O ANJO E A PRINCEZA

O célebre êrro commettido pelos Settenta na traducção do _v._ 2 do cap.

VI do GENESIS deu um poema inteiro a Thomaz Moore, ‘_Os Amores dos

Anjos_—The Loves of the Angels’ E d’este partiu o pallido reflexo da

‘Chute d’un Ange’ que apenas animam as bellas pinturas de paizagem feitas

do vivo e natural, e como de mão que as copiou nos proprios sitios: em

tudo o mais o poema de Lamartine é inferior ao do Anacreonte d’Irlanda.

Hoje lêmos na Vulgata:—‘Videntes filii Dei filias hominum quod essent

pulchrae, acceperunt sibi uxores ex omnibus quas elegerant.

O Padre Antonio Pereira verteu:—‘Vendo os filhos de Deus, que as filhas

dos homens eram fermosas, tomárão por suas mulheres as que d’entrellas

lhes agradárão mais.’

O Padre João Ferreira d’Almeida assim:—‘Viram os filhos de Deus que as

filhas dos homens eram fermosas, e tomaram para si mulheres de todas as

que escolheram.’

Mas os Settenta não tinham intendido assim o texto hebraico, e em

vez de—_filhos de Deus_, traduziram—_anjos de Deus_ (_οἰ Αγγελοι του

Θεου_); êrro, que ajudado pelos commentos poeticos de Philon, e pelas

ficções do apocrypho livro de Enoch, accendeu as imaginações meio pagans

de Tertuliano, de Lactancio, e até de San’Clemente-Alexandrino. Seja

ditto com o devido respeito a estes Padres da Egreja: nem Hesiodo nem

Ovidio estenderam fábula alguma do polytheismo por maiores desvarios do

que elles poetizaram acêrca d’esta ficção. Rejeitou-a todavia a maior

parte dos Sanctos Padres. Deplorou-a como absurdo San’João Chrysostomo,

stigmatizou-a de loucura San’Cyrillo. Segundo elles as palavras—_filhos

de Deus_—querem dizer:—os _descendentes de Seth por Enos_, porque

foram os primeiros que invocaram o nome do Senhor. Assim por estoutras

palavras—_as filhas dos homens_—devemos intender:—_as filhas da corrupta

raça de Cain_. É opinião seguida sem disputa, na egreja catholica e em

quasi todas as outras, desde Sancto Thomaz até hoje.

O TARGUM DE ONKELOS, que é a mais antiga das paraphrases chaldaicas, e a

versão de Symacho traduziram—_os filhos dos nobres ou grandes_; a versão

samaritana diz—_os filhos dos juizes_.

E parece que a palavra hebraica, _Elohim_, admitte todas éstas tam

desvairadas interpretações.

Seja como for, d’aquelle desvio de texto e de imaginação nasceu muita

poesia para os escriptores mysticos dos judeus e dos christãos primitivos

e dos gnosticos e de todas essas seitas do Oriente, e porfim, em nossos

dias, para os poemas de dois vates, ambos christianissimos hoje, ambos

eminentemente catholicos—o francez talvez agora um tanto menos,—o

inglez muito mais, principalmente depois d’essa ultima sua obra

philologo-orthodoxa.

Eu porêm não quiz fazer mais do que uma ‘lenda-romance’ como a comporia

um menestrel da edade-media em cujas coplas os donairosos sonhos da

mythologia, assim como os severos mysterios da crença, tomavam sempre

os habitos sociaes do seu tempo. Jupiter era Dom Jupiter, rei de coroa

na cabeça e barbas até á cinta, rodeado de condes e de pagens, servido

por nobres donzellas de espartilho e toucas altas; San’Miguel e o

proprio Lucifer dois cavalleiros de lança em punho e escudo imbraçado,

justando em mui leal batalha n’essas nuvens, com Legiões e Potestades

por mantenedores do campo;—o Olympo era um castello feudal, e o ceo uma

roca-forte. Em summa, sem princezas e cavalleiros não havia poesia para

elles, nem a podia haver, porque essa era a vida que elles conheciam, o

bello e sublime da vida que concebiam.

Por isto o tom biblico d’esta lenda ou legenda necessariamente é

modificado e predominado do ar cavalheresco ou romantico, proprio de um

cultor da Gaya-Sciencia. Veja-se no Cancioneiro de Rezende como, ainda

no seculo XV, o nosso João Rodrigues de-Sa-e-Menezes traduzia—não tanto

do latim para portuguez, quanto do romano para romance, a epistola de

Laodamia. Veja-se como o proprio Sá-de-Miranda na egloga IV reconta as

classicas aventuras de Cupido e Psychis,—verdadeira fonte tambem da muito

romantica e trovada historia da carochinha, _A Bella e a Fera_, que toda

a gente sabe—ou soube quando era pequeno.

O fio da minha legenda é muito singelo. Era uma vez a filha de um rei,

môça, linda, e unica herdeira do throno. Fugia das diversões e grandezas

da côrte para se intregar á meditação na soledade. Adoece mortalmente

emquanto el-rei seu pae anda á guerra. Volta elle triumphante e vem-n’a

achar na derradeira agonia. O seu mal não o intendem os physicos.

Lembra-lhes se será alguma secreta paixão d’amor. Elrei está prompto

a tomar para genro seja quem for, comtanto que lhe viva a filha. Nem

assim. Morre a pobre da princeza, e morre de mal d’amores. Mas como

não havia de ser, se a sua fatal paixão é por um espirito—um gnomo, um

sylpho, um anjo—quem sabe o quê!—talvez outro Bertrand que se apoderou

d’esta Rosalia.—Ao menos, escapámos de segundo Roberto-do-diabo, porque a

boa da infanta era de consciencia, e morreu antes d’isso.

E d’ahi, quem sabe? seria anjo bom o que ella amava. Segundo

San’Basilio, _de vera virginitate_, não póde ser; segundo Tertuliano e

San’Clemente-Alexandrino ja se viu que podia ser.

Campolide, 5 d’Outubro 1842.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 99 / 209 题