Jorge achou em casa, nessa mesma noite, uma carta de Buenos-Ayres.
Procopio Dias narrava-lhe a viagem e os primeiros passos, e dizia ter
toda a esperança de se demorar pouco tempo. Tudo isso era a terça
parte da carta. As duas outras terças partes eram saudades, protestos,
expressões de sentimento, e um nome no fim, um nome unico, e que era a
chave do escripto. Jorge leu attentamente essas confidencias, e na mesma
noite esboçou uma resposta. Não era facil combinar a discrição que
quizera conservar em suas relações com Procopio Dias e a necessidade
de lhe mandar algumas esperanças. Embora com esforço, redigiu a
resposta conveniente, contando-lhe as boas impressões que tinha; só as
boas, não lhe disse as duvidosas; sobretudo não desceu a nenhuma
realidade, a nenhum nome proprio; nada mais que uma extensa serie de
locuções egualmente animadoras e vagas.
No dia seguinte não foi á casa de Luiz Garcia; choveu torrencialmente.
Mas no outro dia foi, logo depois do jantar. Achou reunida a familia.
--_Good evening, my dear_ mestre! bradou Yayá logo que o viu entrar na
sala.
--Faltava mais uma lingua a esta tagarella, disse Luiz Garcia rindo;
daqui a pouco tempo ninguem a poderá aturar.
Jorge não esperava, de certo, encontrar na moça a mesma expressão que
lhe deixára na antevespera, quando de um gesto nervoso lhe comprimira
o pulso. Tinham passado quarenta e oito horas, e para que ella se
restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito minutos. Contava com a
mudança; não obstante procurou ler-lh'a nos olhos, e achou-os tão
alegres como o tom em que ella o saudara. A licção isolou-os, e foi
tambem o pretexto mais favoravel para lhe mostrar a carta de Procopio
Dias. Yayá viu-a sellada e comprehendeu tudo; arrebatou-a ás mãos de
Jorge.
--Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.
--Posso ler?
--Pode.
Yayá desdobrou a carta e leu-a para si, Emquanto lia, Jorge fitava-a.
Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço ou alegria; os olhos seguiam
lentamente de uma linha a outra, e a mão firme voltava a pagina. No
fim, quando leu o proprio nome, teve um movimento de tedio, e
inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta
com a mão e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos
occupou-se em traçar com um lapis alguns circulos na margen da folha
aberta da grammatica; ergueu emfim os olhos e perguntou sem rir:
--Acredita no que diz essa carta?
--Acredito; tudo o que está ahi escripto, já o ouvi de viva voz, e com
a mesma sinceridade e calor. Quem sabe? pode ser que seja o primeiro
amor desse homem.
--O primeiro... o primeiro... repetiu ella entre dentes.
--Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho que deve ter
algum encanto ser amada por um homem, considerado superior ás paixões.
A vida de Procopio Dias teve sempre outra ordem de interesses...
--Conhece-o ha muitos annos?
--Ha muitos, não; conheço-o desde o Paraguay.
--Acha que eu fazia bem em me casar com elle?
--Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessario,
e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que a senhora o não ame
deveras; já tive occasião de o dizer.
--Preciso de alguns esclarecimentos. O senhor amou de certo alguma
vez...
--Nunca.
--Nunca? Nunca teve um amor, um só que fosse? Não creio. Um coronel!
Nada; não creio; só se me jurasse; era capaz de jurar?
--Juro.
--Em nome de sua mãe? concluiu ella fitando-lhe uns olhos cuja
expressão imperativa contrastava com o tom submisso da palavra.
Jorge hesitou um instante. Tinha scepticismo bastante para proferir uma
formula vaga de juramento; mas recuou deante da formula positiva.
Hesitou e ladeou a pergunta.
--Esse nome resume justamente o meu unico amor, disse elle; amei a minha
mãe.
Yayá sorriu com ar de duvida; depois olhou para elle commovida.--Eu amo
meu pae, redarguiu ella; nossos corações podem entender-se.
A esta palavra não havia que replicar; pareceu-lhe a condemnação do
pretendente. Apertou a mão que a moça lhe estendeu, e sentiu-a fria.
Após uma curta pausa, abanou a cabeça, murmurando:
--Assim pois, nenhuma sombra de esperança...
