*MARIOLA*--Homem carregado de cousas feias.

*MAROMBA*--Distinctivo das maiorias parlamentares, no dizer dos que

lhes são adversos.

*MASCARADO*--Bacalhau sem sal.

--Desamparado de Deus, porque lhe falta a graça.

--Esplendor da semsaboria.

*MASSADOR*--Moinho de moer gente.

*MATERIAL*--Homem que trabalha mais de queixo do que de cabeça. Para

navegar precisa leme... á prôa.

*MEETING*--Vocabulo inglez, que, traduzido para portuguez, quer dizer

farça.

--Rede com que se pescam empregos.

*MEETINGUEIRO*--Cão que ladra á lua, e que se faz calar com pão ou com

pau.

*MEDICINA*--Monte pio do coveiro. Soccorre-o com defunctos.

*MEDICO*--Oh, céus! Como hei de eu ter animo de os beliscar,

lembrando-me de quanto elles me teem feito?! Ha trinta annos que lhes

caí nas unhas, e ainda estou vivo! Parece incrivel, porque tenho tido

muitos. Mas a verdade é que apenas me tiraram a pelle e me estragaram o

sangue e os ossos!

Queridos e piérios amigos, nenias de casaca, esfolladores amaveis,

permitti que eu, por minha vez, derrame sobre os vossos couros este

pingo de vinagre produzido no meu espirito pelas panelladas horrendas

com que estoiraes os pobres diabos da minha especie. E adeus, até ao

primeiro caustico.

*MEIOS*--A escola mais perfeita acha todos bons, quando ajudam a viver.

*MELODIA*--O tenir do oiro com que nos pagam uma divida julgada perdida.

É como se ouvissemos a alma de Bellini cantar-nos a _Norma_.

*MENTIRA*--Nossa Senhora da Actualidade.

*MERCURIO*--Filho dilecto da medicina.

--Idéa mãe das doenças de pelle.

--Creador de padecimentos que fazem damnar os medicos... que os teem.

*MERITO*--Qualidade de que quasi sempre dizem mal os que não a teem.

*METAMORPHOSE*--Evolução politica, por meio da qual uma borboleta se

torna em lagarta que roe todos os ministerios.

*METHODOS*--Especie de muletas, que seus auctores gabam muito,

apesar de cairem frequentemente com ellas, e acabarem de quebrar as pernas.

*METRALHADORAS*--Ultima palavra, até agora, do direito moderno.

*MÉZINHA*--A consolação dada ao ministro que perdeu o poder, com as

palavras do chavão--«Serviu muito a meu contento»--e com a conservação

das honras.

*MILAGRE*--Viver de empregados publicos, com ordenados de 600$000 réis

para baixo.

--Agua de Lourdes.

*MINEIRO*--Homem com vocação de minhoca.

*MINHOCA*--Sugador modesto.

*MINISTERIO*--Capitolio, Rocha Tarpeia, Calvario, Pelourinho, Olympo, ou

simples tribuneca. É conforme a qualidade dos, que o compõem.

--Zodiaco constitucional.

*MINISTRO*--Jupiter em exercicio.

--Homem que muda de amigos.

--Artista que despreza o publico que mais o applaude.

*MINORIA*--_Vox clamantis in deserto._

--A virtude opprimida e a sciencia menosprezada, na opinião dos que a

compõem.

*MISERICORDIA*--Virtude sublime de mais para homens politicos. Não ha

exemplo de a terem tido com os adversarios.

*MISSÃO* (RELIGIOSA)--Loteria em que se jogava a pelle contra almas de

sujeitos que adoravam a carne dos missionarios.

*MOCHO*--Apagador parlamentar.

*MODA*--Unica paixão séria da mulher.

*MODESTIA*--Qualidade distincta, que, em geral, só se vê nos que não

teem motivo de a manifestar.

--Qualidade negativa para se triumphar.

*MODESTO*--O mais temivel dos orgulhosos, no conceito dos que o não imitam.

*MODISTA*--A pythonissa moderna.

*MOEDA*--Sangue dos estados.

