Alta a lua vai no ceo,
E as sombras leves e raras
Não impedem ás florinhas,
Não tolhem ás aguas claras
De brilhar co’a luz nocturna,
Menos resplendente e fúlgida,
Porêm mais suave e placida,
Mais amavel que a diurna.
Manso o vento, que murmura
Entre as folhas brandamente,
Convida suavemente
A respirar, a bebê-la,
Essa fresca viração,
Das flores exhalação,
Tam doce como o bafejo
De dous amantes queridos
Quando por amor unidos
Se dão mútuo e doce bejo.
V
Na feiticeira belleza
Da noite, do ceo, das flores
Várias d’aroma e de côres,
Sisnando todo imbebido,
No seio da natureza
Do resto do orbe esquecido,
Pouco a pouco a agitação
D’alma lhe foi abrandando,
E o pesado coração
Do affôgo desappertando:
Ja póde gemer,—suspira,
E como que se lhe tira
Um pêso de sôbre o peito,
Que a suspirar foi desfeito.