Título do pomar

«Tem um pomar contíguo às casas e jardim, que lhe ficam para a parte do

levante, todo plantado de infinitas laranjeiras em ordem, limoeiros e

cidreiras fora todo o mais género de frutas, muito espessas e plantadas

em ordem e fileiras, o qual está todo cercado ao redor de um muro mais de

doze palmos em alto e pela parte de dentro com suas ruas de azulejo, que

abaixo se declaram. Tem do nascente, ou jardim, atrás declarado, até ao

tanque de água por uma rua cercada de azulejos e alegretes e ladrilhada

de largura de mais de três varas, oitenta e quatro varas e neste canto,

que o dito pomar faz para o poente, está um tanque de água, ladrilhado

por baixo, que cobre um homem, cercado de pedraria e de azulejos, feito

em forma quadrada; tem vinte e nove varas de canto a canto e fazem em

circuito cento e dezasseis, do qual se rega todo o pomar atrás declarado

com água do rio de S. Simão, de que lhe pertence toda a dita água quatro

dias naturais e três horas cada nove dias.

Tem o dito tanque, na cabeceira pela parte do sul, cinco casas de

prazer armadas com colunas de jaspe e forradas todas de azulejo e os

tetos pintados em estuque com várias histórias e figuras, e ao lado das

ditas casas de prazer, para a parte do nascente, tem um jardim com seus

alegretes na distância e largura das mesmas casas.

E a água que cai para o dito tanque, cai pela boca de uma baleia

artificiosa com um Tritão em cima, que formoseia muito o dito tanque e

casas de prazer, e com figuras várias em nichos, feitos de pedraria pelas

paredes do dito tanque.

Tem mais o dito pomar pela parte do poente, começando do sul e norte,

outra rua, que vai do dito tanque, da mesma largura e feitio com seus

azulejos e alegretes e pela parede seus nichos com várias figuras, que

tem cento e dezasseis varas, e no remate do canto de baixo, da banda do

norte, tem uma casa quadrada com quatro janelas, em que estão pintadas

sobre estuque[45] as histórias da Índia, com as quatro cidades principais

conquistadas pelo grande Afonso de Albuquerque, pai natural de Afonso de

Albuquerque, instituidor deste morgado.

Tem esta rua, da parte do poente, uma porta, que sai para a igreja e

freguesia de S. Simão, pouca distância de portal a portal, da qual igreja

é costume sair a procissão da Ressurreição de Cristo Nosso Salvador e

correr as ruas do dito pomar e tornar-se a recolher pela mesma porta à

mesma igreja.

Tem o dito pomar do dito canto da _Casa da Índia_, atrás declarada, de

poente a nascente, pela banda do norte, cento e trinta e sete varas,

que também servem para medição da vinha abaixo declarada, que confina

com o dito pomar pela banda do norte e do canto, que o muro faz para a

banda do nascente até ao jardim, donde esta demarcação e medição começa,

subindo de norte a sul, tem cento e seis varas, ficando no meio a ponta

que as casas fazem para o parte do poente, que se metem entre o jardim e

o pomar. Pela parte donde a dita demarcação dele começou, em o dito canto

de baixo, está uma casa, que se chama _das Pombas_, com um bufete de

jaspe ao meio. E da dita casa, na largura dela, que corre de norte a sul,

como se diz atrás, até às ditas casas principais, vai uma rua de ladrilho

com seus alegretes de azulejo na forma das outras ruas atrás declaradas.»

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 33 / 84 题