IV

Alta a lua vai no ceo,

E as sombras leves e raras

Não impedem ás florinhas,

Não tolhem ás aguas claras

De brilhar co’a luz nocturna,

Menos resplendente e fúlgida,

Porêm mais suave e placida,

Mais amavel que a diurna.

Manso o vento, que murmura

Entre as folhas brandamente,

Convida suavemente

A respirar, a bebê-la,

Essa fresca viração,

Das flores exhalação,

Tam doce como o bafejo

De dous amantes queridos

Quando por amor unidos

Se dão mútuo e doce bejo.

V

Na feiticeira belleza

Da noite, do ceo, das flores

Várias d’aroma e de côres,

Sisnando todo imbebido,

No seio da natureza

Do resto do orbe esquecido,

Pouco a pouco a agitação

D’alma lhe foi abrandando,

E o pesado coração

Do affôgo desappertando:

Ja póde gemer,—suspira,

E como que se lhe tira

Um pêso de sôbre o peito,

Que a suspirar foi desfeito.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 32 / 209 题