*MOEDEIRO* (FALSO)--Viajante que se esqueceu do proverbio «Nunca deixes

caminho por atalho», e é por isso punido pelos jurados, naturaes

zeladores de proloquios.

--Perito que duvída de si, e faz experiencias para ver se o

trabalho da casa da moeda é igual ao seu.

--Pessoa que explora o meio de chegar depressa... á Costa de Africa.

--Algebrista que resolve o problema de fazer cinco mil réis com dois mil

e quinhentos.

--Curioso que procura a grilheta com o buril.

*MONOPOLIO*--Menino bonito que todos os governos respeitam, mais ou menos.

*MONUMENTO*--Um aleijão.

*MORATORIA*--Anemia commercial.

*MORDACIDADE*--Zurrapa litteraria.

*MORIBUNDO*--Luz que bruxuleia com o vento do outro mundo.

*MORTE*--Uma caricatura.

--Fim da representação.

*MULHER*--Quando ama, sereia; quando tem ciumes, gata assanhada; quando

cessa de amar, vinagreira.

--Instrumento impossivel de afinar.

*MULHERENGO* (HOMEM)--Cão fraldiqueiro.

*MUNICIPAL* (SOLDADO)--Achilles dos Briseis de Lisboa. Policía e

moralisa a cidade por meio das creadas.

*MUNIFICENCIA*--Patacoada de certos soberanos, que davam terras... a

quem as conquistava aos infieis.

*MYSTERIO*--_Cherchez la femme._

*MYSTERIOS*--Cabellos muito pretos e dentes muito brancos. Convem

desconfiar de tudo, passados os trinta annos. As illusões deixaram de

ser exclusivo da mocidade.

*****

N

*****

N

*NABABO*--É a posição que mais me sorri, com dez mil elephantes,

carregados de oiro. Se eu a apanhasse, veriam o que era ter graça para

fazer diccionarios!

*NAÇÃO*--Não se conhece nenhuma tão feliz como a nossa. Acorda um

momento para se gabar da sua historia gloriosa, e logo torna a

adormecer! Deus te abençoe, mãe de heroes... passados!

*NACAR*--Oh, menina, se ao menos eu tivesse as perolas! deitava as

conchas fóra.

*NACIONALISAR*--Em linguagem de varios litteratos, é abastardar peças

francezas com portuguez mascavado.

*NADAR*--É bom saber, mas convem mais não precisar d'isso. Por mim,

preferia nadar em dinheiro. E tu, leitor?

*NAMORADA* (RICA)--Prodigio de belleza, ainda que seja feia como o

grande diabo.

--(POBRE) Carapau, do que se dá aos gatos.

*NAMORADEIRA*--Especie de mosca. Tanto pousa na flor como no estrume.

*NAMORAR*--Fazer de urso.

*NAMORO*--Primeira expressão da parvoice humana, assim como o casamento

é a ultima, segundo affirmam os descontentes.

*NARCOTICO*--Um livro do senhor V.

*NAVALHA*--Lyra dos poetas do fado.

*NAVIO*--Viajante, a quem as viagens estragam e não illustram.

*NAYADES*--Em Lisboa são fingidas por aguadeiros.

*NUDEZ*--Uso economico e primitivo, ao qual a policia declarou guerra,

para proteger os alfaiates e as modistas.

*NULLIDADE*--Genero que sempre tem saida, apesar da sua abundancia.

--Varão conspicuo.

--Nunca se deprecia, porque serve de marca nas contradanças politicas.

*****

O

*****

O

*OBRAS* (DE CASAS)--Pinhal da Azambuja, no conceito dos proprietarios.

*OBRIGADO*--Ah! tu infliges-me a humiliação de um serviço! Pois deixa

estar, patife, que m'o has de pagar!

*OCIO*--Deleite que os pobres compram caro.

--O antipoda do trabalho.

*OCIOSO*--Membro da liquidação social, quando não tem duzentos contos de

renda.

*OLEIRO*--Escaravelho aperfeiçoado.

*OLHOS*--Interpretes que tornam diabolicamente verdadeiro o proverbio

italiano: _Traduttore, traditore._

--Portas da traição.

