Tudo lhe conta Adozinda,
Tudo... tudo,—interrompendo
A horrorosa narração
Ora as lagrymas fervendo,
Ora os soluços rompendo
Do rasgado coração,
Ora os labios descorados
De pejo e terror gelados,
Sem podêr nem balbuciar
O que é fôrça revelar.
X
—‘Irás’ disse Auzenda emfim,
E a voz, que treme, assegura:
‘Irás a teu...’—_pae_ não disse,
E um som rouco lhe murmura
Nos labios onde a meiguice,
Onde a maternal ternura
Procuram em vão surrir:
‘Irás, filha, a Dom Sisnando
E lhe dirás que...’
—‘Senhora!’
Interrompe ella chorando
—‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora
Da meia-noite soar,
Em teu quarto o hasde esperar.
Não temas, filha, não tremas,
Não chores, minha Adozinda,
Querida filha, não gemas,
Que hasde ser feliz ainda.
No angustiado seio
Guardemos inda a esperança:
Do ceo mandada me veio
Uma ditosa lembrança
Que nos poderá salvar.
No teu leito d’ouro fino
Sou eu que me heide ir deitar;
Tua camiza de hollanda
A meu corpo heide lançar:
E quando elle nos seus braços
Ter Adozinda julgar...
Ah! que o ceo hade abençoar
Este ingano virtuoso,
E a ser pae, a ser espôso
Dom Sisnando hade voltar.’