*VENTRE*--_Deus ex machina_ de todas as patifarias. Segundo o

_Diccionario de synonymos portuguezes_, de José da Fonseca, tem outros

significados que a decencia do meu livro não tolera. Aquelle

diccionario, destinado á mocidade, e approvado pelos nossos sabios,

attesta o que se deve esperar do ensino, dos que ensinam e dos que são

ensinados, n'esta classica terra da parvoice. É um acerbo de sandices,

proprias para crear sandeus.

*VENUS*--Pessoa de má nota, segundo a mythologia grega. Modernamente,

creada que aspira aos Martes da guarda municipal.

*VERDADE*--Origem de malquerenças.

--Cão perdido, que anda a fugir de todos com o rabo entre as pernas.

--Pessoa envergonhada diante de saltimbancos.

--Rede de apanhar inimigos.

*VERGONHA*--Vocabulo sem sentido.

*VERME*--Bicho que roe as costas das celebridades. Algumas pessoas lhe

chamam inveja.

*VERNIZ* (SOCIAL)--Untura com que se escondem os defeitos da madeira podre.

*VERSATILIDADE*--Flor cultivada no jardim das conveniencias.

*VERSO* (HARMONIOSO)--Preludio musical.

--(DURO, OU ERRADO) Chavelho retorcido.

*VESPA*--Emblema da critica: o ferrão sem o mel.

*VIAJANTE*--Almocreve de petas.

--Folha levada pelo vento da curiosidade.

*VICIO*--Racha na louça.

--Escola de aviltamento.

--No proximo é tudo quanto em nós são virtudes.

*VIDA*--Farça, comedia, drama ou tragedia, conforme a interpretação que

cada um dá ao seu papel.

*VIDRO*--Reputação de mulher, que qualquer cousa embacia ou quebra.

*VINAGRE*--Em vulgar, vinho de Collares, do que se vende em Lisboa.

--Em estylo campanudo, divorcio.

*VINHA*--Idéa mãe, d'onde nasce o pae da desordem.

*VINHO*--Poesia da pipa.

--Espirito que até aos materialistas dá alma quando lhes entra no corpo.

É livrar de que elle tome a palavra lá dentro, porque, se falla, vae

tudo com os diabos!

*VIRTUDE*--A violeta humana. Floresce na sombra.

--Substantivo feminino, pouco usado.

*VISITA* (DE CEREMONIA)--Estreia de botas novas.

--(DE PESSOA AMIGA) Sol em dia de inverno.

--(DE MEDICO) Ponto na mortalha.

--(DE PADRE) _Consummatum est!_

*VISUALIDADE*--Arte de virar a casaca diante do publico.

*VIUVA*--Passaro que chora... pela gaiola.

*VIUVEZ*--_De profundis_, que se canta quasi sempre com musica da aria:

«_Oh! querida liberdade!_»

*VIUVO*--Condemnado que obteve commutação de pena.

*VIVEIRO*--D'antes havia-os de plantas, aves, peixes, etc. A sociedade

moderna inventou os de patifes, que são muito mais faceis de aclimatar.

*VOLCÕES*--Bocas da mãe terra. Quando fallam de mais vae tudo por ares e

ventos.

--Corações de namoradas de annuncio e de theatros particulares.

Apagam-se com o casamento.

*VOTO*--Artigo de commercio eleitoral.

--(DE CONFIANÇA) Corda para enforcar quem o deu.

*****

W

*****

W

*WAGON*--Pessoa que tem muitos nomes e appellidos.

*WAGONETE*--Filho de sujeito que traz muitas condecorações. Outros lhe

chamam fidalgote.

*WALKYRIA*--Deusa da antiga mythologia scandinava, que designava nos

combates aquelles que deviam morrer. Dizem os satyricos que os

medicos representam perfeitamente de Walkyrias cada vez que receitam.

Calumniadores!

*WHIG*--Nome do partido que na Inglaterra se diz defensor da liberdade.

Ingrato Portugal! Deves-lhe tanto, e ainda não lhe deste todas as tuas

colonias! Deixa estar, sovina, que os liberaes _inglezes_ tomarão posse

d'ellas, sem que tu lh'as dês, para te ensinar como se administra bem.

*WICLEFISMO*--Doutrina do heresiarcha Wiclef. Não podia agradar ao

illustre _mendigo_ do Vaticano, porque lhe negava a supremacia sobre as

outras igrejas, e prégava a vida exemplar e a pobreza.

*****

X

*****

X

*XÁ, ou CHÁ*--Uma ladroeira e um envenenamento com que os chinas

retribuem a todas as nações do mundo o opio que só os inglezes lhes

impingem.

*XACA*--Anspeçada do exercito dos idolos do Japão.

*XACARA*--Deus nos livre das que se fazem hoje imitando as antigas!