--Faça o que entender, disse a moça no fim de outra pausa. Em todo o
caso desejo ler a resposta que lhe der.
Jorge abriu a carteira, e tirou de lá o rascunho da carta que pretendia
mandar a Procopio Dias.
--A resposta, disse elle, já está escripta. Não querendo matal-o, puz
aqui algumas gottas de esperança; não ousaria comtudo mandar o
remedio, sem ouvil-a.
Yayá recebeu o papel dobrado, olhou um instante para elle, outro para
Jorge.--Leia, disse este. Yayá não obedeceu: pegou do lapis, e sobre
a folha do papel dobrado começou a lançar os traços de um desenho.
Posto que a luz batesse em chão no papel, Jorge não pode ver desde
logo o que era; mas esperava, em frente da moça, que ella rematasse o
capricho. Nessa occasião, Estella foi ter com elles.
--Já acabou a licção? perguntou.
--Agora é uma licção de desenho, ao que parece, disse Jorge.
Estella poz a mão no hombro da enteada.--É o Procopio Dias! disse ella
olhando para o desenho. Era, mas o desenho frisava com a caricatura; a
fealdade de Procopio Dias excedia as proporções verdadeiras, o nariz
era enormemente triangular, as rugas da testa grossas e infinitas: um
monstro comico. Estella sorriu da travessura, mas reprehendeu-a.
--Deixe ver, disse Jorge quando ella acabou.
--Para que? retorquiu Yayá com indifferença.
E levando o papel á chamma, queimou-o. Jorge interrogou-o com os olhos;
ella encarou-o sem se perturbar. Depois folheou a grammatica lentamente.
--Continuemos a licção, disse ella. _I love_. Vá; onde estavamos?
Aqui, era aqui.
Estella assistiu á licção toda, com a paciencia da curiosidade. Não
olhava nunca para o mestre, dividia a attenção entre a discipula e o
livro. A licção foi longa, mais longa do que era necessario, porque o
proprio mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura. Yayá
tinha deante de si dous juizes, cada um dos quaes buscava decifrar-lhe
na fronte a inscripção que lá lhe teria posto o seu destino.
Percebia-o, e não se enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo
ao imperativo, voltando ao começo logo que chegava ao fim, fitando os
dous inquisidores com um olhar em que pareciam dormir todas as
ignorancias da terra.
A tranquillidade era apparente. Nessa noite, recolhida aos aposentos, a
moça deu largas a dous sentimentos oppostos. Entrou alli
prostrada.--Que estou eu fazendo? disse ella apertando a cabeça entre
os punhos. Abriu a veneziana da janella e interrogou o ceu. O ceu não
lhe respondeu nada; esse immenso taciturno tem olhos para ver, mas não
tem ouvidos para ouvir. A noite era clara e serena; os milhões de
estrellas que scintillavam pareciam rir dos milhões de angustias da
terra. Duas dellas despegaram-se e mergulharam na escuridão, como os
figos verdes do Apocalipse. Yayá teve a superstição de crer que
tambem ella mergulharia alli dentro e cedo. Então, fechou os olhos ao
grande mudo, e alçou o pensamento ao grande misericordioso, ao ceu que
se não vê, mas de que ha uma parcella ou um raio no coração dos
simplices. Esse ouviu-a e confortou-a; alli achou ella apoio e
fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe:--Prosegue a tua obra;
sacrifica-te; salva a paz domestica. Restaurada a alma, ergueu-se do
primeiro abatimento. Quando abriu de novo os olhos, não foi para
interrogar, mas para affirmar,--para dizer á noite que naquelle corpo
franzino e tenro havia uma alma capaz de encravar a roda do destino.
Tarde conciliou o somno. Já dia claro, sonhou que ia calcando a beira
de um abysmo, e que uma figura de mulher lhe lançava as mãos á cinta
e a levantava ao ar como uma pluma. Pallida, com o olhar desvairado, a
boca ironica, essa mulher sorria, de um sorriso triumphante e mau;
murmurava algumas phrases truncadas que ella não entendia. Yayá
bradou-lhe em alta voz:--Dize-me que não amas e eu te amarei como te
amava! Mas a mulher sacudindo a cabeça com um gesto tragico, e
collando-lhe os labios nos labios, soprou alli um beijo convulso e frio
como a morte. Yayá sentiu-se desfallecer e rolou ao abysmo. Accordou
agitada e deu com a madrasta, a contemplal-a, ao pé da cama. No
primeiro instante, fechou os olhos e recuou até a parede; mas logo
depois voltou a si.