*OPINIÃO*--Julga-se que fosse uma especie de ventoinha, que o vento

levou ha muitos annos. Passa-se bem sem ella.

*OPPOSIÇÃO*--Moinho de moer senso commum, no conceito dos ministeriaes.

*ORAÇÃO*--Traço de união entre a creatura e o creador.

*ORÇAMENTO*--Mysterio.

--_Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum._ O que

traduzido em vulgar quer dizer: «Polyphemo, a quem varios Ullysses teem

tirado os olhos da cara, substituindo-lh'os por uma trapalhada».

*ORGULHO*--Paixão digna de quem não póde ter outras.

--A lombriga dos immortaes.

*ORTHOGRAPHIA* (PORTUGUEZA)--Reminiscencia da torre de Babel.

*OSTRA*--Pessoa que não se mostra por dentro senão quando acha maré.

*****

P

*****

P

*PÁ*--Instrumento que estava a calhar nas costas dos amigos da união

iberica, se ainda houvesse Brites de Almeida. Infelizmente as padeiras

de hoje, incluindo as de Aljubarrota, preferem a pá de vitella, desossada.

*PAÇAL* ou *PASSAL*--O ultimo osso nacional que se está roendo.

Desperdiçaram a farinha e comem agora o farélo!

*PACHORRA*--_Alma mater_ da minha terra. Faz gosto ver como ella engorda

a estudar todas as questões!

*PACIENCIA*--Virtude que ninguem se esquece de aconselhar áquelles a

quem pisa os callos.

*PACIENTE*--Um, que se sentiu incommodado, momentos antes de ir para o

patibulo, exclamou, ao ver entrar no seu carcere um homem vestido de preto:

--«Não é preciso; não é preciso! Prefiro que me enforquem já.»

--«Sou o executor da lei...»--respondeu como desculpando-se o carrasco.

--«Ah!--tornou o padecente muito consolado--Cuidei que era um medico!»

*PADRE*--Bilheteiro do céu. Escusam de o procurar sem dinheiro, que elle

não abre a porta.

*PADROADO*--Direito que podia ser uma das glorias portuguezas no

oriente, e é uma das nossas vergonhas.

*PAES* (DA PATRIA)--Parricidas e anthropophagos inconscientes. Matam e

comem a mãe aos pedaços.

*PAGINA*--Desculpem, se lhes impinjo esta!

*PAIO*--Ideal dos que amam... os do Alemtejo.

*PAIXÃO*--Bebedeira do sangue.

*PALAVRA*--A faca do pensamento.

*PALAVRIADO*--Flores do charlatanismo.

*PALCO*--Parodia do paraizo de Mafoma: tem as houris pintadas.

*PALHA*--Artigo que devia ter muito maior consumo, attendendo ao grande

numero dos que precisam d'ella.

*PALHADA*--Litteratura contemporanea, exceptuado o meu diccionario.

*PALPITANTE*--Coração de mulher, quando joga a primeira carta na banca

do matrimonio.

*PANACEA*--A minha idéa de governo. A dos meus adversarios dá cabo do

paiz em vez de o curar.

*PANDIGA*--Termo chulo, que tem dado em pantana com muita gente séria.

*PANTANA*--Paiz para onde se vae pelo caminho da pandiga.

*PAPAGAIO*--Deputado da maioria, no dizer dos seus inimigos. Alguns

nunca aprendem a fallar bem.

*PAPÃO*--O _deficit_ do orçamento do estado em Portugal.

*PARAIZO*--Logar onde não ha livros, nem jornaes, nem prodigios de

talento de nenhuma especie.

*PARASITA*--Verme intestinal das pessoas, generosas.

--Orchidéa que vive nas mesas ricas.

--Collega do piolho.

*PARASITISMO*--Doença que devora ministerios.

*PARENTES*--Inimigos dados pela natureza.

*PARLAMENTO*--Boceta de Pandora.

--Casa onde não ha pão, todos ralham ninguem tem rasão.

--Casa onde todos querem entrar, e de onde poucos sabem sair.

*PARLAPATICE*--Mana da patacuada.

*PARTIDO* (POLITICO)--Quando opposição, grupo de seis homens e um cabo.

Quando governo, exercito numeroso.