Já sabem a minha opinião: a respeito de versos, nem mesmo á moda de

fallar minhôta, com _b_ e _c_ cedilhado. Prefiro-lhes o paio com

ervilhas, e até o chouriço com ovos.

*XAMATE*--Asneira que se acha em todos os diccionarios da lingua

portugueza, e que transcrevo sómente para demonstrar que é locução

viciosa. É este o primeiro diccionario serio que a restitue á verdadeira

pronuncia de XEQUE-MATE. _(Veja adiante.)_

*XAQUE*--Mais asneira pelas rasões já ditas. (_Veja_ XEQUE.)

*XAQUEMA*--Tecido de que se fazem cilhas ás bestas.--«Porque andarão

ainda tantas de suspensorios?--perguntaria José Agostinho de

Macedo.--Talvez pelo equivoco de trazerem as mãos no ar?»

*XAROPADA*--A maior suavidade da medicina. Apenas estraga o estomago.

*XAROPE*--Discurso do devedor que pede reforma de letra.

*XENOMANIA*--Gosto de estrangeirices, muito peculiar em varios

litteratos que não sabem a sua lingua.

*XEQUE*--Termo de xadrez, quando se annuncia ao parceiro que o rei

d'elle está ameaçado de perigo. Os diccionarios portuguezes trazem

_xaque_, palavra que nunca se pronuncia entre nós.

--Em todo o caso, prefiram os xeques dos bancos aos do xadrez, que eu

faço o mesmo.

*XEQUE-MATE*--Ultimo lance do jogo do xadrez, quando o rei vencido flca

prisioneiro. Nenhum dos diccionaristas portuguezes conheceu até

hoje aquelle jogo, aliás não escreveriam todos, com automatica

unanimidade, _xamate_, que ninguem diz, nem disse nunca, em vez de

_xeque-mate_.

--D. Miguel, em Evora Monte; Napoleão III, em Sédan; D. Carlos, na

Hespanha; todos levaram _xeque-mate_. A opposição portugueza deu xeque

aos ministros passados, que entregaram a partida, e está hoje

applaudindo outros jogadores. Vejam, mas não atrapalhem. Preparam-se

grandes lances, sobretudo se jogarem os bispos! Tomem sempre cautela com

os peões. Por se não contar com elles, perde-se muitas vezes o jogo.

*XIPHOIDE*--Nome scientifico da espinhela. Oh! caros leitores, se ella

vos cair alguma vez, procurae-a... n'este diccionario.

*XIRA*--Grande comezana á mesa do orçamento.

*XIS*--Segundo um sabio estrangeiro, residente em Portugal, _x_ vem de

_chin_, que o dito philologo escreve _xin_. Em questões de tão alta

sciencia metto a viola no sacco.

*XÓ*--Gritem todos, quando virem algum ladrador partir a correr, com

grande posta que lhe atiraram para o calar.

*XUPISTA*--Amador de capilé de cavallinho em ponto grande.

--Descobridor de pessoas raras, das que ainda caem.

*XYLOALOES*--Pau que dá o aloes, e que se poderia chamar, com

propriedade, _pau de Raspail_. Oh, meus amigos: o aloes é bom; mas não o

tomeis nunca sem caldo de hervas. Elle só por si faz cousas de todos os

diabos, desde a queimadela até aos rugidos medonhos das feras

intestinaes!

*XYLOLATRA*--Adorador de imagens de pau. Carissimas devotas de S. Luiz &

C.ª, bem fazeis vós, que não sois xylolatras, segundo rosnam falladores

atrevidos!

*XYLOPHORO*--Cada um dos ministros encarregado de accender e alimentar o

fogo sagrado... do amor da pasta.

*****

Y

*****

Y

*YPSILON*--Um timido que rarissimas vezes começa alguma cousa por si, e

que só apparece quasi sempre no meio da multidão.

--Ente inutil, e por isso o mais pobre de entre os vinte e cinco irmãos

que lhe deu a arte de escrever. Por mais que eu o apertasse e

espremesse, deitou apenas o magro chorume d'estes dois artigos. Bolas

para elle!

_Y mas no hay_.

*****

Z

*****

Z

*ZABUMBA.*--Estylo retumbante de certos discursadores.

--Os versos do senhor X.

--O elogio do senhor Y feito pelo senhor Z.

*ZAGAL*--Pessoa que falla á maneira dos heroes de Florian.

*ZANGÃO*--Ingenuo que faz livros com versos alheios.

*ZANGARREAR*--Fallar ou escrever contra nós.

*ZÃOZÃO*--Discurso laudativo.

*ZARCÃO*--Perfido auxiliador do tempo nas caras das bailarinas.

*ZAS!*--O que precisam os patifes que nos roem a pelle.

