Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as
tres especies, romance, xácara, soláo
pag. 142.
Ésta classificação é em parte conjectural, ou para fallar com mais
propriedade, sim ésta é a regra, mas com tantas excepções que chegam a
fazer duvidar d’ella. Os que escreviam e compunham n’aquelles tempos
primitivos curavam pouco de cingir-se a regras ou classificações. D’ahi
veio uma certa anarchia, constituida e fundada no exemplo, ou na falta
d’elle, que se prolongou por muitos seculos depois.
A respeito de soláos, por exemplo, temos para abonar a definição que
d’elles se dá no logar annotado, a auctoridade immensa de Bernardim
Ribeiro na _Menina e Môça_: ahi cap. 21.
Pondo-se a ama a pençar a menina sua criada como sohia, como
pessoa agastada de algua noua dor, se quiz tornar ás cantigas,
e começou ella entam contra a menina que estaua pençando, a
cantar-lhe um cantar á maneira de soláo, que era o que nas
coisas tristes se acostumava nestas partes: e dizia assi: etc.
Mas por outra parte, temos o não menos grave pêso de Sá-de-Miranda na
egloga 4:
Que se os velhos soláos fallam verdade,
Bem sabe ella por próva como Amor
Magôa, e averá de mi piedade.
Da primeira citação parece concluir-se que o soláo é, como deixo ditto,
um cantar todo lyrico, de tristeza e lamentos: na segunda considera-se
como narrativo e usurpando propriamente a provincia do romance. (_Nota da
segunda edição._)
Vej. o que a este respeito se escreve no liv. II do ROMANCEIRO. (_Nota da
terceira edição._)