--Tive um pesadelo horrível, disse ella respirando largamente; rolei no
fundo de um abysmo, empurrada por duas mãos de ferro. Ainda estou fria.
Veja as minhas mãos. Tenho o peito opprimido. Felizmente passou. Está
aqui ha muito tempo? Eu agitei-me muito?
--Falaste em voz bem alta.
--Que foi?
--«Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava,» Não sei que
estas palavra se possam dizer no fundo de um abysmo. Tu confundes os
sonhos...
--Talvez; não me lembra outra cousa. Só me lembro do abysmo, que
felizmente não passou da minha imaginação. É muito tarde, não é?
--Nove horas.
--Nove horas!
Estella foi a janella, e, abrindo a veneziana, mostrou-lhe o sol. Depois
encostou-se alli a olhar para fóra. Entrara alguns minutos antes,
admirada do prolongado somno da enteada, e ia pousar-lhe a mão no
hombro, quando ouviu aquella palavra balbuciada no meio de grande
agitação; palavra mysteriosa e vaga, mas que se lhe embebeu no
coração como um espinho. De sua parte, Yayá não estava menos
inquieta. Receiava que houvesse dito alguma cousa mais,--um nome ou uma
circumstancia precisa;--em todo caso, era bastante o que ouvira a
madrasta, para imaginar que o sonho lhe escancarara as portas da
consciencia. Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e medrosas. A
madrasta deixou a janella e foi sentar-se na beira da cama. Ambas
sorriam com esforço e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim
tres longos minutos de acanhamento e observação reciproca. Estella foi
a primeira que rompeu o silencio.
--O teu pesadelo foi um castigo, disse ella; foi o castigo da caricatura
que hontem fizeste. Aquillo não é bonito. Todos sabem que o Procopio
Dias é bem recebido em nossa casa. Que se hade pensar de nós, quando
virem que se tratam assim as pessoas ausentes?
Yayá reflectiu um instante.--Era preciso, disse ella; era uma maneira
de desenganar de uma vez as pretenções desse senhor.
--Mas quem te falou nellas?
--O Dr. Jorge, que parece protegel-o. Não é possivel que haja ninguem
mais feliz do que aquelle homem. Bastou gostar de mim, para que todos se
empenhem em approval-o e aconselhar-me que não devo tomar outro marido.
Parece-lhe que eu...
--A que proposito te falou nisso o Dr. Jorge?
--A proposito de cousa nenhuma; falou porque é amigo delle. Não lhe
disse eu uma vez que um dia, se todos teimarem, serei obrigada a casar
com o Procopio Dias? Receio muito que assim aconteça.
--Não, disse Estella vivamente; não hade acontecer assim,
primeiramente por que eu não o consentirei nunca; depois, por que tu
amas a outro...
--Eu?
--O teu amor de collegio, aos doze annos e meio...
--Ah! disse Yayá. E depois de alguns instantes continuou, com um gesto
de grande vergonha:--Fiz mal em lhe dizer aquillo; peço-lhe que não
repita a ninguem.
Estella não ouviu as ultimas palavras. Erguera-se outra vez para
dissimular a commoção, que parecia crescer. Entretanto, Yayá enfiou
um roupão e enterrou o pé na chinellinha matinal. Quando, cinco
minutos depois, encontrou os olhos de Estella, achou-os sombrios, como
os da figura do pesadelo, e insensivelmente buscou ver se teria um
abysmo ao pé de si.
--Yayá, disse Estella em tom secco, tu amas, tu confessas que amas a
alguem; quero que me digas o nome desse homem, ouves? Exijo sabel-o para
avaliar o que te convem. Sabes que tenho autoridade de mãe.
Yayá sentiu ferver-lhe o sangue nas veias.
--Minha mãe morreu, redarguiu com egual sequidão; estou prompta a
obedecer a meu pae.
