Com a cabeça cuberta
Do seu agudo capuz,
Os olhos de côr incerta,
Pasmados, fixos... e a luz
Que d’elles sai é tam viva
Que a espaços da vista priva
Quem de perto os quer fitar!
As mãos cruzadas no peito,
Vagaroso seu andar,
Tam pesado e de tal geito
Que faz um echo tremendo
Quando os passos vai movendo,
E como que a terra e o ar,
Com o pêso vão gemendo...
—Foi seu caminho direito
Da tôrre á porta ferrada;
Sem attender a mais nada,
Sem olhar nem para Auzenda,
Que em lagrymas debulhada
Supplices mãos lh’estendia.
Chega á porta, e em voz horrenda
—‘Abre-te!’—disse. Estallou
O ferro medonhamente,
E a porta se escancarou,
—Mas elle subitamente,
Voltando-se para a turba,
Que alto alarido alevanta
E em derredor se perturba,
Com gesto que aos mais ousados
Todo o ânimo quebranta,
—‘Immudecei!’ lhes bradou.
Ficaram todos callados;
E—_immudecei_—revibrou
De echos em echos dobrados
Pelo castello e jardim,
Pelos soutos ao redor,
Pelos campos dilatados
Que a Dom Sisnando obedecem
E por senhor reconhecem
Ao ricco-homem de Landim.
—Depois estendendo a mão
Ao logar onde jazia
Por morto no frio chão
O desgraçado Sisnando,
Éstas palavras dizia
Que em ouco som vão soando:
—‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘Que o teu peccado,
Abominado
Do proprio inferno,
Só tem perdão
Com longa vida
De penitencia,
De contrição,
Que a alma perdida
Salve do inferno,
Da maldicção.
‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘O anjo celeste
Na hora última
Te perdoou,
E ao Pae Eterno
A tua victima
Por ti rogou
‘Lazaro immundo,
N’esta grande hora
Volve-te á vida,
Vem, surge fóra!’