LISBOA
Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso
_5--Largo de Camões--6_
1906
I
Ao tiro de peça acordou João de um inquieto somno de namorado e,
apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja,
prestou attenção.
Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as
aprehensões dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao
caloroso enlace dos seus braços, e um subito quebranto o
impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do
ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
Não se repetiram detonações que o tranquilisassem e, no brando rumor
cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros
um capote azul de cabeção, e fechos de prata, apagou a candeia de
ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava,
desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de
cedro da janella de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa
luz da manhan.
Então destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso
cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial,
puchou para si os dois pesados batentes e debruçou-se com avidez.
--Muito madrugaste hoje--disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á
celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de
dormir apanhando os cabellos brancos.
Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de
Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o
focinho bronco farejando por cima da cancella.
--Não ouviu uma peça, tia?
--Ha de ser navio de Lisboa.
Em passo miudinho, muito activa, a arregaçada cheia de milho, acudia
ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os
visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito,
misturado ao chapinhar na agua de semeas.
Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim
dando o signal do batalhão, e o terno de cornetas atacou as notas
baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.
Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do
Pisão.
Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva,
pé descalço, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa
no pescoço por botões de oiro, carapucinha preta com orelhas
vermelhas, pequena como a palma da mão, posta á banda n'um elegante
equilibrio, batendo o bordão com rendilhados na ponteira; rolhas de
pasto no bico negro das cabaças defumadas, com pontos a cordel em
fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao
hombro esquerdo.
Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores,
anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.
Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos
latidos os cães das quintas.
Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse
toque de sino, impregnado ao pôr do sol pela melancholia da tarde;
seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das
almas.
Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se
devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia
Pulcheria.
Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais
gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque,
onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia
de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando viço aos
cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da
janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de
encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da
arquinha onde se espetava a bica de ferro.
Recolheu-se, para o não verem faltar á oração matinal e, assim de pé,
varejava-lhe o olhar o braço d'agua que dera o nome d'Angra á sua
cidade.
Mas não avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro
alarmante vinha findar-lhe os devaneios.
Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de garça;
vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas
pernas a fugirem no calhau.
Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo
Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador
de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.
Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas
montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas
flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos,
cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da
Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse
el-rei D. Sebastião no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a
que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes
sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á
inextricavel vegetação de sargaços d'esse mar de inferno.
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros
povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso
oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a
Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar
largo, essas terras onde tudo se decidia: a França, mãe da liberdade,
regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o
que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituições de
Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolução de 24
de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisição; a
Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e
decerto auxiliaria a revolução de 18 de maio contra a usurpação de D.
Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda não havia um mez; o
Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos;
Lisboa, de onde uma embarcação traria um primo para lhe arrebatar a
mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorpção do mar largo e das terras aonde conduzia,
surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo
detraz do Monte Brasil, a fragata _Princesa Real_, mostrando no
balanço a bateria rasa, cintada de peças negras em carretas vermelhas
abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da
antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem
lanchas e escaleres.
Tudo acabaria assim?
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de
onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que
trazia no forte bojo, e espicaçava-o o impeto de sair d'essa
dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de
reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas
esperanças, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma,
adivinhando, no palpitar de um lenço, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte
Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas
negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos
e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo,
verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde
ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casarão
onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes
bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e
o carroção de coiro bolorento, baloiçando-se nas grossas correias, de
largas fivellas areiadas, arrastado á força da aguilhada por duas
juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando
ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte
apoiada na mão esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado,
anediando o ligeiro buço, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes,
pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, começou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almoço, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem
para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro
do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da louça da
India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado
armario de madeira do Brasil, com guarnições tremidas e remates
arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se
sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o avô presidiam á
grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se
fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia,
esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educação mulherenga, creado entre rabos de saias,
adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de dôr se lhes faltasse.
E as ambições de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se
no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditação, de que o
haviam adoecido os dias abafadiços e humidos.
--Já saes?--perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de
tartaruga.
Dorotheia accrescentou que não era dia de lição, e o dominio das
velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os
passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de
lagrimas quando voltava tarde «do caminho da perdição!»
Não resistia, não se insurgia, não protestava, mas nem por isso
deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de
liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros
da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
--Nem que fosse dia de lição irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do
navio de Lisboa, sublinhando com intenção.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
--Não te vás meter em trabalhos.
--Não se fala senão de vinganças, de prisões, credo!--apoiou
Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado
economico das perturbações:
--Tudo mais caro. Os ovos já estão a quatro por um vintem, e querem
uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de
entrar na cidade, e não passam do Desterro onde açambarcam a manteiga,
os ovos e as gallinhas os revendilhões, que põem tudo pela hora da
morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada
má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os
preços. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que
veiu para ahi de tamancos! Já não se pagam fóros, ha que tempos não
entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capitão Toledo das
Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que não se
acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chôco, mas logo na noite
da revolta, com os tiros dos soldados do Lobão contra os milicianos,
foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que
põem duas vezes por dia! É o que se ganha com essas façanhas dos
constitucionaes.