Estella apenas disfarçou a sensação interior; após alguns instantes
de silencio, saiu.
Longe da enteada, a madrasta deu inteira expansão aos sentimentos que a
combaliam. Fechou-se no gabinete do marido; depois evocou o passado,
como uma força contra o presente, porque era o presente que ameaçava
tragal-a. Um instante abalada pela leitura da carta de 1867, buscou
recobrar a antiga quietação, mas a interferencia de Yayá perturbou
essa obra de sinceridade. O procedimento da enteada, a subita conversão
ás attenções de Jorge, toda aquella intimidade visivel e recente,
accordara no coração de Estella um sentimento, que nem aos orgulhosos
poupa. Ciume ou não, revolvera a cinza morna e achou lá dentro uma
braza. Suspeitou a rivalidade da outra, e não foi preciso mais para que
o grito de rebellião fizesse estremecer aquella alma solitaria e
virgem. O pensamento perdeu a habitual placidez. O coração começou de
bater com a celeridade e a violencia das grandes febres.
Eram as energias latentes de um amor comprimido, mas intenso, como uma
cratera que acaso fechasse uma abobada de gelo; peor que tudo, tinha a
fatalidade de um longo constrangimento, a luta de duas forças
egualmente pujantes, indomaveis e cegas. O orgulho vencera uma vez;
agora era o amor, que, durante os annos de jugo e compressão, criara
musculos a saía a combater de novo. A Victoria seria uma catastrophe,
porque Estella não dispunha da arte de combinar a paixão espuria com a
tranquillidade domestica; teria as lutas e as primeiras dissimulações;
uma vez subjugada, iria direito ao mal.
Ora no meio desse duello, já doloroso, embora ainda curto, ouviu
Estella a ultima palavra da enteada, commentario da que lhe escapara na
agitação do pesadelo. Saiu dalli atterrada, tacteando as sombras, e
desviando os olhos quando algum clarão de realidade se lhe accendia ao
longe. Não podia crer na rivalidade consciente e declarada de Yayá;
era inverosimil, seria a sua propria vergonha e condemnação. Mas as
palavras retiniam-lhe ao ouvido, e o gesto frio e duro da enteada
parecia clarear o que havia obscuro nellas.
Não podia durar muitas horas a situação em que a fatalidade das
circumstancias havia posto as duas mulheres. Yayá era a mais ductil, e,
outrosim, a mais interessada. Logo que Estella a deixou só, caiu em si
e comprehendeu que, além de ferir cruelmente a mulher que lhe servia de
mãe, levantara uma ponta do veu em que trazia envolto o pensamento; ao
demais, a injuria produzira a reacção do amor,--do amor que lhe tinha
e não perdera de todo, apezar dos acontecimentos ultimos. Na seguinte
manhã foi ter com a madrasta.
--Confesso que fui excessiva e desobediente, disse ella; não o devia
ser, mas a senhora falou com um modo tão secco! tão duro! Pareceu-me
que duvidava de mim; fosse o que fosse, não era o seu modo do costume.
Sempre a respectei como minha mãe; não nego, não poderia negar nunca
os seus direitos, assim como não desconheço a sua amizade; mas a
senhora mesma tem um bocadinho de culpa; sempre me tratou antes como
irmã do que como filha. Dahi veiu alguma confiança, alguma liberdade,
e foi por isso que hontem cheguei a esquecer quem eramos, para a tratar
como não devia. Foi isso sómente; foi um excesso, uma leviandade, nada
mais. Consulte o seu proprio coração e elle lhe responderá que não
foi mais do que isso. Vá; pergunte-lhe, elle me conhece.
Estella escutou-a silenciosamente, sem vergar a altivez da fronte, mas
tambem sem nenhuma expressão de despeito ou desafio. Luzia-lhe nos
olhos alguma cousa que espreitava a alma da outra por baixo das
palpebras descidas. Yayá falara de um jacto, mas não de um só tom;
simplicidade, timidez, faceirice,--havia de tudo na maneira porque se
exprimiu durante aquelles poucos segundos. A explicação era a um
tempo sincera e habil, mas de tal modo se confundiam os dous caracteres,
que a propria habilidade não tinha consciencia de si: era antes um
instincto do que um calculo.
