GLOZA.

Mandas-me, ó Anarda, em vão

Os olhos meus reprimir;

Que elles sempre hão de seguir

O impulso do coração.

Sem querer sinaes daráõ

Do affecto, que não publíco:

Co'a boca, que mortifico,

Que importa que o não revele,

Se eu, por mais que me acautele,

Nos olhos o amor explico?

Amor os faz descuidados:

Em vão, Anarda, os abaxo;­

Pois dahi a pouco os acho

Outra vez nos teus pregados.

Trazellos mais castigados

Não está­ na minha mão:

Esta continua omissão,

Este erro, como tu dizes,

He hum fructo das raizes,

Que trago no coração.

De que serve olhar a medo,

E fallar acautelado,

Se hum suspiro descuidado

Vem descobrir o segredo?

Este artificio, este enredo

Pouco poderá durar:

Meus olhos me hão de entregar;

Que hum amor na alma arraigado

He como hum fogo ateado,

Que se não póde occultar.

Tempo, e arte tenho posto

Para disfarçar-me em tudo:

Mas sae-me perdido o estudo,

Em vendo o teu lindo rosto.

Disfarça-se mal hum gosto,

Que nasce do coração:

Tambem tu dessa lição

Talvez­ que bem não sahiras,

Se assim como eu sentiras

No peito a doce paixão:

Obras posthumas · 第 66 / 99 题