XVIII

O palácio e demais construções da Bacalhôa, repito, formam um monumento

de alta significação para a história das artes em Portugal. Delimita dois

períodos distintos, a arquitetura medieval e o estilo da Renascença.

O género arquitetural que se criou no paíz em nada ali ainda influiu. Se

a torre cilíndrica recorda um passado que lhe toca, vêm os acessórios dar

a mão ao renascimento que aparece. Nas lógias testemunha a influência

do género florentino, em tudo o mais diz-nos que as primeiras lições

de classicismo nos vieram da Itália. A proscrição da ógiva lança-nos

para fora do período do seu domínio; o pleno cimbre, a janela de verga

horizontal e cornija, a nudez de lavores, de rendilhados, de mil

acessórios brincados, segredam-nos que a nova arte queria, no seu início,

mostrar-se poderosa e intransigente nestas minúcias.

Em 1515 morre Albuquerque, o Grande, deixando largos haveres; seu filho

casa por 1520, faz a viagem a Sabóia no ano seguinte, e na sua diversão

por Itália conhece o belo, espargido a torrentes por toda a península. De

volta ao reino enamora-se do palácio e quinta de Azeitão, propriedade da

família de sua mulher, e de certo muito já ali havia de cativante para

prender as atenções de quem deixava a Itália. Em 1528 adquiriu por compra

a quinta e _paços_.

As construções cerradas pela cerca de muros da quinta demonstram a ação

do gosto italiano na época da visita do filho de Albuquerque àquele

país; não será aqui o artista que traça as conceções do seu génio, mas

que explana no papel um tipo, de que o proprietário lhe apresenta os

lineamentos gerais e que o impressionou na sua viagem.

Vimos que de Bolonha ou de Ferrara trouxe Albuquerque a ideia para as

suas _casas às portas do mar_, a Casa dos Bicos, a sua paixão pela

policromia em _terra cota invetriata_ para ornamentação da sua quinta,

decoração tão usada por toda a Itália naquela época, aparece claramente

na Bacalhôa, aonde a semeou a mão larga nos mais variados espécimenes do

género, embora já alguma coisa ali existisse.

Todos os tipos de majólica, aplicados à ornamentação de edifícios, ali se

acham representados—o azulejo de cores lisas verdes, azuis ou brancos,

para mosaicos e formar o xadrez, o losango, o romboide, grade ou rede—o

quadro histórico, mitológico ou simbólico, o azulejo formando só por si

uma figura, o azulejo de desenhos combinados para quatro e cinco placas,

a rajola de relevo estilo hispano-mourisco, ou renascença italiana, o

medalhão de baixo, médio e alto relevo, esmaltado ou nu de revestimento

vítreo, a moldura de flores singelas, ou de variada e opulenta composição

vegetal, de tudo ali há finalmente, não faltando o busto do fundador, nu

de revestimento vítreo para que a camada do esmalte não fosse amolecer as

formas esculturais. As estatuetas em barro eram em considerável número,

mas atualmente só existe uma e mutilada num nicho do pavilhão central do

lago, de que não pode, por desviada, julgar-se do seu mérito.

O gosto de Albuquerque pelos barros cozidos passava a mania; as imagens

que, do seu tempo, existem na vizinha igreja de S. Simão são de barro e

algumas de grande vulto.

É a Bacalhôa um museu de cerâmica ainda abundantemente provido.

O desprezo total a que tinha sido votada, desde que a administração

do morgado caiu na casa dos armeiros-mores, levava-a em breve ao

aniquilamento; mas, felizmente, sucedeu ao duque de Albuquerque seu irmão

D. Luís, conde de Mesquitela, que, compreendendo o valor daquele cofre

de joias, cuida da sua conservação e da reparação do que é possível

restaurar-se.

Se um estrangeiro entendido houvesse sonhado o que ali ia de bom, tinha

tido ocasião de adquirir para o seu país quanto ali há de transportável

e, só com aquela coleção variadíssima, organizar um museu precioso de

espécimenes raros de majólicas. O palácio, porque só interessa à arte

portuguesa, deixava-o ir na derrocada.

Era tão monstruosa a rapina, tão estúpida a voracidade de alguns

visitantes, tão grande a destruição exercida nos barros esmaltados pelos

falsos amadores da arte, ou verdadeiros amigos do alheio, tantas as

mutilações feitas nos medalhões pelas pedradas do rapazio e pelos tiros

de espingarda a que as figuras serviam de alvo, tudo nascido do desleixo

inconsciente dos proprietários, que aos amadores do belo só restava o

apelo para qualquer governo, que, medianamente cioso do decoro nacional,

expropriasse o edifício e quinta por utilidade pública, a bem da arte e

sua história. E devia tê-lo feito o governo, quando resolveu adquirir o

palácio acastelado da Pena em Sintra.

Ora a Pena, à parte a casa dos monges, é de hoje, pode reproduzir-se

amanhã, porque não falta ainda nenhum dos elementos necessários para

se levantar outra edificação igual, e julgou-se que a nação a devia

tomar para si, quando, se um estrangeiro lançasse mão dela, não podia

deslocar o edifício. A Pena é um caso esporádico de arquitetura, um

capricho, uma fantasia de um homem dinheiroso. É o edifício belfo nas

formas, esplêndido na situação; mas o que nos diz da história da arte

portuguesa?...

... Diz-nos que por largos anos ali viveram vida contemplativa uns

ascetas, que alcançaram convencer-se de que deste mundo passariam para

outro cheio de felicidades. E isto o que pode é matar-nos de inveja

pela sorte daqueles felizes por partidas dobradas. Diz-nos mais que

houve um rei, que subia àquele monte e olhava o oceano, estendendo ao

largo os seus olhares, para ver se apercebia uma vela que lhe trouxesse

especiarias da Índia, ou levasse algum islamita, ou israelita de valia,

escapado à sanha cruel do monarca. A arte só falia da aptidão artística

de um estrangeiro, obrigado pela própria conveniência a permanecer em

Portugal, e a quem, para matar saudades da sua terra, ou como recordações

do seu país natal, aprouve plantar naquele cerro, em estação já imprópria

para o plantio e frutificação, uma árvore da Germânia medieval.

A Bacalhôa, única no seu género num país que a pobreza de espécimenes

raros distingue, é o monumento único que firma o renascer das artes em

Portugal, e a ara votiva que o acaso fez chegar até nós, para memorar o

alto génio de um rei que a história, lisonjeira dos _afortunados_, apenas

representa como um tirano desapiedado.

Se tal monumento continuasse na derrocada em breve desapareceria quanto

nele há de famoso para a arte e para a história.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 24 / 84 题