--Que me pedes tu? disse Estella no fim de alguns instantes. Que te
perdoe? Que esqueça a tua imprudencia? Uma cousa é mais facil do que
a outra. Estás absolvida; faze agora com que eu esqueça.
--Porque não? eu consegui fazer com que me amasse, quando a senhora
não sabia ainda se eu era má ou boa.
--Era facil. Tua mãe era tua mãe; mas não te amou mais do que eu. Se
alguma vez o reconheceste, não foi hontem; hontem cedeste a um mau
preconceito contra as madrastas, e levantaste entre mim e ti um
espectro, que se podesse falar seria para te condemnar tambem. Não me
queixo; nunca me queixei de cousa nenhuma: quando estimo alguem,
perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas
não é impossivel; está nas tuas mãos.
Subjugada pelo tom com que a madrasta falara, simples, severo e
levemente repassado de tristeza, Yayá cedeu a um nobre impulso de
submissão. Pegou-lhe nas mãos e beijou-as. A madrasta sentiu nellas
uma lagrima. Não recusou esse testemunho do coração, e tel-a-hia
apertado ao seio se lh'o permittisse a inflexibilidade do espirito.
Limitou-se a contemplal-a com os olhos amoraveis de outro tempo.
Quando se separaram dahi a alguns minutos, alguma cousa dizia á
consciencia de ambas que não vinham de fundar a paz, mas simples
tregoas. Essa persuasão cresceu nos demais dias, porque uma e outra
sentiam-se mutuamente observadas. Como houvesse entre ellas um accordo
tacito para não turbar a paz domestica, Luiz Garcia não percebeu essa
situação nova; Jorge ainda menos do que elle. Yayá não alterou os
habitos dos ultimos dias, comquanto usasse mais alguma cautella; as
relações dos dous eram, aliás tão frequentes e familiares como
d'antes. Uma vez, como a ausencia de Jorge se houvesse prolongado além
do costume, Yayá mostrou-se-lhe um pouco retrahida: e, perguntando-lhe
elle o que tinha, respondeu affoutamente, que a ausencia a magoara
muito.
--Quatro dias apenas, observou elle.
No primeiro domingo de Março, Jorge foi alli ás onze horas da manhã,
e só achou Luiz Garcia e Estella. Yayá tinha ido á casa de Maria das
Dores. Quando a moça voltou, Jorge e Estella estavam no jardim, ao pé
da porta da sala; entre ambos havia uma cadeira vaga,--a de Luiz Garcia,
que fora dentro alguns minutos antes. Nenhum dos dous falava nessa
occasião; Estella estalava as unhas, Jorge batia na testa com o castão
da bengala. Era constrangimento? Era dissimulação? Yayá não soube
decidir; mas o aspecto dos dous deixou-a sem pinga de sangue.
No dia seguinte voltou á casa de Maria das Dores; sabia do passeio
usual de Jorge; queria vel-o, falar-lhe. A doente não contava com a
visita tão proxima da outra. Yayá esteve com ella apenas alguns
minutos, e saiu fóra, a pretexto de que fazia calor e queria ver a
tarde. A tarde era bella; o ceu tinha todos os tons, desde o escarlate
até o opala; ao nascente, algumas nuvens, raras e finas, manchavam de
branco o fundo azul.
A casa ficava n'uma pequena elevação; Yayá sentou-se numa pedra lisa,
que servia de banco, e d'ali circulou um olhar pelo horizonte; depois
desceu os olhos á cidade e ao mar, e esse espectaculo, tão sahido
delles, levou-a aos tempos, não mui remotos, em que entre ella e o pae
nenhum coração viera interpôr-se. No meio das reflexões, viu parar
um homem, ao longe; era Jorge; vinha a pé, em attitude de quem medita.
Passaria elle sem a ver? Ergueu-se; viu-o approximar se, parar de novo e
olhar na direcção da casa. Cortejou-o de longe e fez-lhe signal para
que subisse. Jorge obedeceu sem difficuldade.
Maria das Dores, doente de uma paralysia, ficou estupefacta quando viu
entrar um desconhecido pela mão de Yayá. Interrogou a moça com os
olhos, e Yayá, depois de um instante de acanhado silencio, respondeu
com desgarre:
--É meu noivo, que vem vel-a. Quero que o conheça e não diga nada a
ninguem, ouviu?