*ZELADOR*--Pessoa util... a si.

*ZIGUE-ZAGUE*--Maneira de ir mais depressa.

*ZOMBARIA*--Pulga do espirito.

*ZURRAR*--Tomar a palavra, sem a pedir primeiro.

*ZT*--Cousa que passa diante da nossa vista com a rapidez de um passaro.

E modo por que eu me despeço do leitor:

ZT!

NOTA FINAL

OU A

ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA

Amaveis leitoras e benevolos leitores:--O homem que acaba de dotar tão

generosamente a nação portugueza, e tambem a brazileira, com obra de

tamanho prestimo e valia, pede-vos que não a largueis da mão sem vos

terdes deliciado com estas linhas, que são remate e corôa do edificio

consagrado á vossa admiração e regosijo.

Congratulae-vos commigo, povos d'aquem e d'alem mar! O monumento está

concluido. Apesar das difficuldades da empreza, foi levado ao cabo

pela energia da vontade e pelo poder maravilhoso do genio, que o

levantou sobre alicerces de diamante. A fama vae tomar conta d'elle para

o tornar eternamente celebre; e os editores disputarão, de faca em

punho, a honra de o reimprimir cincoenta vezes por anno.

Oh! gloria! oh! loureiros e palmares... onde tendes rama que chegue para

tal triumpho?!

Jornalistas illustres, aparae as vossas pennas; academias e institutos

scientificos, abri as vossas portas; povos, que vos prezaes de

civilisados, saudae o Diccionario de João Fernandes!

--Viva João Fernandes!--Ouço eu já d'aqui gritar ás multidões

enthusiasmadas.

--Viva!

--Mas quem é João Fernandes?!

A esta perfida e insidiosa pergunta cala-se tudo; os sabios

entreolham-se de bôca aberta; e os outros suspendem a respiração,

receiando serem elles os predestinados. Por fim, responde uma voz:

--João Fernandes é um grande homem!

--Immenso!--apoia outra.

--Incommensuravel!--acode terceira.

--Sublime!

--Unico!

--Engraçadissimo!

--Sapientissimo!

--Immortalissimo!

--Foi elle quem mandou dar para baixo no povo, á porta do Passeio Publico.

--E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.

--E quem levantou a questão dos muros...

--E quem embirra com as grades...

--E quem diz...

--Bolas, meus amigos! bolas!--exclama o auctor do Diccionario.--Essas

obras são de outros Joões Fernandes; não confundam a minha com as dos

meus collegas. Todos somos de grande força; mas eu não trato as

cousas tanto em absoluto. É verdade que não deixei ir o Polyphemo com um

só olho, no artigo _orçamento_; que deixei escorregar a mão, ás vezes

sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e

a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos

seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que

fui assás sincero com as mulheres... Porém nada d'isso vos auctorisa

para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada João Fernandes

d'esta terra com os seus feitos. O meu é este. Vanglorio-me d'elle; e,

attendendo a que não convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima

palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se não

quizerdes fazer má figura passando por ignorantes em materia de gosto.

No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e

quebram-se á pedrada as vidraças de todos os livreiros que não teem

o _Diccionario_ á venda. O auctor, enternecido com essas demonstrações,

diz modestamente, começando a fazer a barba a si:

--Já vêem que não sou dos taes Joões Fernandes de tres ao vintem...

--Não--acodem os fanatisados;--é dos de pataco!

--Macanjo.--rosna um patife que não gostou do livro.

--Olhem esse maroto que está a dizer mal de mim!

--Quem foi?!

--Que é d'elle?!

--Calumniador!

--Invejoso!

--Vibora damnada!

E a multidão invade a casa do auctor, péga n'elle e passeia-o em

triumpho pela cidade, com meia cara rapada, e a outra meia com barba de

tres centimetros coberta de espuma de sabão. Este pormenor commove o

resto da população de Lisboa, que segue immediatamente o triumphador.

Ouve-se grande algazarra nas livrarias e vendem-se dez mil exemplares da

obra em dez minutos. Vendo este successo, o tal sujeito, que fallára em

macanjo, chega-se ao pé do auctor e diz-lhe, fulo de raiva:

--Eu chamo-me a critica... e vou fazer-te o resto da barba.

--Pois faze, mas compra o livro.

O povo, que percebe a cousa, salta por cima da critica, esborracha-a e

esgota o resto da edição--outros dez mil exemplares!

João Fernandes volta rico para casa, e grita de longe á familia:

--Dei-a em cheio! «Posteridade, és minha!»

E cae o panno.

FIM

ERRATAS

Necessário aplicar!!!!!!

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1878

Diccionario de João Fernandes Lições de lingua portugueza pelos processos novos ao alcance de todas as classes de Portugal e Brazil · 第 5 / 5 段