--Ó tia!...--interveiu sorrindo.
--Se não has-de defendel-os, não fosses todo do Juvencio!--commentou
Pulcheria, mais directamente ferida pelo gôro.
Dorotheia censurou, muito sentida:
--Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes
encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e
Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas
iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria.
--Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça.
Pulcheria reprimiu João n'um olhar.
--Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito
de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são
do senhor D. Miguel.
--Estão no seu direito.
Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro:
--Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação
dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças
manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de
damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és
tratado como amigo.
E reparando na distracção d'elle:
--Não comes nada? Grande coisa tens hoje!
Pulcheria observou-o tambem:
--Naturalmente os pedreiros livres estão falados para a chegada do
navio de Lisboa.
Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos
contos, e João surprehendeu a creada, a velha Maria da Assumpção do
Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos braços inchados de
veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a
testa encarquilhada, o nariz acavallado, os beiços pendentes, mascando
a sua maneira especial de se benzer:
Eu me benzo c'os tres cravos
Abraçados n'uma cruz
Para que possa dizer
Santo nome de Jesus:
A cruz desça do ceu
E se deite sobre mim
O Deus que n'ella padeceu
Elle responda por mim.
Por fim o dedo pollegar da mão direita, tornado bento pela tarefa
redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para
o lar.
Dorotheia commentou, compadecida:
--Dão com ella em doida as innovações dos constitucionaes. Demora-se
toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé pôr-se de empada, a
rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos.
Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:
--É para o que servem os pedreiros livres!
Elle riu n'uma explosão juvenil.
--Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem graça!
A tia confirmou:
--A senhora Joaquinina do Ó vê-te sempre no falatorio da botica, e
toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia
noite.
--Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o
cordão de São Francisco á cinta, não diga que tambem lá vê, a jogarem
o gamão, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre
Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do
bispado.
--Esses são pedreirões dos grandes!
--Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da
Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do Ó.
Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que
escolhia a pelle torriscada, o _affonso_ de lapas em que o marisco
guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sabôr do mar; e
tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo
directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se
entretinham as tias.
De olhos no tecto e mãos postas, repetiam tres vezes as velhas, junto
da meza «Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer»,
notando desgostosas que João se esquivava ultimamente á acção de
graças, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o
Demonio.
Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lançando um olhar irritado ao
convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme
Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando
comprometter-se para com o morgado, não entrou a perguntar novidades
de Lisboa.
Voltou á rua do Convento da Esperança, e passou por diante do collegio
dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a
frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a
fachada com dois grandes braços cruzando-se de punhos fechados contra
a cidade--as armas de S. Francisco.
Virando a esquina entrou na praça, e foi direito á botica, ao canto do
Passo onde parava a procissão e se cantavam motetes.
Para ir ali tinha a justificação de falar ao mestre, e trazia-a
engatilhada para alguma pergunta do morgado.
Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:
--Aqui não se recebem ordens do Miguel! Isto não é terra de burros nem
de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto,
o capitão general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da
camara convocou uma reunião extraordinaria, a que concorreram as
principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e
resolveram não cumprir as cartas regias por falta das formulas da
carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou não
sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma _Princesa
Real_!
Não iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe
importava.
Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a lição, e não ficaria
sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o.
Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da
lição de latim do conego Penedo, um alto vermelhaço, de cabello branco
com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos
occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e
outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a mão
fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes
brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres.
Como no momento de libertação em que a garrida chamava os conegos á
Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira
do côro, cabeceando, a remoer o ripanço em voz roufenha, ia João na
doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.
Sentia-se tão livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando
corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua
da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam
cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas,
portões de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a
admirarem as vinhas, n'um culto pagão mais sincero do que aquelle em
que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.
Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio,
para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua
situação para com Maria, antes que surgisse outra ameaça.
Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a questão
politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destroços de
naufragios, pranchões crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre
onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham
colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal
batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da
resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.
Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha,
onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a
fundura da rocha viva.
Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos
do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas
sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia
coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e
vermelhos de peixes-reis e bodeões. Acudiam engodados, vinham em
cardume á çaga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios
arrastada pelo mar para o recanto da angra.
Á picada no anzol correspondia a saccada lesta do caniço; saltava um
peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador
adentanhando a guelra; lançava-o ao cesto, onde a frescura dos mais
emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.
Mas o cação voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo
no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.
Subiu a Rocha até ao Relvão.
Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de prôa dos
barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a
bordo da fragata, alando os ferros.
Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. João Baptista,
encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os
pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo
da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como
protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse
castello que fôra o symbolo da oppressão hespanhola e se tornára a
unica esperança da liberdade portuguesa!