Dizendo isto, approximou-o mais da paralytica. A boa velha contemplou-o
alguns instantes, disse-lhe algumas palavras de conselho, pediu-lhe que
fizesse feliz a sua filha de creação, e não obteve delle uma palavra
ou um gesto de assentimento. Suppol-o commovido; mas elle estava
simplesmente attonito.
Saindo fora da casa, assentaram-se á porta, na mesma pedra, assaz larga
e extensa para dous.
--Foi preciso dizer-lhe aquillo, explicou Yayá, porque eu desejo
conversar com o senhor, e os noivos conversam mais á vontade. Demais,
ella não é só paralytica; tem a vista fraca; amanhã posso
substituil-o, sem que ella dê pela mudança. Agora falemos de nós e
daquella carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava aqui?
--Não; mas não vim até estes lados sem esperança de a encontrar. Já
que fala na carta, deixe-me dar-lhe uma explicação; se a não dei até
hoje, é porque não quizera voltar a um assumpto, aborrecido para a
senhora e para mim.
--Para o senhor?
--Para mim.
Yayá apertou-lhe a mão com força.--Vá, disse; tambem tenho de lhe
dizer alguma cousa grave; mas ouçamos primeiro a sua explicação.
--Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta por me
parecer que podia ser-lhe agradavel. Lembra-se que uma vez me havia
falado naquelle sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lh'o. Comtudo,
havia tanta incerteza e contradicção entre suas palavras e acções,
que não era difficil suppôr alguma cousa; ha paixões que começam
assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que
seus suspiros podiam não ser inuteis. Era isso; só isso. Confesso que
adoptei o papel mais passivo, desinteressado, e não sei até se...
creio que a senhora já o qualificou de ridiculo. A forma podia não ser
grave, mas a intenção era affectuosa, e se merecia um riso, tambem
merecia um aperto de mão. Esboçada a carta, não a mandaria sem
mostral-a; foi o que fiz; mas sua reprovação foi tão eloquente, que
me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.
--Era de menos.
--Queria então que fosse eu proprio a Buenos-Ayres? perguntou Jorge
sorrindo.
--Queria, se ao chegar lhe dissesse:--Pense em outra cousa; Yayá não o
ama.
--Para isso, basta que lhe não diga nada.
--Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não o ama.
--Desta vez é serio e definitivo?
--Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe parece a cousa
mais natural do mundo que uma moça não ame o Procopio Dias? Não sei o
que são os outros homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão
retirada! Mas, emfim, não me parece que o Procopio Dias seja homem de
se ficar morrendo por elle. E comtudo elle morre por mim. Meu coração
perdoa-lhe; é o mais que pode fazer. Acceital-o seria impossivel. Já
reparou nos olhos delle? Tem ás vezes uma expressão exquisita, que
não vejo nos olhos de papae nem nos seus. Não gosto delle; não
poderia gostar nunca.
Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.
--Tem razão, disse elle; se o não ama deveras está tudo acabado. Não
lhe digo que elle fosse um noivo perfeito; não podia ser; mas
acceitavel era. Hoje percebo que entre a senhora e elle ha alguns
contrastes; mas o que é que não concilia o tempo? Esqueça o que lhe
disse a tal respeito; e assentemos não falar mais de semelhante
assumpto. Provavelmente não escreverei nada; é duro dizer a um homem
que todas as suas esperanças são vans.
--A paz do meu espirito não valerá esse sacrificio?
--Vale mais; posso fazel-o.
Yayá reflectiu.
--Não, não é preciso; não lhe diga nada; elle ha de entender tudo.
Como fizessem uma pausa longa, viram duas ou tres pessoas, que passavam
em baixo, olharem para cima com certo ar curioso e indiscreto. Jorge
ergueu-se.
--Estamos dando na vista, disse elle; hão de suppôr que somos dous
namorados...
--Sente-se, disse Yayá em tom intimativo. E continuou:--Que perde o
senhor com isso? Dirão que não tem mau gosto em amar uma moça bonita.
--Se dissessem que eramos dous namorados, erravam de certo, por que eu
sei... eu suspeito que a senhora ama a outro. Uso dos meus direitos de
confidente, exigindo que me diga a verdade.
