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É um curioso e rarissimo exemplar, documento notavel da litteratura
portugueza do seculo dezesette. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto
em um folheto de 4.º, com 15 ou 20 paginas. Tenho hoje grande pena de não
ter tirado cópia inteira d’elle antes de o restituir ao meu amigo o Sr.
Lessa, em cujo espólio deverá estar: mas não pude obter mais noticias
d’elle; e outro exemplar não o vi nem sei de quem o visse. Começa com
éstas duas oitavas que agora incontro, incompletas, entre os meus
apontamentos. Todo o poema é na mesma rhyma.
I
Cantemos de Ramiro rei d’Hespanha
E de el-rei Almançor de Berberia,
Quando por desventura tam estranha,
No mais de Hespanha então mouros havia,
Com ânimo cruel, com cruel sanha
Cadaqual ao outro pretendia
Privar de sua fama, honra e estado,
Com todas suas fôrças e cuidado.