*PARVALHEIRA*--Região occidental da peninsula hispanica, onde os parvos

grelam e florescem como os nabos.

*PARVOICE*--Uma divindade muito estimada.

*PASQUIM*--Bofetada escripta.

*PASSADO*--Abysmo sem fundo, para onde olhamos sempre.

*PASTA*--Alma dos ministros... e do boticario Régnauld. A do ultimo é

comtudo, menos peitoral, apesar de ser mais balsamica.

*PASTEL*--Visita querida para estomagos gulosos.

*PASTELLEIRO*--Concorrente de certos politicos, sobretudo se abusa do

mesmo molho para tudo.

*PASTOR*--Lobo disfarçado.

*PASTORA*--Já não ha. Florian deu cabo d'ellas.

*PATEADA*--Avesso de um bom panno. O direito são as palmas do applauso.

*PATIFE*--Homem de bem que se descuida.

*PATINHAR*--Cousa novamente introduzida, na qual a gente se diverte

fazendo de urso e quebrando as pernas. É uma especie de natação, á

maneira de pato, nos lagos, digo, nos salões dos theatros.

*PATRIOTA*--Homem que quer mamar.

*PATRIOTISMO*--Faro de emprego graúdo.

--Bordão a que se encosta a barriga.

*PATRONATO*--Cousa que eu nunca apanhei, mas que me consta ser muito

boa, e por isso a recommendo.

*PAULADA*--Prazer dos deuses... que a dão.

*PAVÃO*--Especie de passaro, depennado pelo senso commum, que não serve

senão para dar gloria... aos alfaiates.

*PAZ*--Somnolencia da diplomacia.

*PÉ*--Hemistichio humano.

*PÊA* (PARA SELVAGENS)--Presilhas, gravata, botas e suspensorios.

--(PARA CIVILISADOS) Respeitar-se a si e aos outros. A liberdade (como

hoje a entendem) vae dando cabo d'esta ultima.

*PEÃO*--Os pequenos jogam com os de pau, os grandes com, os de carne e

osso. O segundo methodo é mais bonito, salvo para os que apanham.

*PECHINCHA*--Uma boa moça com trezentos contos de réis. Não se ponham

com escrupulos, que ha muito quem queira.

*PEÇONHENTO*--Sapo litterario. Arrasta-se pelos escriptorios dos

jornaes, e como não póde subir, lança a baba para o ar com o intuito de

salpicar tudo que está acima d'elle.

*PECULATO*--Descuido dos que mettem na sua algibeira o dinheiro do

estado. Em certo paiz que eu sei, ha muitas propriedades, que bem podiam

chamar-se, à romana, _peculatorius_.

*PEDIR*--Systema de escurraçar amigos.

*PEITA*--Uma cousa que acabou desde que todos queriam antes ser peitados

do que peitar.

*PEIXEIRO*--Repuxo de palavradas.

*PELLE*--Campo que quanto mais se cobre de flores mais repugnante

parece. Nascem n'elle as bexigas, o sarampo e a escarlatina, sem fallar

nas dez mil variedades de herpes, desde a sarna e o dartro até o cancro

e a lepra. Felizes d'aquelles a quem tiram a pelle!

*PELOURINHO*--Diminutivo de pelouro. Os vereadores podem estar n'um e

n'outro, conforme seus merecimentos.

*PENEIRA*--Em phrase popular são os vidros dos oculos com que vemos o

proximo quando o escovâmos. (_Veja o artigo:_ MÁ LINGUA.)

*PENHOR*--Garantia que por vezes se exige aos roubados no acto da

expoliação.

*PENITENCIARIA*--Renascimento da inquisição e da Bastilha, que zomba das

revoluções e progressos do espirito humano.

*PENNA*--O buril que mais profundamente grava a idéa no coração dos

seculos.

--Stylete, cuja ponta é mais rija que o diamante.

--Arma que honra o homem quando elle a emprega em defeza dos opprimidos;

e que o deshonra quando serve a injustiça e a tyrannia.

*PENSAMENTO*--... O maior bem que Deus nos fez foi dar-nol-o de modo que

ninguem o possa ver. Do contrario, comiamos-nos vivos uns aos outros.

