GLOZA.

Por que barbara razão

Hum justo amor se reprime,

E ha de julgar-se por crime

Pôr na boca o coração?

Claros olhos ferir vão

Hum coração innocente;

Nem ao triste se consente

Dar sinaes de seu cuidado!

Deoses! quanto he desgraçado

Quem adora occultamente!

No peito a chamma accendida

As entranhas lhe abrazou;

Mas da ingrata, que a ateou,

He crime ser percebida.

Se deita sangue a ferida

Á vista do matador,

Vejão de que nova dôr

Sente o triste a alma cortada,

Fallando co'a sua Amada

Sem declarar seu amor!

Arde em hum fogo escondido:

Pois­ se conta o seu cuidado,

Além de ser desgraçado,

Chamão-lhe em cima atrevido.

Até quasi tem perdido

De olhar o livre direito;

Vive sempre contrafeito;

E entre mil contrarios posto,

Mostra alegria no rosto,

Sente mil ancias no peito.

Busca alegres companhias,

Por curar o mal que sente:

Entra a ingrata de repente,

Despertão-se as­ cinzas frias.

Ternas Arias, Synfonias,

Tudo aviva o seu amor;

Mas dos fados o rigor

Tem sobre elle taes poderes,

Que no meio dos prazeres

Vive cercado de dôr.

Obras posthumas · 第 64 / 99 题