Té os moiros na Moirama
Festejam a San’João
pag. 119.
É uma cantiga popular do Minho ainda hoje cantada por toda essa noite
de San’João, que n’aquellas terras ninguem dorme, como é sabido. A
superstição da alcachofa é toda do Sul, toda lisboeta, talvez coirman
d’aquellas de dia de Maio que o catholico senado municipal votou e
prometteu a Nossa Senhora da Escada de acabar para sempre. Mas San’João
fez-se um santo de exemplar tolerancia desde que lhe tiraram a cabeça
por elle não podêr ver, sem ralhar, as desinvoltas pernas da baiadera
Herodias.
Não quero folgar com o que é serio: mas é notavel que a devoção quasi
universal dos christãos tomasse para patrono e orago de seus mais livres
folgares e festanças, e lhe consagrasse a mais risonha e lasciva estação
do anno, ao austero percursor do Christo, o jejuador penitente do
deserto, o severo censor da soltura cortezan, o protomartyr da moralidade
evangelica.
Sería que a timida singelleza de nossos passados fôsse de proposito
buscar aquelle austero e invisivel inspector de seus ainda então
innocentes brinquedos? (_Nota da segunda edição._)