*PENSAR*--Viver, asnear.

*PENSIONARIOS*--Vermes intestinaes.

*PEQUENO*--Homem que se julga muito grande.

*PEQUICE*--Signal por onde os deuses que nós fazemos revelam a sua

origem mortal.

*PERDÃO*--Applauso que pede _bis_ aos patifes.

*PERDER* (A CABEÇA)--É gallicismo duplamente censuravel, porque, na

maioria dos casos, as pessoas que o empregam já não teem pés nem cabeça.

*PERDULARIO*--Cavallo que deita a maior parte da palha fóra da manjadoura.

*PÉRFIDO*--Rato que roe o queijo da amisade.

*PERNA*--Silencio!... Não profanemos os mysterios do algodão em rama.

*PERNAS*--Eu prefiro as do porco.

*PERRARIA* (PERRICE)--Um prazer feminino.

*PERSEVEJO*--O calumniador: morde e esconde-se, apenas sente que o

procuram. É o mais covarde dos insectos nojentos.

--Companheiro de cama que nos roe a pelle.

*PERU*--Sujeito que attrahe peruas, das que trata o artigo immediato.

*PERUA*--Phantasia da linguistica popular, de sentido obscuro. Muitas

pessoas respeitaveis a teem tomado, no intuito de ver se decifram o

enigma, porém adormecem antes de tel-o adivinhado.

*PESCADA*--Uma filha de Amphytrite, que eu amo, cozida, com azeite e

vinagre, e até frita, com salada.

--A rosa do mar.

*PESCADINHA*--Imitadora das creanças que chucham no dedo, quando os

cozinheiros lhe mettem o rabo na bôca. Peço perdão aos srs. grammaticos

d'esta amphibologia. Não é ás creanças que o cozinheiro mette o rabo na

bôca, é ás pescadinhas. O diacho da grammatica está a mangar commigo!

Entenda-se que é o rabo das ditas pescadinhas que elle mette na sua bôca

d'ellas, e não outro rabo qualquer.

*PESTE*--A doutrina dos nossos adversarios.

*PETROLEO*--Intelligencia dos candeeiros.

*PHAROL*--Amigo que nos adverte.

--Olho das praias.

*PHENOMENO*--Ha de mostrar-se no dia em que um amigo me der cincoenta

contos de réis.

*PHILANTHROPO*--Aquelle que não te desanca nem te rouba.

*PHILOSOPHIA*--Sciencia de confundir tudo.

--Arte de não crer em cousa nenhuma.

*PHOTOGRAPHIA*--Calamidade que propaga as caras feias.

*PIANO*--Maravilha do engenho, antes de vulgarisado. Agora, machina

infernal de machucar paciencias e ouvidos. Oh! jovens prodigios, que os

papás e as mamãs, repletas de parvoice e de jubilo odioso, impingem

ás visitas infelizes, eu vos arrenego!

*PIMENTA*--Artigo que, se não fosse a minha modestia, eu affirmaria

existir n'este diccionario em grande abundancia e para fazer arder todos

os paladares.

*PINOTE*--Expansão por mimica.

*PINTAR-SE*--Arte de não verificar as datas.

*PINTURA*--Depois que se usa a da cara e a dos cabellos, já ninguem

presta attenção ás outras.

--Arte de engraixar cabeças.

*PIPA* (DE VINHO)--Gaiola do jubilo.

*PIRATA*--Caçador de noivas ricas.

*PITEIRA*--Planta-se nos vallados, e deita gente nas vallas[5].

*PLASTICA*--A arte de modelar... com pasta de algodão.

*PLEBEU*--Cidadão que tem noventa probabilidades por cento para subir,

emquanto que o nobre tem o mesmo numero d'ellas para descer.

*POBRE*--Bedelho de cães e gatos.

*POÇO*--Furo por onde quasi sempre sae o dinheiro e não entra agua.

*POEMA*--Caldeirada de versos. Eu prefiro as de enguia.

