ODE

_Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N.

Senhora._

A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos

Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e

desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa

temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo

espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela,

estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de

enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum

coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente.

Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza

collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo,

precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV.

MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela

torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto,

levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi,

Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que

arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi

soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o

fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela

primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas

cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com

gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse

destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser

insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa

desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na

sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que

eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV.

MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do

seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no

futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas

ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse

em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o

coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e

sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não

pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do

reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES

grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos

da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES

tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças.

Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre

estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas,

mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que

deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de

Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte,

e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo

nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de

que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno

dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da

felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza.

Obras posthumas · 第 86 / 99 题