NOITE DE SAN’JOÃO

Este romance é e não é da minha simples composição. Estavam-me na saudosa

memoria as vagas reminiscencias d’aquelles cantares tam graciosos com

que, na minha infancia, ouvia o povo do Minho festejar a abençoada

noite de San’João; estavam-me as fogueiras e as alcachofas de Lisboa a

arder tambem na imaginação; e eu era muito longe de Portugal, e muito

esperançado de me ver n’elle cedo: aqui está como e quando fiz ésta

cantiga.

Foi em San’Miguel, as antenas dos nossos navios ja levantadas para sahir

a expedição;—soltámo-las ao vento d’ahi a horas... Isto escrevia-se

na quinta do meu velho amigo, o Sr. José Leite, cavalheiro dos mais

distinctos, e velho o mais amavel que produziu o archipelago dos Açores.

Tambem alli estavam, para inspirar o poeta, uns olhos pretos de quinze

annos, que promettiam arder ainda tanta noite de San’João, fazer queimar

tanta alcachofa por sua conta!... Ja os cubriu a terra.

Faz hoje dez annos que aquillo foi; e ainda não invelheci bastante para o

esquecer.

O romance é tam feito dos ditos e cantares do povo, que nem uma idea nem

talvez um verso inteiro tenha que seja bem e todo meu. Por este motivo,

principalmente, lhe dei logar aqui.

Lisboa, 23 de Junho 1842.

* * * * *

Na collecção ja citada, a LUSITANIA ILLUSTRATA, part. II, pelo Sr. J.

Adamson appareceu a traducção ingleza d’este romance, que vai transcripta

no appendice ao LIVRO II do presente ROMANCEIRO.

Sabe-se tambem de uma versão em Italiano, e de outra em Allemão, que não

chegámos a ver ainda.

Abril, 16—1853.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 91 / 209 题