GLOZA.

De ser comigo piedosa

Não dás, Marilia, esperanças:

Inda, cruel, não te cansas

De ser esquiva, e teimosa!

Que importa, ó Ninfa formosa,

Vir neste pégo arriscar-me,

De mergulho ao mar lançar-me,

E os livres peixes colher-te;

Se quanto eu teimo em querer-te,

Tu teimas em desprezar-me?

C'os olhos ao Ceo erguidos,

Ou postos nos longos mares,

Por ti encho os vagos ares

De mil saudosos gemidos:

Nos rochedos desabridos,

Que em vão bate o rouco mar,

Devorando o meu pezar,

Já que de ouvi­-lo te cansas,

Sem premio, sem esperanças

Eu teimo em te idolatrar.

Teimando, se mal não penso,

Hei de abrandar teus rigores;

Porque assim como em amores,

Tambem em teimas te venço.

Juro pelo Sol intenso,

Que a prumo estas rochas queima,

Que mais do que eu ninguem teima.

São as causas desiguais:

Mas por vêr quem teima mais,

Juntarei teima com teima.

Se alva fonte murmurando

Gasta em torno os duros seixos,

E vai dos annosos freixos

As raizes escarnando:

Se duras rochas quebrando

Vai c'o tempo o bravo mar:

Se bronzes póde cortar

Mordente lima teimosa:

Tambem eu, Ninfa formosa,

Teimando te hei de abrandar.

Obras posthumas · 第 46 / 99 题