--Toda, respondeu Yayá, e era esse o ponto grave de que lhe queria
falar. Ainda uma vez, o senhor estima-me? tem-me amizade sincera?
--Pois duvida?
--Eu duvido de tudo e de todos; até de mim. Mas em fim, preciso de
alguem que me ouça, a quem eu conte o que penso e o que sinto, e até o
que receio, porque tambem receio, e ha horas em que tremo sem saber de
que. É verdade, ha occasiões em que me parece que uma grande
infelicidade vae cair sobre mim, e dahi a nada penso justamente o
contrario; penso que vou receber maior felicidade do mundo, e fico
alegre como um passarinho. Cousas de criança, não é?
--Não, cousas de moça. É certo que ama? a quem?
Yayá olhou para elle algum tempo, satisfeita da impaciencia que parecia
ler-lhe na fronte.
--Respondo que sim e que não, disse ella. Se me pergunta a quem amo,
digo-lhe que não sei, não amo ninguem; mas sinto alguma cousa
mysteriosa e exquisita, e não sei... desconfio... não sei que seja.
Porque é que as mesmas cousas, que me eram indifferentes, agora me
parecem interessantes, e até chego a suppôr que me falam? Ainda ha
pouco, antes de o ver, estava a olhar embebida para o ceu, quasi sem
pensar, mas ainda assim curiosa ou anciosa; olhava para o ceu e para o
mar; o coração apertou-se-me; depois alargou-se-me como se quizesse
devorar tudo. Ha dias em que me levanto alegre e viva, como uma
creança; papae diz que são os meus dias azues. Ha outros em que tenho
vontade de quebrar tudo, e não digo mais de duas palavras em cada hora;
são os meus dias negros. Ouço ás vezes uma voz que me fala; penso que
é alguem e reconheço que a voz é a da minha propria imaginação.
Tudo será imaginação, creio; mas é tão novo e tão bom! Em todo
caso, parece-me extraordinario, e se não é loucura... É verdade, ás
vezes penso que vou ficar douda, e nessas occasiões tenho medo. Será
isso?
--Não, acudiu Jorge, não é loucura, é sabedoria, é a grande
sabedoria da natureza. Isso que sente, não será amor; mas é a
necessidade de amar; é o rebate que lhe dá o coração. Alguem virá
um dia, e a voz anonyma que a senhora costuma ouvir, lhe falará então
pela boca do homem que o coração lhe apontar.
Yayá escutava-o como encantada, mas sem olhar para elle. Quando Jorge
acabou, fez-se entre ambos uma longa pausa. A moça tinha os olhos no
horizonte onde as cores da tarde desmaiavam rapidamente. Jorge
contemplava-a tomado de interesse e até de inveja; comprehendia os
primeiros sobresaltos desse coração em flôr, e dizia a si mesmo que
ha sensações que o tempo leva para não restituir mais.
Yayá accordou de suas reflexões.
--Francamente, disse ella; o senhor não se ri de mim?
--Rir? A senhora não me conhece. Não ha que rir de sentimentos
sinceros; e seria praga muito mal a confiança de que me dá prova. Não
me julgue um espirito vulgar...
--Papae faz-lhe muitos elogios.
--Hade saber, ou fica sabendo que minha natureza sympathisa com o que
está acima do commum. A senhora vale muito; posso dizer que ha dous
mezes eu ainda a não conhecia...
--Não tente a minha vaidade, interrompeu Yayá; prefiro que me dê um
bom conselho.
--Dou-lhe um, disse Jorge depois de curta pausa; resista um pouco a
essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existencia. Não é
só o coração que lhe fala, é tambem a imaginação, e a
imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um
pouco de poesia á vida, mas não cáia no romanesco; o romanesco é
perfido. Eu, que lhe falo, lastimo não ter já essa ordem de
sentimentos em flôr, e comtudo não sei se ganharia com elles.
--Que! não seria capaz de amar?
--Meu coração não envelheceu ainda.
--Entendo; amaria hoje de outro modo...
--De outro modo, e tão sinceramente como d'antes; um amor de olhos
abertos.
--Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor, é o que não vê
nada em volta de si, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva o
coração. Para que servem os olhos abertos?