*POESIA*--É como cada um a sente e entende. Para uns resume-se n'um

bom pichel de vinho novo, diante de um lombo assado; para outros é a lua

reflectindo-se nas aguas serenas dos lagos; para a mãe, o riso do

filhinho no berço; para o pae, o não ouvir chorar a creança quando quer

trabalhar; para o soldado, não ter de ir á guerra; para o empregado, um

feriado; para a donzella, um noivo; para o agiota, noventa e nove por

cento; para o ministro, a pasta indisputada e os applausos da maioria;

para o marinheiro, o bom vento; para o medico, um caso de doença bem

horrivel e bem desconhecida; para o fumador, optimos charutos; para o

viajante, mundos desconhecidos; para a mulher, um vestido como não tenha

nenhuma das suas amigas; para o marido, uma familia que não lhe peça

dinheiro; para o janota, objectos que pôr no prego e botequim que fie

_cognac_; para as actrizes, palmas e admiradores ricos; para os

escrevinhadores, quem lisonjeie as suas inepcias e semsaborias;

para os maus auctores, quem lhes louve a estupidez e a ignorancia; para

os emprezarios, auctores famintos; para os inuteis, um fato bem feito...

para mim a poesia é o silencio, a solidão e o somno.

*POETA*--Simplorio.

--Esculptor que desenha no ar.

--Pyrilampo que segrega pieguices luminosas.

--Ente que se diz incomprehendido, e que o é realmente quando pretende

conquistar o mundo em verso. Desgraçado! Se queres que te entendam,

falla na boa e classica prosa do peru trufado e do vinho da Madeira, que

tu não detestas... nem eu.

*POLEIRO*--Pomo de discordia. E cada vez ha mais gallos!

*POLICIA* (DE LISBOA)--Um mytho.

*POLIDEZ*--Fazenda de bonita apparencia.

*POLITICA*--Machina de moer consciencias.

--Bailarina pervertida pelas contradicções e caprichos dos compositores

de dansa.

*PONTO*--Nó dado na barriga dos empregados, quando se suspendem os

pagamentos.

*PONTUAÇÃO*--Os alfinetes de pregar a palavra escripta.

*PORCO*--Sonho das mulheres pallidas e nervosas.

--Um curso de philosophia ambulante. Meditem e digam se não é verdade.

Comido pelos que mais o amam! Em quem se ha de fiar a pobre gente

suina?!

*PORTEIRO* (DE SECRETARIA)--Cerbero ministerial.

*PORTUGUEZ*--Lingua que todos fallam e ninguem sabe.

*POSSIDONIO*--Cousa feia, parvoíce.

*POSTIÇO*--Oh, minhas senhoras... mil perdões! É o meu triste officio de

escriptor quem me obriga, sem eu querer, contra todos os meus

sentimentos e desejos, a traçar aqui estas linhas, que até fazem córar o

lapis de oiro com que as escrevo! Acaso vv. exas. já reflectiram bem na

situação em que se collocam, quando entram n'uma casa de modas e pedem

(a um homem, santo Deus! E ás vezes a que homem!) certo objecto, que ali

se vê ostentosamente pendurado nas armações pelas fitas com que ha de

ser preso ás cinturas de vv. exas.?! Essa cousa, cujo aspecto me faz

baixar os olhos, e me dá ao rosto a côr de lagosta cozida,

chamava-se um... francez. A casta linguagem da elegancia dá-lhe hoje o

nome de _tournure_. Mas nem por isso o traste deixa de ser para vv.

exas. porem sobre os quadris, com o fim de fingirem (oh! moda!) que

teem um... muito grande. Mas, minhas senhoras, para que serve a vv.

exas. um... muito grande, que (de mais a mais!) é postiço?! O impudor

(desculpem a dureza da phrase) o impudor não está no tamanho artificial

do trazeiro. A natureza poderia, sem sacrificio, ter-lhes feito a

vontade, dotando-as com um... verdadeiro, de mais vastas proporções

ainda do que o fingido. Onde o caso se me afigura espinhoso para as

pessoas medianamente graves, é quando o caixeiro (no uso pleno dos seus

direitos de fazer valer a mercadoria) se permitte a familiaridade de

passar complacentemente a mão sobre a rotondidade do objecto, e medindo

com a vista o posterior de vv. exas., lhes diz sorrindo:

--«Este deve ficar-lhe bem!»

