Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir
successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti
depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de
accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das
lanternas como se as estivessem endireitando.
Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante
fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.
Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos
servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se
tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a
accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos
stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por
esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre
predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre
as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem
impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua
illuminada.
Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas,
aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão
porque elle nos acompanhava, prosseguiu:
--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no
unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de
infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um
constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que
póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico.
Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a
outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor
de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente
esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe,
não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella
seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e
qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto
uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que
continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos
antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora
comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos
acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra
com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos
impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O
senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.
--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha
discrição.
--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não
pertence.
F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o
elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.
As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me
que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava
discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e
surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a
replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com
que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um
silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.
É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de
macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um
atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que
seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos
stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.
Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma
segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:
--Lá vou!
Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:
--Vão com raparigas para Lisboa.
O trem prosseguiu.
Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto
plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola?
Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?
Não posso dizel-o com certeza.
A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou
tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:
--Chegámos.
O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que
acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma
commoção:
--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso!
F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente
vendado pelo que estava em frente de mim.
Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos
nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo
por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que
era disse:
--Levo o trem?
A voz do que nos guiara respondeu:
--Leva.
Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á
chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:
--Vamos!
Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e
entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete
estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na
superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente
angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia
de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar
humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados.
Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos
ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.
Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de
lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma
especie de sobresalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que
foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.
--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite.
Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma
serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que
estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.
Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.
O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.