XII

Com a cabeça cuberta

Do seu agudo capuz,

Os olhos de côr incerta,

Pasmados, fixos... e a luz

Que d’elles sai é tam viva

Que a espaços da vista priva

Quem de perto os quer fitar!

As mãos cruzadas no peito,

Vagaroso seu andar,

Tam pesado e de tal geito

Que faz um echo tremendo

Quando os passos vai movendo,

E como que a terra e o ar,

Com o pêso vão gemendo...

—Foi seu caminho direito

Da tôrre á porta ferrada;

Sem attender a mais nada,

Sem olhar nem para Auzenda,

Que em lagrymas debulhada

Supplices mãos lh’estendia.

Chega á porta, e em voz horrenda

—‘Abre-te!’—disse. Estallou

O ferro medonhamente,

E a porta se escancarou,

—Mas elle subitamente,

Voltando-se para a turba,

Que alto alarido alevanta

E em derredor se perturba,

Com gesto que aos mais ousados

Todo o ânimo quebranta,

—‘Immudecei!’ lhes bradou.

Ficaram todos callados;

E—_immudecei_—revibrou

De echos em echos dobrados

Pelo castello e jardim,

Pelos soutos ao redor,

Pelos campos dilatados

Que a Dom Sisnando obedecem

E por senhor reconhecem

Ao ricco-homem de Landim.

—Depois estendendo a mão

Ao logar onde jazia

Por morto no frio chão

O desgraçado Sisnando,

Éstas palavras dizia

Que em ouco som vão soando:

—‘Eu te esconjuro,

Alma perdida,

Volta-te á vida!

‘Que o teu peccado,

Abominado

Do proprio inferno,

Só tem perdão

Com longa vida

De penitencia,

De contrição,

Que a alma perdida

Salve do inferno,

Da maldicção.

‘Eu te esconjuro,

Alma perdida,

Volta-te á vida!

‘O anjo celeste

Na hora última

Te perdoou,

E ao Pae Eterno

A tua victima

Por ti rogou

‘Lazaro immundo,

N’esta grande hora

Volve-te á vida,

Vem, surge fóra!’

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 72 / 209 题