A primeira vez que presenceei uma scena d'estas caí para traz, sobre uma

cadeira, fulminado de vergonha, pelas palavras do vendedor. Na minha

candida ingenuidade pensei que a compradora do traste em questão ia

esmagar o homem com um d'esses olhares olympicos, que as grandes

actrizes usam uma vez na vida, quando representam de Lucrecias, em noite

de beneficio. Mas a senhora volveu, visivelmente lisonjeada, e rindo

tambem:

--«Acha?...»

Era uma pessoa de alta sociedade, como se diz em calão aristocratico,

mãe de familia, e trajada como uma rainha. Comprou o sobresalente, que,

depois de embrulhado, um lacaio levou para a carruagem, e despediu-se,

com uma cortezia e um riso amavel do logista e dos seus empregados.

Abysmado por tamanho rebaixamento moral, fiquei com ar de ingenuo de

theatro particular, ruminando commigo os seguintes pontos, que

respeitosamente submetto á critica de vv. exas.:

--Se uma senhora, mãe de familia, se preoccupa com artificios e modas

ridiculas, enchumaçando-se, pintando-se, contrafazendo-se, e mentindo a

si e aos outros, persuadida de que alguem acredita na côr dos seus

cabellos e na altura dos seus seios e trazeiro, n'um tempo em que raros

são os que se não pintam e enchumaçam, que educação dará a seus filhos

com esses exemplos?! Começa desde o berço a leval-os por um caminho, do

qual nunca mais poderão sair--o da impostura; costuma-os ao fingimento,

porque lhes serve de modelo do modo mais funesto e contagioso. E quando

elles chegarem á idade de pensar, será sua propria mãe a primeira pessoa

a quem percam o respeito, que ella não soube arreigar-lhes n'alma com um

procedimento sério, modesto, franco e simples. Em vez de boas e sãs

lições de religião, de moral, de probidade e honra, deu-lhes noções

falsas de tudo, conhecimentos superficiaes e idéas incompletas;

enchumaçou-lhes a rasão com crenças postiças, envernizou-os com uma

educação viciosa e lançou-os na circulação, pervertidos antes de tempo,

como moveis novos feitos de madeira já carunchosa. São estes productos

que compõem a maioria da sociedade actual, em todas as nações que se

dizem cultas. D'elles saem os professores, os medicos, os padres, os

juizes, os deputados e os ministros!...

Minhas senhoras, rogo a v. exas. que se dignem reflectir um instante

n'este problema:--Que póde esperar-se para o progresso e aperfeiçoamento

da especie humana, de homens que vêem suas mães a comprar...

francezes?--O que póde sair de um trazeiro postiço, a não ser o rabo

(cauda) de seis metros, que principia a substituil-o?

Se vv. exas. entenderem que vale a pena, meditem um pouco este

assumpto, sem se prenderem com a circumstancia de ter sido o meu

diccionario, e não qualquer outra moda que chamou para elle a sua attenção.

*POSTURA*--Devaneio municipal para recreio dos policias.

*POVO*--Pau para toda a obra. Se, como o boi, elle não desconhecesse a

sua força, outro gallo lhe cantaria. Em todo o caso, tomem cuidado não

lhes caia em cima, porque pesa muito.

*PRATICO* (HOMEM)--Não se fiem n'elle. D'antes pediam-se homens praticos

a proposito de tudo. Agora já todos se julgam experimentados, e não

fazem senão dar com as cangalhas em terra. Cautela! Sobretudo com mau

tempo duvidem da sua sciencia. Eu, em me cheirando a especialista, pés

para que te quero! Se teem amor á pelle, façam outro tanto.

*PRÉGADOR* (MAU)--Machina de moer senso commum.

*PRESENTE*--Indifferença de que ámanhã teremos remorsos e saudades.

--Cousa que se dava antigamente. Hoje é apenas tempo dos verbos.

Diccionario de João Fernandes Lições de lingua portugueza pelos processos novos ao alcance de todas as classes de Portugal e Brazil · 第 3 / 5 段