É a terceira vez que se imprime o romance MIRAGAIA; só agora porêm vai
restituido ao seu devido logar n’este primeiro livro do ROMANCEIRO.
Publicou-se primeiramente no ‘Jornal das Bellas-artes[29],’ foi logo
vertido em Inglez não sei por quem, e não me lembra em que publicação
appareceu, nem o acho.
Traduziu-o em Francez um curioso[30]; e não me metto a appreciar a que
elle modestamente chama ‘imitação’ do meu romance; dou-a em appendice.
Tambem sei que existe uma versão castelhana pelo Sr. Isidoro Gil, o mesmo
que n’esse idioma traduzira o BERNAL-FRANCEZ. Creio que se publicou em um
jornal de Madrid, mas não a vi nunca.
Eu, quando dei esta bagatella aos Srs. editores do ‘Jornal das
Bellas-artes’ para encherem algum vão que lhes sobrasse n’aquella sua
linda e elegante publicação, escrevi, a um canto do proprio rascunho
original que não tive paciencia de copiar, as seguintes palavras:
‘Este romance é a verdadeira reconstrucção de um monumento antigo.
Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular,
e se cantam no meio da historia ‘rezada’ ainda hoje repettida por
velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos
tambem fabulam cada um a seu modo sôbre a legenda. O auctor, ou, mais
exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do
povo, e sôbre tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de contar e cantar
d’elle; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não póde restituir a
perdida nacionalidade á nossa litteratura.’
O postscriptum, servindo de nota ao commento, sahiu impresso no referido
jornal, e foi ampliado com algumas observações por extremo lisongeiras
dos Srs. editores, a quem muito desejei auxiliar como elles mereciam por
sua gentil imprêza, que era a mais bella e das mais uteis que se teem
commettido em Portugal.
Devo ao seu favor, não só o terem adornado a minha MIRAGAIA com as lindas
gravuras em madeira que todos admiraram, mas o permittirem que se fizesse
com ellas a pequena edição em separado com que quiz brindar alguns
amigos, apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares.
Era uma folha avulsa do meu ROMANCEIRO, e n’elle vai reposta agora que se
offerece tempo e logar conveniente.
Foi das primeiras coisas d’este genero em que trabalhei: e é a mais
antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque
eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se
passam as principaes scenas d’este romance. Dos cinco aos dez annos de
edade vivi com meus paes n’uma pequena quinta, chamada ‘O Castello’ que
tinhamos áquem Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruinas que alli
jazem do castello mourisco.
Na ermida da quinta se venerava uma imagem antiquissima de Nossa-Senhora
com a mesma invocação ‘do Castello,’ e com a sua legenda popular tambem,
segundo o costume.
Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados
pela tradição. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é
deliciosa comeffeito; e tenho idea de me ter custado caro, outra vez, o
imitar, com uma gaita da feira de San’Miguel, os toques da bozina de S.
M. Leoneza, impoleirando-me, como elle, n’um resto de muralha velha do
castello d’elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante
energia, que ainda hoje me lembra tambem.
Assim ólho para ésta pobre MIRAGAIA como para um brinco meu de criança
que me apparecesse agora; e quero-lhe—que mal ha n’isso?—quero-lhe como a
tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale.
Lisboa, 24 de Janeiro 1847.