--A senhora quer saber muita cousa, disse Jorge sorrindo. Não basta que
o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos approvem a
escolha do coração. Admira-se? Ouça-me até o fim; eu desejo
preserval-a de alguma escolha má. Eleja um marido digno, um espirito
que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; não se deixe
levar dos primeiros olhos que pareçam responder aos seus...
Yayá abaixou a cabeça.
--Não acharei nenhuns, disse ella; eu creio que este amor morrerá
commigo...
Como essa ideia parecesse entristecel-a, Jorge sentiu-se tomado de
compaixão, ao ver que persistia naquella aurora pura uma sombra de
superstição romanesca. Pegou-lhe na mão, viu-a estremecer,
recusar-lh'a e cruzar os braços.
--Tem medo de mim? disse elle ao cabo de um instante.
--Tenho.
Jorge calou-se. Com a bengala entrou a reproduzir no chão umas
reminiscencias de geometria. Sentia-se atalhado, curioso, e tanto
desejava como lhe custava sair d'alli. Não chegava a entendel-a
claramente; a verdade, quando ia a tocal-a, parecia inverosimil.
Entretanto, Yayá não rompia o silencio; tinha a fronte pendida e
meditava. Talvez meditava na palavra que acabava de proferir, fructo da
situação violenta em que ella propria ou os acontecimentos a haviam
collocado. Era a rebellião do pudor. De quando em quando, sacudia a
fronte como a expellir uma ideia enfadonha ou cruel. N'uma dessas vezes,
Jorge disse com brandura:
--Para que negal-o? a senhora padece; não sei se com razão ou sem
ella, mas parece padecer muito?
--Oh! muito!
E dessa vez a palavra era tão angustiosa, tão sincera, tão vinda do
coração, que elle cedeu antes a um impulso de generosidade do que á
conveniencia de não ser repellido segunda vez Pegou-lhe nas mãos e
pediu-lhe que fosse até o fim da confiança, dizendo-lhe a causa de
seus males. Talvez elle pudesse removel-os.
Yayá inclinou o rosto sobre as mãos de Jorge. Este sentiu nellas
algumas lagrimas, vertidas sem soluços. Não passava ninguem: mas elle
nem teve tempo de reflectir na possibilidade de um extranho. Inclinou-se
tambem e perguntou-lhe affectuosamente o que tinha. Yayá ergueu a
cabeça, e enxugou os olhos, mas não respondeu nada.
--A senhora não tem confiança em mim, disse Jorge.
--Ha cousas que se não fazem, outras que se não dizem; algumas
ficarão entre mim e Deus, retorquiu ella como se fizesse uma reflexão
para si. Depois fitou-o e pediu-lhe a promessa de que não diria nada do
que acabava de ver e ouvir.
--Essa promessa não se faz; está feita por si. Quanto ao seu segredo,
não quero violental-o, mas tenho esperança de que a senhora mesma o
hade dizer um dia; eu saberei obter-lhe esse resto de confiança que
ainda me nega.
--Já! exclamou a moça vendo Jorge levantar-se.
--Repare que a noite vem caindo; não posso ficar nem mais um minuto. Um
confidente tem limites. Olhe; não peço muita cousa, mas desejo alguma
cousa mais. Confidente é pouco; mestre é ainda menos. Dê-me outro
titulo ou cargo; deixe-me ser seu... seu que? seu... seu irmão. Sim?
--Não! disse ella energicamente.
Jorge empallideceu, como se acabasse de ver o fundo da alma da moça. A
negativa era alguma cousa mais do que um capricho. Não retorquiu;
estendeu-lhe a mão.
--Até quando? disse ella.
--Até amanhã.
Tres minutos depois, Jorge estava na rua. A noite descia rapidamente.
Elle não olhou para traz; se olhasse viria a figura de Yayá envolta
já na meia sombra do crepusculo. Veria mais; vel-a-hia reflectir um
pouco e espalmar a mão no ar, como uma ameaça, na direcção em que
elle ia.
Yayá entrou na casa da doente.
--Seu noivo? disse esta.
--Já foi.
--Quando é o casamento?
--O dia não sei. E depois de uma pausa:--
Mas que se hade fazer é certo. Ou eu não sou quem sou.