IX

Tudo lhe conta Adozinda,

Tudo... tudo,—interrompendo

A horrorosa narração

Ora as lagrymas fervendo,

Ora os soluços rompendo

Do rasgado coração,

Ora os labios descorados

De pejo e terror gelados,

Sem podêr nem balbuciar

O que é fôrça revelar.

X

—‘Irás’ disse Auzenda emfim,

E a voz, que treme, assegura:

‘Irás a teu...’—_pae_ não disse,

E um som rouco lhe murmura

Nos labios onde a meiguice,

Onde a maternal ternura

Procuram em vão surrir:

‘Irás, filha, a Dom Sisnando

E lhe dirás que...’

—‘Senhora!’

Interrompe ella chorando

—‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora

Da meia-noite soar,

Em teu quarto o hasde esperar.

Não temas, filha, não tremas,

Não chores, minha Adozinda,

Querida filha, não gemas,

Que hasde ser feliz ainda.

No angustiado seio

Guardemos inda a esperança:

Do ceo mandada me veio

Uma ditosa lembrança

Que nos poderá salvar.

No teu leito d’ouro fino

Sou eu que me heide ir deitar;

Tua camiza de hollanda

A meu corpo heide lançar:

E quando elle nos seus braços

Ter Adozinda julgar...

Ah! que o ceo hade abençoar

Este ingano virtuoso,

E a ser pae, a ser espôso

Dom Sisnando hade voltar.’

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 52 / 209 题