ou melancolicos.
--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella.
Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o
marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era
estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha
amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o
seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram
excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:
--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem
grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel.
Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas
repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no
emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores,
mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_.
O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais
sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente
do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas
gravatas.
Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos
aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do
Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido
secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India
havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em
Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto
heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes
olhos arabes...
--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.
--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a
Malta. Venha tambem, primo.
--Está claro que vem! gritou o conde.
E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu
parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um
navio, e que me deixava seu herdeiro.
Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade,
queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de
caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos
faziam rir...
Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete
da India.
Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por
traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos
d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma
malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava
na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida,
os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude
e no rosto.
--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma
sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...
E mais baixo:
-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?
Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa
ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico
calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:
--Sabe que está linda!
--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está
doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo,
creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus,
foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi
ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro,
meu Deus! E eu que estou velha!
Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o
capitão approximou-se:
--Conhecem aquella luz?
--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi.
--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.
Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta.
D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha
ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu
coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para
sempre d'uma existencia.
Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe
dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas
infinitas da paixão?
Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma
praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava
ao som da canção do general Boum.
--Detesto os inglezes, disse a condessa.
--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os
inglezes?
E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:
--Detesta os inglezes, menino!